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Alfabetização: o que é preciso para a criança dominar a escrita?

De repente, vira-se uma chave: a criança que só reconhecia as letras do alfabeto meses atrás passa a unir sílabas e decodificar palavras. Em passeios pela rua, em casa, diante de cardápios e letreiros de lojas, começa a ler em voz alta todas as palavras que encontra. A alfabetização é uma etapa fundamental no seu desenvolvimento e um momento muito marcante na vida dos pais, e por isso mesmo capaz de gerar muita ansiedade.

Instituto Singularidades

Mas o que é exatamente a alfabetização? Cristina Nogueira, coordenadora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades, esclarece: “Entende-se alfabetização como o domínio da técnica da escrita, quando a criança entende a relação entre letra e som e começa a escrever com autonomia, próximo ao padrão e de acordo com as normas da escrita”.

Claro que, antes desse momento, há uma etapa mais ampla, que envolve trabalhar aspectos relacionados à formação da leitura e da escrita, ainda que não se exponha a criança diretamente à alfabetização. A Irmã Patrícia Ferreira de Morais, coordenadora geral da Educação Infantil e do Fundamental I do Colégio Santa Marcelina, em São Paulo, conta que, ali, esse é um movimento praticado desde que os pequenos ingressam na escola: “Com dois anos, os alunos são inseridos em um universo de letramento. Têm atividades de estimulação e de leitura de mundo. Assim, com imagens e símbolos, vamos preparando a criança”.

De acordo com a psicóloga e pedagoga Betty Monteiro, o processo formal de alfabetização deve começar a partir dos sete anos de idade. Para ela, trata-se de um marco que deve ser respeitado, pois, nessa idade, o sistema nervoso já está amadurecido e as células nervosas estão mielinizadas, ou seja, com uma camada que as amadurece e as deixa prontas para absorver essas informações. Além disso, para dominar a escrita, é preciso trabalhar, com a criança, a coordenação motora fina, a noção de tempo e de espaço, o saber se reconhecer e reconhecer o outro, conseguir decodificar símbolos, ter boa percepção visual e capacidade de discriminar sons.

“Antigamente chamávamos isso de prontidão para a alfabetização, requisitos básicos. Mas a criança deve estar pronta. Antes disso, a Educação Infantil tem um papel fundamental, por ser um período preparatório físico, sensorial, emocional e psicomotor. Ela é decisiva para o sucesso escolar da criança”, explica Betty.

Como a alfabetização acontece

Escolas de linhas pedagógicas variadas introduzem as crianças ao processo de alfabetização de formas diferentes, mas, a partir da Lei do Ensino Fundamental, de 2006, que ampliou essa etapa de ensino para nove anos de duração com matrícula de crianças de seis anos de idade, a orientação passou a ser a de alfabetizar os alunos somente nesta fase. Esse processo se iniciaria no primeiro ano, mas se estenderia pelos próximos. Um documento do Ministério da Educação diz: “O Ensino Fundamental de nove anos ampliou o tempo dos anos iniciais, de quatro para cinco anos, para dar à criança um período mais longo para as aprendizagens próprias desta fase, inclusive da alfabetização”.

Cristina Nogueira explica que há muitas discussões no meio da educação sobre a antecipação da alfabetização e uma eventual determinação para que o processo se encerre no segundo ano. No entanto, de acordo com a especialista, mais importante do que antecipar, é garantir que a criança curse uma Educação Infantil em que consiga “se apropriar de atitudes e comportamentos que envolvam a leitura e a escrita mesmo que ela não saiba escrever convencionalmente. Assim, já começará a construir conceitos importantes para depois usar a autonomia para a leitura e a escrita”.

Outro ponto importante é que, desde os anos 1980, com pesquisas como a desenvolvida pela psicolinguista argentina Emilia Ferreiro, que observou a escrita de crianças não alfabetizadas, a alfabetização passou a ser compreendida como um processo que vai além da apropriação do sistema de escrita e leitura. “Passa não só por conhecer letras e sons e por conhecer o sistema do Português, mas por reconhecer e saber usar a leitura e a escrita em diferentes contextos, que é um conhecimento que a criança pode vivenciar antes de ser alfabetizada”, explica Cristina. Assim, entende-se que a criança pensa sobre a forma como escreve, vai criando hipóteses alfabéticas e construindo as palavras e os significados.

No trabalho que o Instituto Singularidades desenvolve de formação de professores, tem-se uma perspectiva de que os participantes conheçam diferentes teorias e métodos de alfabetização, entendendo que a criança é ativa na construção do próprio conhecimento, mas sabendo fazer as intervenções certas para que o aluno avance no seu processo. Cristina esclarece: “A criança não se alfabetiza sozinha. O adulto precisa ter bom conhecimento para fazer as perguntas e usar os materiais que ajudarão o aluno a se apropriar da escrita”.

por Martha Lopes, do Catraquinhalivre
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