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Aprendendo a lidar com as próprias diferenças (Revista Crescer)

Qual o momento certo – e como contar à criança – e a todos ao redor que ela tem uma limitação física

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Quando a médica neonatologista anunciou, ainda na sala de parto, que meu filho havia nascido com uma malformação, as lágrimas de emoção deram instantaneamente lugar a um choro compulsivo. Os médicos pediram calma e avisaram que o bebê estava bem, muito bem. Mas haviam notado uma assimetria no peito no Tome. Após exames de raio X e tomografia, foi constatado que a diferença se devia a falta do músculo peitoral maior esquerdo. A suspeita é que ele teria a chamada Síndrome de Poland. Nunca tínhamos ouvido falar disso, mas descobrimos que poderia afetar alguns órgãos como o coração e os rins. Até aquele momento, porém, os exames mostravam que ele era uma criança saudável. Já em casa, passado o susto inicial, surgiram as dúvidas: devemos contar para a família e para os amigos? Qual o momento certo? Como preparar o filho para lidar com a questão, sem que ele sofra por ter uma diferença física?

Meu filho ainda está descobrindo o próprio corpo e, para os especialistas, eis uma fase ótima para começar de alguma forma a mostrar a verdade a ele. A exigência primeira, claro, é bem importante: eu e o pai temos de nos preparar antes. Diante de um caso como este, os pais precisam buscar todo o tipo de informação sobre o problema do filho, inclusive ajuda psicológica se achar necessário. “A situação tem de ser bem resolvida na cabeça deles para que seja na da criança também”, diz Isabel Cristina Gomes, professora de psicologia da Universidade de São Paulo.

Como fazer isso? Mostrando as singularidades de cada um. “Todos nós somos diferentes. Um é loiro, o outro moreno, um mais gordo, outro mais magro. E é assim também quando há um problema físico”, explica Isabel. Por meio de histórias, os pais, familiares e cuidadores podem explicar quais são as limitações da criança, se houver. Mas evidentemente não podemos superproteger o Tome. Afinal, a criança não pode se sentir mais frágil que os colegas. Por último, e não menos importante, está a autoestima dele. Não sei como vai ser quando meu filho crescer. Mas desde já tento fazer com ele acredite em si mesmo, nos pequenos gestos, como ao incentivá-lo a rolar pelo chão para alcançar um brinquedo.

Na escola

Outro receio que tive, mesmo sabendo que levaria uns meses para o Tome entrar na escola, é como o problema seria tratado nesse ambiente. Temos de contar aos professores e aos colegas? A resposta, descobri mais tarde, é sim. As crianças precisam saber que há algo diferente no amigo – e de forma simples e objetiva. “O que não é explicado, gera fantasia”, alerta Birgit Mobus, fonoaudióloga e psicopedagoga da Escola Suíço Brasileira de São Paulo. Por outro lado, em casa, temos de preparar o nosso filho para responder as dúvidas – e olhinhos curiosos – sobre a condição dele. O que provavelmente vai acontecer em alguma aula de educação física ou durante o jogo de bola no recreio, quando todos resolverem tirar a camisa. Saber como explicar a própria diferença física, nesse caso, é fundamental. Assim como se impor ao ouvir comentários maldosos. Seja qual for o problema, uma doença ou um acidente que deixou marcas, o papel dos educadores é continuar o que se começa em casa: o respeito pelas diferenças.

O ideal é que haja integração entre os profissionais da escola e os especialistas que acompanham a criança, como médicos, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. “Conhecendo as limitações do aluno fica mais fácil lhe oferecer oportunidades iguais”, afirma Birgit. “Em atividades competitivas, por exemplo, adaptações que proporcionem condições iguais são importantes”, afirma Birgit.

Meu pequeno, hoje com 9 meses, não apresenta qualquer sinal de que terá limitações, até porque a suspeita da síndrome não se confirmou. Trata-se de uma questão estética, que ele poderá corrigir, se quiser, na adolescência, com cirurgia plástica. Quando chegar o momento, com certeza, conversaremos sobre o assunto. Enquanto isso, sempre que está muito quente, ele brinca com os primos, passeia na rua ou rola pela casa só de fraldas. Jamais evitamos deixá-lo com o peito à mostra.

Fonte: Revista Crescer