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Rótulos: por que não estigmatizar o comportamento das crianças

Desde julho de 2016, rótulos de bebidas e alimentos embalados na ausência do consumidor são obrigados, por lei, a destacar a presença dos principais alergênicos, como glúten, leite e oleaginosas. A obrigatoriedade é uma conquista das mães por trás da campanha Põe no Rótulo, lançada dois anos antes, que mobilizou a sociedade e o governo em prol dos direitos das pessoas com restrições alimentares. A medida, certamente, foi fundamental para proteger a saúde (e a vida) de inúmeras crianças, já que alguns casos podem ser fatais.

Antes que você se pergunte o que isso tudo tem a ver com o comportamento do seu filho, leve a ação para outro contexto. Se além dos produtos, a gente destacasse, na “embalagem”, a composição de cada criança, classificando-a como “pestinha”, “chorona” ou “preguiçosa”? Parece estranho imaginar nossos filhos rotulados dessa forma, não é?

Edith Rubinstein

Mas é isso que muitos pais acabam fazendo, na maioria das vezes, sem perceber. Em uma enquete realizada na página do Facebook da CRESCER, por exemplo, 55% dos pais admitem que têm esse hábito. O problema é que, quando você diz a todo momento “ele chora por qualquer coisa”, “ele é tímido, não consegue dar oi para as pessoas” ou “ele é um sabe-tudo, sempre responde antes de todos na escola”, está criando estigmas que o seu filho pode carregar pelo resto da vida. “Etiquetar pessoas não é uma boa prática, pois cada um tem seu jeito de se expor e sua forma de lidar com a vida. Nomear de acordo com um padrão acaba tendo efeito contrário: a pessoa vai fixar isso ao seu nome próprio”, alerta a psicopedagoga Edith Rubinstein, diretora do Centro de Estudos Seminários de Psicopedagogia (SP).

É fundamental lembrar que estamos falando de crianças. Ou seja, seres humanos em formação, em pleno desenvolvimento de seu caráter e personalidade. Quando rotulamos suas peculiaridades – sejam físicas ou emocionais –, estamos não só predeterminando o que são ou serão, como também reduzindo suas possibilidades de experimentação. “A riqueza do ser humano é ter inúmeras capacidades e potenciais. Reduzi-lo a uma única característica é impedir a imensidão de possibilidades de ser tantas coisas ao mesmo tempo”, defende a neuropsicóloga Deborah Moss, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de São Paulo.

Se mesmo para nós, adultos, já é difícil responder a essa pergunta, imagine para o seu filho. E ele realmente não deve se definir em uma única palavra: o ideal é que queira ser muitas coisas – e tenha liberdade para isso. Ninguém é só isso ou aquilo. Mas passa a ser quando todos estão olhando para ele e vendo apenas um único defeito ou qualidade. “Quando afirmamos que o outro ser humano ‘é’, em vez de ‘está’, o aprisionamos a essa marca, como se fosse impossível ser diferente disso”, afirma a psicóloga Rita Calegari, da Rede de Hospitais São Camilo (SP).

Mesmo os apelidos mais carinhosos, ditos com a melhor intenção do mundo, mas que apontam para um traço comportamental ou físico, podem prejudicar a relação de vocês. Isso porque as demais características acabam ficando esquecidas, o que cria uma lacuna afetiva entre filhos e pais. O documentário Repense o Elogio, da diretora Estela Renner traz uma reflexão sobre isso. Durante a produção, mais de mil pessoas foram entrevistadas sobre a maneira que tendem a elogiar crianças. Para as meninas, cerca de 80% dos termos estavam relacionados à aparência e atributos físicos, como “linda”, “princesa” e “bonita”. Já 70% dos elogios para os meninos eram ligados a habilidades, como “inteligente”, “forte” e “corajoso”. Só que essa valorização de apenas um conjunto de características de acordo com o gênero acaba limitando os pequenos. “Crianças precisam ser reconhecidas por todos os seus atributos, interessantes e menos interessantes, para este ou aquele momento da vida. Elas devem ser orientadas a alcançar o equilíbrio pessoal, o que leva ao desejo de superação e aceitação”, afirma a psicopedagoga Irene Maluf, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp).

Quantas vezes você já se surpreendeu ao ver seu filho repetir suas manias, jeitos de falar e de agir? Sim, eles são como nossos espelhos – que responsabilidade! Isso acontece não só por imitação, mas porque eles nos admiram, querem ser como nós. E, sendo assim, dão importância ao que pensamos e falamos – mesmo quando parece que não prestam atenção.

