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Censo da Educação Superior mostra menos professores, menos cursos e mais evasão

Os resultados tiveram abordagens diferentes entre os jornais Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo

Os resultados do Censo da Educação Superior 2007, divulgados na segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), tiveram abordagens diferentes na grande imprensa. A Folha de S. Paulo deu destaque para a queda no número de universitários em cursos de formação de professores. O Globo preferiu noticiar o aumento da evasão e O Estado de S. Paulo noticiou a queda no ritmo de crescimento das novas instituições de ensino superior.

Os três jornais também enfatizaram o aumento dos cursos tecnológicos e do ensino a distância e a nova metodologia que o Inep está adotando para o próximo censo.

A reportagem de Fábio Takahashi e Angela Pinho, da Folha, informa que o Brasil registrou, pelo segundo ano consecutivo, uma queda no número de universitários formados em cursos voltados a disciplinas específicas dos professores de 5ª a 8ª série e do ensino médio.

Em 2007, 70.507 estudantes formaram-se nessa área, 4,5% a menos que em 2006 e 9,3% a menos que em 2005. As maiores quedas de 2006 para 2007 ocorreram em letras (-10%), geografia (-9%), química (-7%) e filosofia (-5%).

O jornal diz que o censo traz uma boa notícia para o ensino infantil e dos primeiros quatro anos do fundamental (1ª a 4ª série): aumentou em 6,8% o número de formados em pedagogia.

A reportagem destaca também o aumento no número de formados para profissões consideradas saturadas. Em direito, por exemplo, subiu 4,6% o número de formados em 2007. Considerando todos os cursos universitários, o número de formados subiu 2,7%.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, citou quatro medidas adotadas para tentar aumentar o número de professores: expansão das universidades federais, criação de 28 institutos de educação tecnológica, que terão que reservar 20% do orçamento para a formação de docentes em áreas específicas; acordos com 19 Estados para a capacitação de 360 mil professores em instituições públicas; e a bolsa de iniciação à docência.

Baixos salários

A Folha de S. Paulo ouviu três especialistas em formação de professores. Todos concordam que os baixos salários e o desprestígio na carreira estão provocando a redução no número de docentes.

A coordenadora da Faculdade de Educação da Unicamp e especialista em condições de trabalho e formação de professores, Maria Márcia Malavasi disse ao repórter Vinícius Queiroz Galvão que o “desprestígio”, “falta de respeito social” e “baixos salários” contribuem para a baixa procura pelos cursos de magistério. “Isso afeta a autoestima do professor e a confiança nele mesmo. Há também a questão salarial, as pessoas precisam viver e desejam outro padrão que possibilite, no mínimo, condições dignas de vida. Os salários hoje estão incompatíveis com a carreira e com as responsabilidades que eles precisam ter”, afirmou.

Na opinião dela, esta situação “se reflete da pior maneira possível” no aprendizado dos alunos. “Um professor que não acredita na sua profissão passa ao aluno esse descrédito. E como um aluno vai respeitar um professor que não tem respeito pela própria profissão? Como um aluno vai desejar uma carreira igual?”, disse.

Para o professor titular de política educacional da Unesp e vice-presidente do Conselho Estadual de Educação, João Cardoso Palma Filho, a questão salarial é “determinante” e há “falta de estímulos para a profissão”. “Professor não tem mais o status que tinha. E é um ciclo vicioso. Recrutam-se professores no ensino médio que tiverem má-formação. Nas escolas de ponta, só 2% ou 3% declaram que vão prestar vestibular para ser professor. Os que vão para cursos como física ou química querem ser pesquisadores”, disse.

A coordenadora-geral do projeto da PUC-SP para a formação de professores da educação básica, Neide Noffs, vê uma “dicotomia” entre a formação dos professores e a atuação nas escolas. “O professor deve ter uma formação generalista, como lidar com dificuldades – com a família, por exemplo. Na faculdade, ele é o especialista, mas não tem uma visão geral da escola. A escassez é fruto do baixo salário e da desvalorização”, completa.

