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Como é ganhar uma medalha de ouro em uma Olimpíada Internacional de Matemática na Ásia?

Os estudantes brasileiros Robson Luan do Nascimento de Sousa, Marlon Fagundes Pereira Junior e Francisco José Martins de Lima nunca irão esquecer o momento em que colocaram a medalha de ouro no peito, do outro lado do mundo. Os três conquistaram o prêmio na Olimpíada Internacional de Matemática da Ásia (AIMO), disputada na Tailândia, dia 2 a 7 de agosto. Da delegação de 225 alunos, 113 ganharam medalhas – três de ouro, 24 de prata e 86 de bronze. Veja como.

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Robson tem 16 anos e está no segundo ano do ensino médio no curso de eletroeletrônica do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), campus de Campos Santa Inês. Marlon tem 15 anos e está no 9° ano no Colégio Pedro II – campus Tijuca, no Rio de Janeiro. Francisco, de 17 anos, também estuda do Pedro II, no 3° ano do ensino médio, campus São Cristóvão.

Prova difícil

Robson já participou de diversas competições de Matemática, e confessa que não esperava ganhar o ouro. “A prova na Tailândia foi muito difícil, muito difícil mesmo, eu realmente não esperava ganhar medalha, ainda mais uma de ouro”, conta. Em 2017, ele disputou a AIMO, a Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP), o Matemática Sem Fronteiras e a Canguru de Matemática, quando ganhou bronze. Este ano, o seu grupo ficou com medalha de prata no nível estadual e prata no nível nacional na Matemática Sem Fronteiras (está olimpíada é disputada em equipes).

O estudante do IFMA destaca que a prova na Ásia é “um pouco diferente das provas do Brasil”. “Tem uma pegada diferente e geralmente tem várias questões que não tem exatamente uma forma correta de ser feita, o que faz o aluno ir atrás de táticas diferentes pra tentar alcançar o resultado”, explica.

Prova complexa

Também frequentador de várias olimpíadas, Marlon diz que se surpreendeu com a complexidade da prova. “A duração da prova de 30 questões era de duas horas. Já sabia que grande parte da cultura oriental prioriza bastante este estilo de velocidade, mas só me dei conta de que tinha realmente pouco tempo ao verificar a complexidade da prova”.

O aluno do 9° ano fundamental Colégio Pedro II afirma que sua experiência em olimpíada o ajudou muito na Ásia. “Sempre procuro participar de todas as olimpíadas propostas no Colégio Pedro II. Só não me enrolei tanto por causa da experiência anterior”, relata.

Prova sem chutes

Francisco lembra que a prova na Tailândia foi “bem fora do comum”. “Não foi uma prova nem discursiva, nem uma prova de múltipla escolha com 4 ou 5 opções de resposta. Chutar uma resposta qualquer é praticamente inútil, pois há, em geral, uma infinidade de respostas possíveis”, explica

O aluno do 3° ano ensino médio do Pedro II já disputou (e ganhou) competições de física e astronomia, além de outras de matemática. Para ele, o diferencial das prova da AIMO é unir raciocínio e rapidez. “Como outras olimpíadas de matemática que já participei, precisava de conhecimentos e raciocínios que nem sempre são explorados em aulas normais, só que ainda se diferencia delas por exigir muito mais velocidade e técnica ao mesmo tempo”, diz.

Comida ruim, memórias felizes, amizades

Além dos bons resultados, os três destacam o caráter cultural e social de uma competição na Ásia. Robson só não gostou muito da comida. “Ver diferentes povos com diferentes costumes, a gente sentiu essa diferenciação cultural, principalmente quanto a comida, que não nos agradou muito. Porém conhecer mais dessa cultura foi muito bom, uma experiência incrível”, diz

Marlon fez questão de agradecer o professor de matemática Wallace Salgueiro. “Deixo aqui agradecimentos especiais à dedicação dele”, diz. Ele lembra que já esteve na Índia em uma competição de economia e destaca a importância de conhecer outras culturas. “Acredito que, não importa quantas vezes eu vá, não terei a oportunidade de conhecer plenamente a cultura asiática, já que é muito, muito vasta”, afirma. Para ele, a experiência da AIMO “criou memórias felizes, e vou levá-las comigo pelo resto da vida”.

Francisco também não vai esquecer da viagem internacional “Foi uma experiência única na minha vida. Conhecer novas culturas, trocar experiências, fazer novas amizades”, afirma.

As escolas

O reitor do Colégio Pedro II, professor Oscar Halac, diz que os excelentes resultados do colégio são uma consequência do “empenho e dedicação dos professores envolvidos no projeto olimpíadas do colégio, agregado ao interesse e estudo dos alunos participantes”. O Pedro II levou 27 alunos de quatro campus para a Tailândia e destes, 22 ganharam medalhas – além de duas de ouro, o colégio ganhou seis de prata e 14 de bronze.

Halac acredita que as avaliações internacionais ajudam o aluno a se interessar ainda mais pela disciplina. “A oportunidade que eles têm de conhecer outra cultura e entrar em contato com uma diversidade de formas de aprendizagem faz com que adquiram novos conhecimentos e passem a ter maior interesse em pesquisar, aplicar e transferir os conceitos adquiridos”, diz.

Na opinião do reitor do Pedro II, melhorar o ensino de matemática no Brasil é possível, apesar da “complexidade dos problemas educacionais” do país. Ele destaca alguns elementos fundamentais para esta melhoria: “a busca de novas formas de ensino que desperte o interesse dos alunos e os motivem a aprender; o investimento na formação de professores; a adoção das tecnologias digitais; e a distribuição de forma mais equânime dos investimentos na Educação”.

O professor Emanuel Cleyton Lemos, do Instituto Federal do Maranhão (IFMA), Campus Santa Inês, diz que os bons resultados são fruto da “união entre o IFMA, alunos e as famílias”. O instituto enviou quatro alunos e três ganharam medalhas. Além do ouro, ganharam duas medalhas de bronze.

Emanuel acredita que este intercâmbio científico permite aos alunos “conviver e conhecer outras pessoas que também tem o mesmo gosto pelo estudo da matemática”. Para ele, estas competições contribuem para melhorar o ensino de matemática no Brasil. “É certo que as olimpíadas de matemática fazem parte das alternativas metodológicas que visam melhorar o ensino de matemática no Brasil”, afirma.

Matemática Sem Fronteiras

A delegação de 225 alunos brasileiros que competiram na AIMO foi selecionada a partir da Olimpíada Internacional Matemática Sem Fronteiras (OIMSF), uma iniciativa da Académie de Strasbourg em conjunto com a Inspection Pédagogique Régionale de Mathématiques e o Institut de Recherche sur l’Enseignement des Mathématiques (IREM). No Brasil, tanto a AIMO como a OIMSF são organizadas com exclusividade pela Rede do Programa de Olimpíadas do Conhecimento (Rede POC), uma instituição de intercâmbio científico juvenil que organiza competições, cursos e fóruns em mais de 20 países.

A Rede POC foi criada em 2000 com a missão de promover a excelência na educação através do estímulo ao interesse pela Ciência, Tecnologia e Inovação. Atualmente, ela participa de eventos científicos e acadêmicos na África do Sul, Argentina, Alemanha, Austrália, Bulgária, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Coreia do Sul, Costa Rica, Eslováquia, Índia, Indonésia, Itália, Paraguai, Peru, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Rússia, Suíça e Suécia.

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