Entendeu por que faz tanta diferença quando seu filho ouve você dizer o tempo todo o quanto ele é distraído, inteligente ou terrível? A psicoterapeuta argentina Laura Gutman aborda a força que têm nossas palavras no best-seller O Poder do Discurso Materno (Editora Ágora). “Vamos continuar pensando, sentindo e interpretando a vida de um ponto de vista emprestado – habitualmente o ponto de vista de um adulto importantíssimo. Então, continuaremos alinhando nossas ideias e nossos preconceitos em relação direta com o ponto de vista de nossa mãe. Desse discurso dependerá se vamos nos considerar bons ou muito ruins, se acreditamos que somos generosos, inteligentes ou bobos, se somos astutos, fracos ou preguiçosos. É importante notar que essas definições são semelhantes ao que disseram papai ou mamãe durante nossa infância, especialmente em relação a como nos lembramos de nós mesmos”, escreveu a especialista no livro.

Portanto, tente não falar tudo que vem à cabeça. Seja dizer que ele é muito inteligente a cada nota boa ou que é preguiçoso toda vez que reclama para guardar os brinquedos. “A autoestima da criança é construída com base nos feedbacks que ela recebe dos pais. Quando eles exageram, desvalorizam ou valorizam sem critérios, comprometem a visão que a criança terá de si mesma no futuro”, completa a psicóloga Rita.

A autoestima do seu filho, no entanto, não será melhor caso ele só ouça coisas boas. Nem sempre é legal ser bom em tudo. E, se ele crescer acreditando nisso, pode se frustrar ou deixar de ser quem ele realmente quer ser com medo de decepcionar você. Se o pai diz o tempo todo o quanto ele é bom no futebol, por exemplo, talvez não se arrisque a testar seu talento no desenho. Ou se a mãe diz sempre o quanto a filha é responsável, pode ser que ela se cobre demais, amadurecendo antes da hora – ou, ainda, que se rebele e resolva não fazer mais nada direito.

Até mesmo o rótulo de inteligente pode ter consequências ruins, como a frustração ao não conseguir resolver um problema de matemática ou, pior, achar que já sabe tanto que nem precisa mais estudar. “Ou seja, a criança não investe em outras áreas, pois pode se sentir suprida da necessidade de atenção ou incapaz. Sempre há uma qualidade a ressaltar e um defeito a melhorar: o ser humano é dinâmico no seu desenvolvimento e classificá-lo de ‘inteligente’ é tão contraproducente quanto chamá-lo de ‘bobo’ ”, afirma a psicopedagoga Irene.

Um estudo recente publicado no periódico Psychological Science mostrou, por exemplo, que ressaltar frequentemente as qualidades da criança, e não o seu esforço, pode fazer com que ela trapaceie. Na pesquisa, grupos de crianças, de 3 e 5 anos, foram orientados a responder a um questionário, com um alerta de “não vale colar”. Aquelas que eram o tempo todo elogiadas por sua inteligência foram mais propícias a espiar as respostas. Fácil entender. Afinal, elas querem continuar sendo elogiadas – e vão fazer de tudo para corresponder às expectativas dos pais.

Outra cilada que os pais podem cair é a da comparação. Seja com o irmão, o primo, o amigo de escola ou até mesmo o personagem do desenho, isso não é eficiente. Comparar por comparar é apenas dizer que o outro é melhor e isso não ajuda ninguém a melhorar, pelo contrário, afeta negativamente a autoestima. “É natural que ocorram comparações na família, na escola, mas o importante é que cada criança seja respeitada nas suas características, interesses e ritmo”, orienta a psicanalista Erika Parlato-Oliveira, professora do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Paris Diderot.

Em vez de comparar, que tal dialogar sobre aspectos positivos e negativos, tanto dele quanto seus? “Mostre o comportamento desejado para a criança e, claro, proponha soluções”, sugere a psicóloga e psicopedagoga Gabriela Luxo, do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (SP). Lembre-se de que cada criança tem seu tempo, seja para começar a andar ou a ler, seja para vencer seus medos ou assumir responsabilidades. Respeitar isso é uma das melhores coisas que você pode fazer pelo seu filho. “Todos nós temos qualidades e defeitos que se reorganizam aos poucos. O foco não é negar ou disfarçar o que hoje está incomodando, mas mostrar que as qualidades dos filhos podem ajudá-los justamente a superar o que está mais difícil no momento”, diz Deborah.

A personalidade tem várias nuances e é algo que se desenvolve com os anos. Ao longo desta reportagem, destacamos as características que, por inúmeras razões, são as que mais chamam a atenção dos pais. Veja com a qual você mais identifica seu filho. Mas, em vez de se limitar a apenas uma, deixe-o ter quantas ele quiser. Ele é apenas uma criança, tem que experimentar, testar seus limites, aprender o que é bom e o que não é. E com a sua orientação e sem rótulos vai ficar muito mais fácil essa jornada. Entre na campanha com a CRESCER, #nãorotuleascrianças.

Rótulos

O bonzinho
Somos humanos: o bem e o mal estão em nós. O que vai prevalecer é aquilo que cultivamos e que “praticamos” em nossas relações com os que nos cercam. Normalmente, nas crianças, ser bonzinho é associado à mansidão e à obediência. Mas nem sempre é sinônimo de bondade e, muito menos, de felicidade. Grandes ícones da paz, como Gandhi e Buda, desafiaram o sistema em benefício de um senso de justiça social e amor ao próximo.

