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Atrever-se à inovação, um possível desafio

Por Edith Rubinstein *

Escola, tal como a Família, tem como objeto a responsabilidade de promover o desenvolvimento humano e seu enlaçamento social. Aprender é parte da condição humana, é seu órgão de sobrevivência. Animais já trazem no organismo as condições necessárias. Humanos precisam aprender com os outros mais experientes as regras e condições para adaptar-se, criando condições satisfatórias para uma vida funcional e criativa. Essa é a característica principal da condição humana. Ou seja: nascemos para aprender e vivemos num estado de “aprendência”.

Um dos objetivos da Educação Formal contemporânea é a construção da autonomia moral e intelectual dos estudantes, promovendo a constituição de pessoas criativas, críticas e sobretudo curiosas. Esta é uma meta a ser alcançada no âmbito dos processos ensino/ aprendizagem. Não é fácil e nem algo que ocorra naturalmente. Envolve muito trabalho para lidar com frustrações e a incerteza devido à complexidade dos conteúdos considerados importantes pela sociedade. Os desafios atingem ambos, ensinantes e aprendentes.

A universalização da escolarização é requisito fundamental numa sociedade democrática que pretenda elevar não apenas a qualidade de vida, mas o desenvolvimento da Nação. Paradoxalmente este bem social não tem conseguido atender à diversidade das condições singulares contribuindo parcialmente para o insucesso escolar. Colocando uma lente para examinar a natureza do insucesso me arrisco a dizer que infelizmente temos, atualmente, uma “boa safra de fracassados na escola”, decorrente do que chamo de “escola sapato pesado” (Rubinstein, 2017).

São multifatoriais as causas do insucesso escolar, porém quando a Escola não atende adequadamente à criança ou adolescente resulta na má inserção no meio educativo. Nessa situação, os fatores causadores são externos e as dificuldades são de “ordem reativa”, isto é, uma reação à uma pedagogia inadequada (Fernandez, 1990). Ela provoca desconforto, fere a autoestima do estudante, pois o esforço é insuficiente para os resultados necessários. As dificuldades de ordem reativa originam-se em propostas pedagógicas e institucionais que desconsideram as possibilidades e condições dos alunos.

Infelizmente as inadaptações dos alunos, com raras exceções, são interpretadas como transtornos de aprendizagem. Com alguma frequência observamos crianças no início da escolarização que, ao não acompanharem o ritmo de seus pares no “parto” da alfabetização, precisam de atendimentos específicos fora do contexto escolar.

O ritmo das mudanças tecnológicas tem promovido o surgimento de novas necessidades, crenças e desafios para os envolvidos no “enlaçamento social”, a Família e a Escola. O primeiro desafio é a escuta da voz da infância. O termo infantiae significa aquele que não tem voz. Esta ideia acompanhou, e ainda acompanha, muitos projetos pedagógicos. O filme “Os incompreendidos”, (Truffaut, 1959) retrata poeticamente a escola do início do século XX na França quando o aluno não tinha voz, era incompreendido, não se abria espaço para a singularidade, o aluno que não se adaptava ia para o reformatório. Saltando para o século XXI, vemos uma Escola na qual a voz do infante e do adolescente está presente. O seriado Merli, filme catalão da Neteflix, mostra um cenário oposto: alunos não somente têm voz, como há espaço para lidar com o sofrimento e os desafios presentes na comunidade escolar. O professor Merli mostra-se nas suas sombras e luzes, assim como os seus alunos.

A sociedade pede mudanças. A mudança paradigmática é imperativa! A insatisfação está presente na sociedade.

Parcela das famílias esclarecidas almeja a inovação, pois a escola do século XX, tal como está, não atende as necessidades do século XXI. A inovação não significa “jogar a água suja junto com o bebê”. Projetos inovadores bem conduzidos não descartam tudo, pois o arejamento e a renovação caminham juntos. A ressignificação de conteúdos e prática alimentadas pelo conhecimento científico está em consonância das condições singulares de cada contexto. Acredito que só é possível “sair da caixinha” de modo relativamente satisfatório quando o projeto político pedagógico não está engessado. Na Escola tradicional o aluno é que precisa se adaptar ao currículo, essa é a regra.

Lidar com a diversidade na construção do conhecimento demanda abertura para avaliar as necessidades e intervir “fora da caixinha”, isto é, flexibilidade para oferecer conteúdo e práticas diferenciadas que atendam singularmente. Nessas condições é insuficiente a boa vontade e o acolhimento. Demanda conhecimento e competência para avaliar a situação específica de cada aluno que não corresponde à maioria do grupo. Abre-se espaço para a intervenção psicopedagógica institucional. Perrenaud, (Pereira 1998:170) propõe uma posição que denomina “clínico”, que consiste numa modalidade de intervenção institucional. Ele adverte que não há intenção de transformar o professor em psicólogo clínico ou psicanalista. Ele define clínico como:

“O clínico é aquele que, ante uma situação problemática complexa, possui as regras e dispõe de meios teóricos e práticos para: a) avaliar a situação; b) pensar em uma intervenção eficaz; c) pô-la em prática; d) avaliar sua eficácia aparente; e) corrigir a pontaria. Ensinar não consiste em aplicar cegamente uma teoria e nem tampouco conformar-se com um modelo. É antes de nada solucionar problemas, tomar decisões, agir em situação de incerteza e, muitas vezes de emergência. Sem para tanto aprofundar-se no pragmatismo absoluto e em ações pontuais.” (1998:170).

