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Acolha um estagiário

 

Na EMEI Nelson Mandela, na Zona Norte de São Paulo, o envolvimento do estagiário de Educação vai além de simplesmente observar e fazer anotações sentado no fundo da sala de aula.

O estágio curricular supervisionado é passo obrigatório para quem quer ser professor. Em 2002, o Conselho Nacional de Educação (CNE) estabeleceu o patamar mínimo de 400 horas a partir da metade do curso. O objetivo é oferecer contato real com o dia a dia da docência, permitindo que se acompanhe e aprenda, na prática, atividades como o planejamento de aulas ou a elaboração de projetos pedagógicos. Muitas escolas, gestores e estagiários, no entanto, sentem dificuldade na hora de transformar essa experiência em algo positivo para todos.

Na Nelson Mandela, os estagiários participam das formações oferecidas aos docentes e das reuniões pedagógicas. “Convidamos à prática para combater o discurso de que os professores recém-formados chegam despreparados às escolas. Seria contraditório fechar as portas”, explica a gestora Cibele Racy.

Foram essas portas abertas que receberam Cristiana Câmara Araújo, 34 anos, cujo estágio é focado em gestão e coordenação. “Eu poderia simplesmente recolher todas as informações pedidas pela faculdade, entrevistando a coordenadora e a gestora, mas elas me abraçaram como alguém a ser formado”, diz a estudante de Pedagogia, que trabalhou com a coordenadora Solange Miranda. Em vez de se restringir, Cristiana aprendeu a observar todas as atividades lideradas por elas, de reuniões de conselho até organização de festas. “Aprendi a fazer todo o planejamento das ações da gestão e também que é preciso envolver todos os funcionários como educadores”, afirma.

“Quando chega um estagiário à minha sala, já digo: ‘Saia do fundão e sente aqui do meu lado’”, afirma Soraya Freire de Oliveira, professora da EMEF Thomas Meirelles, na Zona Sul de Manaus, que vê o aluno-estagiário como um parceiro.

Sua última experiência envolveu um grupo de estagiários que apresentou uma aula com o tema trânsito. A professora, que já ganhou prêmios de Educação nessa área, não ficou de fora.

“Os estagiários foram à escola apresentar um projeto da faculdade, que era uma aula sobre trânsito. Estava acompanhando a minha turma, mas percebi que eles estavam muito nervosos. Comecei a interagir e a fazer intervenções por meio da oralidade, provocando situações para que eles perdessem a timidez e começassem a trabalhar a temática”, diz.

Segundo ela, nessas situações, é preciso contribuir como educadora, sem tirar o foco dos estagiários.

“Percebi que eles se limitavam às questões objetivas, como placas e sinal. Mas é preciso debater o tema com transversalidade, abordando os valores, pois motoristas e pedestres conhecem as regras, mas falta Educação. Esse toque final transformou a apresentação em um show e eles ficaram muito agradecidos”, diz.

Liberdade para atuar

Em Salvador, a escola acolheu as ideias da estagiária Ingrid e criou oficinas de Espanhol. Crédito: Pedro Silveira
Localizado no Arenoso, bairro da periferia de Salvador, o Colégio Norma Ribeiro também se destaca por realizar práticas diversificadas. O espírito de liberdade possibilitou que a estagiária Ingrid Amorim, 22 anos, além de vivenciar a prática docente, desse a sua contribuição para a comunidade escolar.

Ao identificar que não havia ensino de Espanhol no currículo, a estudante de Letras na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) sugeriu a criação de oficinas do idioma para o Ensino Médio, articuladas com o estudo de aspectos culturais de cinco países da América Latina relacionados ao universo dos adolescentes, como séries de televisão e feminismo, por exemplo. Hoje, ela toca sozinha o projeto, que atende dez alunos.

“Colocar os estagiários em sala de aula e esperar que eles se virem não é uma boa contribuição. É preciso dar oportunidades para se desenvolverem”, ensina a diretora Maria das Graças Novais, que acolheu as ideias de Ingrid. A experiência de planejar seu primeiro projeto, da concepção à execução, foi marcante para a estagiária. “Vou levar esse aprendizado para toda a minha carreira: saber identificar qual é a necessidade dos alunos e criar com eles com base nisso”, explica Ingrid, que acredita que esse tempo na escola deveria ser ainda maior para o estagiário. “Por mais que a escola inove, a pouca carga horária limita”, diz.

Desafios

A sensação de despreparo para entrar em sala de aula é relatada por 40% dos recém-formados como motivo de desistência da carreira, revela Caroline Tavares da Silva, gerente de projetos da ONG Todos pela Educação. Além disso, sem direcionamento no estágio obrigatório, o futuro professor sente-se perdido e desestimulado. O estágio logo nos primeiros momentos do curso de graduação, bem como o acompanhamento próximo das experiências dos estagiários pelas universidades, ajudaria a aprimorar essa etapa da formação.

É o que acontece em países como Finlândia, Cingapura e Chile, onde há trocas entre universidades e escolas de Educação Básica (leia mais no quadro abaixo). “No Brasil, há boas práticas, mas elas estão sozinhas. É preciso um investimento em política pública de estágios remunerados, que permitiriam ao aluno passar mais tempo na escola”, completa Caroline.

Para Cristina Nogueira Barelli, coordenadora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades, os estágios deveriam ser mais valorizados na formação justamente por prepararem para atividades fundamentais, como aprender a se relacionar com os alunos. “Embora as Diretrizes Curriculares Nacionais exijam que cursos de Pedagogia e licenciatura tenham 400 horas de estágio curricular em seus projetos pedagógicos, optamos por ampliar a carga horária em nossa faculdade”, diz Cristina. “Além disso, sempre convidamos as escolas de educação básica para uma conversa. Queremos entender o que elas esperam de nós e mostrar o que esperamos delas. É a troca que baliza a nossa prática. Só essa experiência é capaz de formar professores com um olhar construído para a realidade educacional do país”, diz a coordenadora.