Crianças “boas”, em geral, têm baixa autoestima e tendência à depressão. Cuidado: se o seu filho aceita tudo, pode tornar-se uma pessoa passiva. Um bom “termômetro” é observar se ele consegue se defender quando preciso. Do contrário, vale consultar um psicólogo infantil.

O preguiçoso
Muitos pais acabam taxando o filho assim sem notar que têm responsabilidade nessa situação, quando fazem por eles o que já teriam condições de realizar sozinhos. Além disso, aquelas ditas preguiçosas perdem a vontade de fazer coisas, pois não se sentem aptas e não têm objetivo. Lembre-se: elas têm ritmos próprios, algumas são mais ativas, outras, menos. Ser chamado de preguiçoso pode enfraquecer a vontade de o seu filho ser melhor.

Quando bem estimulada, toda criança tem vontade de fazer, brincar e participar. Antes de rotular seu filho, é preciso distinguir o que é moleza física (pode estar doente), resposta a um ambiente pouco estimulante ou até mesmo problemas nutricionais ou depressão. Fique atento.

O sabe-tudo
Como já falamos, ser rotulado como inteligente nem sempre é positivo. Claro que é válido reconhecer e elogiar o esforço do seu filho, desde que essa não seja a única característica dele que você valoriza com frequência. Do contrário, ele terá problemas diante das frustrações naturais da vida: encontrar outro “sabichão”, ter nota baixa, dizer uma bobagem e ser corrigido em público. A criança que age assim torna-se arrogante e, na verdade, pode até ter várias dificuldades, que encobre com um excesso de confiança.

Em vez de rotular, o ideal é afirmar que a criança (por ser curiosa e buscar saber das coisas) está bem informada. Assim, ela vai comprender que ninguém sabe tudo sobre todas as coisas e continuará a evoluir.

O  chorão
Será que essa é mesmo uma característica da personalidade do seu filho ou apenas uma forma de ele se expressar? Quando ainda são pequenos, é natural que usem o choro para demonstrar raiva, frustração ou insatisfação. Crianças mais sensíveis também podem chorar em situações nas quais se sintam inseguras, como em mudanças. Se o seu filho chora com frequência, acolha-o e procure entender os motivos que o levam a isso. Outro ponto é também avaliar se, com esse comportamento, ele sempre consegue o que quer.

Observar como o choro se apresenta é importante antes de julgar, até porque há crianças mais sensíveis e que choram mais que outras – mas isso é uma característica até mesmo de adultos, então, tudo bem!

O Pestinha
Ou hiperativo, sem limites, terrível… Muitas vezes, é o caso de crianças que mexem em tudo e não param quietas, de fato, por falta de educação. O próprio pai que rotula pode ser o negligente: vale fazer uma autoavaliação antes de classificar o filho assim.

Mas, se a criança é apenas agitada, talvez precise extravasar a energia “extra” em mais atividades, como brincadeiras ao ar livre. Um alerta: crianças saudáveis são agitadas, mas conseguem se controlar quando os pais pedem ou o ambiente exige, como na escola. Esse é um diferencial que precisa ser considerado para descartar a possibilidade de TDAH. Na maioria das vezes, ela é ativa apenas, mas os adultos, impacientes, preferem julgá-la como o problema. Tem dúvida? Busque um especialista.

O tímido
Basta a criança ser mais quieta, não gostar de ser o centro das atenções ou não dar “oi” para aquela tia que nunca viu na vida para ganhar o rótulo de tímida. Talvez ela seja apenas introspectiva ou observadora… mas, se for realmente tímida, e daí? Isso não é um defeito. Porém, às vezes, a timidez do filho faz com que os pais o exponham menos, como se ele precisasse de menos oportunidades de se relacionar – cuidado! Apenas observe se ele sofre ou se essa característica traz algum prejuízo ao desenvolvimento dele, seja escolar ou social. Lide de forma natural, ajudando-o a enfrentar situações que causem receio, como festas e eventos escolares. Caso note que está se isolando, converse com um profissional para investigar os motivos.

A princesa
Sim, a gente sabe que existe a melhor intenção do mundo quando o pai ou a mãe chamam a filha de princesa. É com o sentido de ser especial, bonita, amada. Mas você já parou para pensar como a sociedade enxerga esse estereótipo? Em geral, é uma mistura de vestido, cintura fina e a busca pelo príncipe encantado. Por isso, vale mostrar à sua filha que as meninas podem e devem ir além disso. Os próprios filmes infantis da atualidade são um bom exemplo, com princesas cheias de atitude: Tiana (A Princesa e o Sapo), que sonhava em ter o próprio restaurante, Merida (Valente), ágil no arco e flecha, ou a mais recente Moana, que não fala em momento nenhum em príncipe, pois o que quer mesmo é desbravar os sete mares.

Por Por Fernanda Montano, da Crescer

 

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