A posição “clínico” demanda formação continuada dos educadores e disponibilidade para lidar com a incerteza, porém apoiando-se nos meios teóricos e práticos para encontrar possíveis saídas e disponibilidade para efetuar mudanças. Crianças que fracassam no início da escolarização são alunos de risco. A Escola Democrática que atende a todos e a cada um assume a responsabilidade não só pelas questões acadêmicas, mas sobretudo pela constituição do sujeito da aprendizagem. Pain, psicopedagoga argentina que tem contribuído na formação dos profissionais especialistas na aprendizagem humana, isto é, psicopedagogos alerta:

“O sujeito não é sujeito até que conheça. É sujeito porque conhece, e é sujeito a esse conhecimento… Permitir à criança apropriar-se de um conhecimento é permitir-lhe fortificar seu ego, na medida em que ela pode se constituir em uma personalidade mais segura, mais dominante e mais responsável” PAIN (1996: 15)

A inovação inclui atender aos interesses e condições singulares e da comunidade, não significa “escola livre ou fraca”. O escolar para aprender precisa de dois movimentos: resignar-se às regras do objeto, assujeitar-se, mas também ressignificar o objeto do conhecimento relacionando-o com outros conteúdos para apropriar-se do mesmo. Da parte dos ensinantes, inovar demanda flexibilizar currículos considerando a singularidade individual e coletiva para contribuir na formação integrada e integral de um ser em desenvolvimento. Não é pouca coisa. Demanda projeto político pedagógico revisto continuamente. O professor nessa modalidade de proposta não está sozinho no seu cotidiano, há uma rede que coopera e colabora nas decisões dos possíveis rumos dos projetos.

Mudanças paradigmáticas surgem quando há falta, pela insatisfação. Possivelmente as escolas chamadas democráticas tem sua origem na insatisfação. Professores queixam-se dos os alunos que não querem aprender, não suportam o esforço, não se interessam. Alguns professores estão insatisfeitos por não se perceberem reconhecidos em suas ações. As famílias se queixam de que a Escola não atende às necessidades e interesses dos jovens. O que fazer diante da insatisfação dos educadores formais e informais/pais e responsáveis? Atender ao apelo de que as soluções virão a partir do saber dos especialistas? A Tecnologia poderá responder às demandas da complexidade? Abandonar todas práticas tradicionais? As mudanças dependem de quem? Do que? Como introduzir aprendizagem significativa? Penso que o caminho não é dar respostas, mas levantar questionamentos para toma-los como balizas norteadoras para a inovação.

Lidar com a incerteza não é fácil, gera ansiedade e frustração. Em tempo de respostas “para ontem” nem sempre há muito espaço para a “reflexação”, isto é, refletir sobre a ação, a qual requer questionamento constante para rever processos e práticas. A “chave mestra” é a capacidade de gerar perguntas para possíveis  As dificuldades de ordem reativa originam-se em propostas pedagógicas e institucionais que desconsideram as possibilidades e condições dos alunos e provisórias respostas. Acredito que o binômio incerteza/questionamento seja uma das molas propulsoras para lidar com a complexidade das narrativas que fazem parte do contexto educacional. A escola tradicional lidou com o discurso da certeza de que determinadas práticas e determinadas condições dos envolvidos geravam resultados previsíveis.

Voltando à expectativa de formarmos pessoas mais autônomas moralmente e intelectualmente, considero útil o conceito de Experiência de Aprendizagem Mediada desenvolvido por Reuven Feuerstein na década de 70, inicialmente no processo avaliativo e aplicado posteriormente no Programa de Enriquecimento Instrumental. Esta prática tem por objetivo contribuir na formação de pessoas questionadoras, críticas, com habilidade de argumentação. Sua espinha dorsal é aprendizagem significativa. Os três primeiros critérios de mediação educacional são: a) intencionalidade do educador/formador e a reciprocidade do educando; b) significado da experiência; c) transcendência ou aplicabilidade do conteúdo/experiência para outro contexto. Essencialmente este modelo educacional visa construir novas necessidades, entre elas a capacidade de estabelecer relações entre os conteúdos. Autonomia vem junto com domínio e este é construído a partir de mediação educacional bem conduzida no sentido de fortalecer ensinante e aprendente simultaneamente. O mediador neste contexto é um pesquisador formulador de perguntas que convoca o ensinante a questionar e ampliar suas necessidades de conhecer, questionar e ressignificar.

Do lugar de terapeuta familiar, psicopedagoga e formadora de educadores identifico que o maior desafio é construir junto com os educadores e educandos o “empoderamento” de cada um em seu contexto. Como? Abrindo espaços para a construção e geração de questionamentos e de possibilidades que serão constantemente avaliadas para atingir metas. Lidar com a imprevisibilidade requer maturidade e criatividade e por que não uma boa dose de humildade para rever e refazer caminhos. O empoderamento vem também junto com a condição de estar só. Uma solidão positiva no sentido de suportar ter que tomar decisões e lidar com dúvidas nem sempre fáceis de administrar.

Acredito na possibilidade da inovação no campo da Educação formal. Todos queremos uma escola de qualidade que ofereça, além da formação intelectual, o espaço para aprender a viver em sociedade. Família e Escola são instituições destinadas a promover enlaçamento social. A universalização da escolarização veio para melhorara qualidade de vida oferecendo oportunidades a todos, porém esquecendo uma questão fundamental: a singularidade. Todos aprendem igual? Têm os mesmos interesses?

 

Por Edith Rubinstein, Mestre em Psicologia Educacional, Psicopedagoga e Terapeuta familiar. Participou dos livros “Avaliação Psicopedagógica” e “História da Psicopedagogia e da ABPp.

* Este artigo foi publicado originalmente na Revista Escola Particular, de maio de 2018.