Evasão

A grande evasão de alunos nas instituições privadas, onde estudam três em cada quatro universitários brasileiros, foi o destaque do jornal O Globo. Apenas 55,4% dos alunos terminam o cursos. Já nas universidades públicas a taxa de conclusão é bem mais alta: 72,6% nas federais, 63,8% nas estaduais e 62,4% nas municipais. A média nacional ficou em 58,1%.

O presidente do Inep, Reynaldo Fernandes, disse ao repórter Demétrio Weber que a evasão universitária está ligada à troca de cursos no início da faculdade e às dificuldades para pagar as mensalidades. Segundo a reportagem, os números não são precisos e a partir deste ano, o Inep adotará um novo modelo de coleta de dados que listará o nome dos universitários e sua trajetória, a exemplo do que já ocorre no ensino básico.

Menos instituições

O jornal O Estado de S. Paulo noticia que a abertura de novas instituições de ensino superior, principalmente particulares, desacelerou depois de dez anos de expansão. Em 2007, houve uma expansão de 0,5% em relação ao ano anterior. Já a abertura de cursos de graduação presenciais cresceu 6,2% entre 2006 e 2007, mas já chegou a ser de 14% entre 2002 e 2003.

O ritmo de novos alunos nas faculdades privadas também caiu. Entre 2002 e 2003, o aumento de vagas foi de 7,7%; entre 2006 e 2007, de apenas 2,8%. Já nas universidades federais, a matrícula cresceu 6,8% em 2007.

A reportagem de Lisandra Paraguassú, Renata Cafardo e e Karina Toledo diz que o Inep não apontou uma causa do ritmo de diminuição e destacou que o levantamento vai mudar a partir deste ano. “Os números vão ficar bem mais precisos. Hoje a instituição diz que tem três alunos, por exemplo, e não há como checar”, disse o presidente do Inep, Reynaldo Fernandes.

Cursos a distância e tecnológicos

O jornal relata que uma das maiores novidades do censo é o crescimento dos cursos de graduação a distância e dos tecnológicos. As graduações a distância, que em 2002 eram apenas 46 em todo o Brasil, alcançaram 408 em 2007. De 20,7 mil alunos, passou a 302,5 mil pessoas atendidas.

“Hoje 7% dos ingressantes no ensino superior estão no ensino a distância. Já não é um número tão insignificante. É uma área que estava crescendo rápido demais, a ponto de a Secretaria de Ensino a Distância ter resolvido intervir”, disse o presidente do Inep. No final do ano passado, o Ministério da Educação reduziu o tamanho de quatro instituições de ensino a distância por problemas na qualidade do atendimento depois de um processo de supervisão.

Os cursos tecnológicos (de menor duração) também tiveram um grande crescimento. De apenas 636 oferecidos em 2002, passaram a 3.702.

O Estado de S. Paulo entrevistou o consultor Carlos Monteiro e o presidente do sindicato das mantenedoras de estabelecimentos de ensino superior de São Paulo, Hermes Ferreira Figueiredo, para saber as causas do pequeno crescimento no número de instituições.

“Hoje para cada vaga oferecida há uma não preenchida. O crescimento no número de matrículas também foi um dos menores já registrados. Isso só vai mudar se forem criados mais mecanismos de financiamento, pois o motor desse mercado é a classe C e não as classes A e B”, disse o consultor.

Na opinião do presidente do sindicato patronal, a obrigatoriedade do ensino médio, que deverá entrar em vigor em breve, não provocará um aumento nas instituições, já que elas têm capacidade para absorver a demanda. “Nem todos que se formam têm condições de acessar a educação privada”, disse.

Leia as reportagens:

Folha

O Estado

O Globo

Veja também:

A sinopse do Censo Superior 2007

O resumo técnico

Os principais indicadores

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