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Combate ao racismo passa também pela escola

A conscientização do professor pode ser um caminho para formar jovens com menos preconceitos

No mês de novembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou a campanha de combate ao racismo: a Vidas Negras. Trata-se de mais uma iniciativa que busca combater um preconceito tão enraizado na nossa cultura, a partir de uma série de vídeos e notícias.

A campanha tem o apoio de personalidades famosas, como Thaís Araújo e Érico Brás, e visa expor as consequências do racismo dentro da nossa sociedade, com foco na juventude. Num momento em que o assunto é tema de debate dentro do país, uma questão se coloca: Qual é o papel das escolas dentro desse combate?

Uma pesquisa realizada em 2009 pelo Ministério da Educação revelou que o preconceito atingia 99,3% das escolas no país na época. Entre as discriminações mais citadas estavam as contra portadores de necessidades especiais, grupos étnico-raciais e gênero. Oito anos se passaram e o quadro parece ter sido pouco alterado.

Para ajudar a reverter o problema, o curso de Pedagogia do Instituto Singularidades, em São Paulo, criou em seu currículo disciplinas que trabalham com os futuros professores a questão dos preconceitos. A professora Denise Rampazzo, mestre em educação pela USP, percebeu que uma mudança no modo de pensar de seus alunos dependia de uma alteração em sua didática de aula.

Foi então que ela resolveu estruturar uma de suas disciplinas, Cultura Brasileira e Diversidades Étnicas, em  três pilares: autoconhecimento, reflexão e ação. Ela constatou que os alunos tinham dificuldade em assimilar o que eram as práticas preconceituosas.

“A maioria conseguia falar sobre o preconceito, mas 95% diziam que nunca sofreram. Há um certo mecanismo de naturalização do que são estas situações”, conta Denise.

O campo teórico da disciplina é trabalhado de forma a variar as fontes. Os alunos leem textos de autores com perspectivas diferentes, como Roberto Da Mata e Darcy Ribeiro, livros de escritores africanos ou assistem filmes que relatam lados opostos da Guerra Fria, por exemplo. “Isso é uma forma de diversificar o repertório”, aponta a professora.

A partir destas propostas, os futuros professores passam a repensar antigas convicções e ideias. “Uma aluna negra  contou que quando era pequena não tirava notas altas e nem ganhava  presentes da professora. Só após algumas discussões em nossas aulas ela  percebeu que todos os outros colegas eram brancos, e conseguiu enxergar o racismo presente na situação”, relata Denise.

Para a professora do Instituto Singularidades, o objetivo não é acabar totalmente com os preconceitos, o que seria impossível, mas conscientizar os alunos. “Meu papel é formar alunos críticos, e não alunos que pensam igual a mim. Muitos professores tem o orgulho de acharem que seu pensamento é o único e o correto”, reflete Denise.

A luta contra os preconceitos é longa e diária. E o ambiente escolar mostra-se um bom local para quebrá-los, a partir de novas didáticas que desconstruam as convicções cristalizadas. “Ser professor é isso, é pensar e repensar”, ensina a educadora.

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