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Combate ao bullying: entre amigos

 

 

 

Sou orientadora educacional do Fundamental 2 na Stance Dual School, em São Paulo (SP), onde desenvolvo um projeto de convivência focado na prevenção ao bullying. Tudo começou em 2014, quando dedicamos o ano todo a formação de professores, com base nos estudos de Psicologia Moral. Sob essa abordagem, o bullying é visto como um problema moral que impede os indivíduos de se comover com a dor alheia e que demanda prevenção, sensibilização e conscientização de toda a comunidade escolar.

No ano seguinte, foi a vez de envolver os alunos, por meio de aulas de Orientação Educacional. Com o 6° ano, por exemplo, focamos a diferença entre bullying e demais conflitos; com o 7° ano, a empatia; e com o 8°, a coragem e a resiliência. Esse foi o ponta pé inicial para avançarmos na formação de valores e na implantação de uma “equipe de ajuda” no Fundamental 2. Essa solução não inventada aqui na escola, mas idealizada pelo professor espanhol José Maria Aviles Martinez e encabeçada no Brasil pelo Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral da Unicamp/Unesp). Ela parte da premissa que as vítimas de bullying tendem a recorrer aos próprios pares quando se sentem intimidadas.

Antes de estruturar nossa “equipe de ajuda”, cada classe passou por uma sequência de atividades para mapear as características de quem os representaria na equipe. Perguntas como “para quem eu contaria um segredo: para quem não dá risada de mim ou para alguém que não acharia meu problema uma bobagem?” ou “o que torna alguém confiável?” deveriam se respondidas individualmente de forma que a escolha fosse o mais consciente possível.

Os selecionados passaram por uma capacitação em estratégias de mediação, calcada em valores como respeito, justiça e tolerância. Aprenderam também técnicas de escuta ativa e como se distanciar dos sentimentos que afloram durante os conflitos.

Uma vez por mês, a “equipe de ajuda” se reúne com os gestores da escola. É o momento em que trocam experiências, compartilham as dificuldades e recorrem à equipe de Orientação Educacional para achar as melhores estratégias de intervenção para um conflito – que vai da briga entre colegas a situações de isolamento social e adaptação de novos alunos. Em paralelo, participam de encontros individuais de acompanhamento sempre que enfrentam algum desafio.

Todo esta rede de apoio que criamos entre os pares é mais uma opção para fortalecer a criança que se encontra em sofrimento. Isso não quer dizer, no entanto, que a Orientação Educacional não tenha controle sobre os casos de violência escolar. Pelo contrários. Estamos atentos e atuamos não só junto à criança em questão, mas ao agressor, os espectadores, as famílias dos envolvidos e aos professores.

Com cada um, intervimos em momentos diferentes. Ouvimos todos durante o processo, traçamos planos de atuação e acompanhamos a execução do que foi pactuado. Essa visão holística é fundamental para reverter o bullying e fazer com que o agressor se sensibilize com o sofrimento da vítima. Aliás, é por esta sensibilização que tanto lutamos quando falamos de educação dos sentimentos na formação moral.

Como resultado, temos colhido uma convivência mais colaborativa com alto grau de verbalização dos problemas e respeito mútuo. Hoje, sem medo de errar, afirmo que erradicamos o bullying na Stance Dual School. Temos, sim, algumas crianças com problemas mais acentuados de convivência e socialização, mas aqui elas não são vítimas de humilhações e agressões recorrentes devido às suas fragilidades.

Por Ana Claudia Correa, orientadora educacional na Stance Dual School

* Este artigo foi publicado originalmente na revista Educatrix, a editora Moderna.