by

A adaptação escolar e o sofrimento dos pais

Por Ana Paula Yazbek

Sempre que uma nova criança chega ao Espaço da Vila, nós nos organizamos para recebê-la. Desde os primeiros contatos, quando as famílias partilham suas expectativas e dúvidas, inseguranças, procuramos nos aproximar e conhecer quem está chegando.

Também organizamos sua recepção na turma a qual ela fará parte. Definimos qual educadora ficará mais próxima e quem permanecerá na turma dando segurança às demais crianças. Também estabelecemos quais crianças da turma vão ficar mais perto da educadora e da nova criança, de modo a garantir que todas se sintam acolhidas com as mudanças que estão ocorrendo.

Há momentos em que o choro predomina, tanto o da nova criança, como o de algumas crianças que já frequentam o Espaço e é necessário que sempre se tenha muita atenção. O choro é uma forma de comunicação, é uma maneira de dizer sobre o que parece que está bom, o que parece que não está tão bom. Assim, buscamos acolher este choro, oferecendo o colo, mostrando o que está acontecendo e tentando mostrar para a criança onde ela está, quem são as pessoas que estão ali.

Se ela chora pedindo pela mãe ou pelo pai, dizemos onde eles estão e que assim que possível vão chegar, sem tentar distraí-las Nos recusamos à ideia fazer com que ela nem perceba que o pai e a mãe não estão com a gente, ou que nem perceba onde ela está e que algo está lhe fazendo falta.

A partir do momento que ela sinaliza que sente a falta, achamos importante dar voz a esta falta, para isso, contamos o que a mãe foi fazer e mostramos que em breve ela irá chegar. Chamamos a mãe pelo nome e contamos para a criança qual combinado fizemos com ela, por exemplo: “Sua mãe, a Andréa, falou para eu cuidar muito bem de você, porque ela foi trabalhar e quando voltar, ela disse que vai te encher de beijinhos e enquanto isso eu estou cuidando de você. Além de mim, tem também muitos amigos, o João, a Maria, a Antonia e todo mundo que está aqui perto e agora a gente vai fazer uma brincadeira muito legal no tanque de areia”.

Quando a criança escuta esta narrativa do que está acontecendo e ainda irá acontecer, o choro ainda pode permanecer, mas ela percebe que naquele momento, quem está falando com ela, está realmente fazendo de tudo para que ela se sinta melhor.

Assim, vamos acolhendo e começamos a perceber os sinais de familiaridade que pouco a pouco a criança vai nos dando sobre o que acontece quando ela está conosco. Há crianças que se acalmam quando nos acompanham em tarefas, como lavar os pinceis após uma situação de pintura, outras que ficam mais tranquilas ao dar voltas pelo jardim e perceber os detalhes que compõem nossa área externa (enfeites, brinquedos, flores, bichinhos de jardim). Assim vamos construindo percepções deste entorno que ainda é novo, mas que tem coisas que ela, pouco a pouco, reconhece.

Buscamos fazer com que a criança se sinta bem, que perceba que as pessoas estão ligadas a ela e a seus familiares. Quando os pais chegam, tudo o que aconteceu é contado para eles na presença da criança.

“Não é verdade Fábio que você chorou e chamou por sua mãe e eu te contei que ela tinha ido trabalhar e quando voltasse ela iria lhe dar muitos beijinhos? Então veja que bom, ela chegou e está aqui te dando beijinhos!”.

“Eu não te contei que iriamos falar para ela tudo o que fizemos…”. E assim vamos retomando cada uma das vivências, partilhando novamente com a criança e também com a família o que aconteceu, criando referências deste novo dia a dia. No dia seguinte, saudamos a chegada da criança e relembramos das coisas que fizemos juntas. Numa narrativa, deste cotidiano que pode ainda ser estranho, mas que pouco a pouco vai se compondo, ganhando coloridos, risadas, histórias e muitas ações que são partilhadas.

As outras crianças vão se tornando pessoas conhecidas, esta nova criança também vai se tornando conhecida dos seus colegas, a qual a presença é bem-vinda e isso vai dando os contornos para construção da identidade de uma nova turma.

As experiências que temos em relação à adaptação, nos ajudam a trilhar caminhos, pensar em possibilidades, mas os choros, as angústias, as dificuldades, os estranhamentos, são inerentes a este momento. Porque cada vez é uma nova criança, uma nova família, são outras pessoas que estão vivendo estas tensões.

A certeza de que a criança ficará bem e que partilhar destas novas vivências será positivo em sua vida nós sempre temos, agora quanto tempo irá demorar, depende de cada uma das crianças e famílias. Por isso, tem que ser um trabalho extremamente delicado, sensível, marcado pela gentileza, pela troca de olhares e por uma parceria real. Por mais choro que haja, deve haver uma conexão verdadeira com a criança, por mais angústia que uma mãe ou um pai esteja sentindo, ela é recebida como alguém que merece acolhimento.

Este processo é sempre muito bonito e vale a aposta de que, por mais difícil que pareça, sempre haverá conquistas e a possibilidade de construção de novas relações.

 

* Ana Paula Yazbek, Pedagoga formada pela Faculdade de Educação da USP, com especialização em Educação de Crianças de zero a três anos pelo Instituto Singularidades; é sócia-diretora do Espaço da Vila, berçário que atende crianças de 0 a 3 anos; trabalha com formação de professores desde 1995 e desde 2002 está voltada exclusivamente aos estudos sobre as crianças pequenas.