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Conferência Internacional debate educação de adultos e analfabetismo

Cerca de 150 países estão em Belém para debater como melhorar a EJA e reduzir o analfabetismo, drama que ainda atinge 774 milhões de pessoas em todo o mundo. Veja as fotos
Agência Pará
Vários países africanos estão presentes na Confitea
Vários países africanos estão presentes na Confitea

Mais de 2 mil representantes de 150 países estão em Belém esta semana para debater como melhorar a educação de jovens e adultos (EJA) e reduzir o analfabetismo, drama que ainda atinge 774 milhões de pessoas em todo o mundo. Três quartos desse total concentram-se em 15 países, entre eles o Brasil.

Convocada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) a VI Conferência Internacional de Educação de Jovens e Adultos (Confintea) é realizada a cada 12 anos, sendo esta a primeira que acontece no Hemisfério Sul. Quarenta ministros de Educação participam do evento, que começou na terça-feira e termina nesta sexta-feira.

O especialista da Unesco em educação de jovens e adultos, Timothy Ireland, disse à Agência Brasil que houve avanços nos últimos 12 anos, mas ainda é preciso investir mais em políticas de ensino voltadas para esse público. Segundo ele, os países da América Latina concentraram-se muito nos últimos anos em campanhas de alfabetização, mas não pensaram na educação de jovens e adultos de forma continuada. “Precisamos de políticas que incluam a alfabetização, mas pensem na sua continuidade.”, disse.

Segundo o representante da Unesco, os maiores avanços desde a última Confintea, há 12 anos, foram em países europeus, especialmente na Inglaterra. “Na Europa tem-se investido bastante na educação de adultos, com destaque muito grande para a formação profissional. Eles consideram que esse investimento não é só na educação, mas tem impactos na competitividade econômica da Comunidade Europeia”, afirmou.

Para Sérgio Haddad, diretor da ong Ação Educativa, especializada em promover os direitos educativos e da juventude, a democracia participativa poderá ajudar a resolver a questão. “A educação formal é importante, mas não é tudo nesse processo. Quanto mais amplo e participativo for o processo, mais grupos marginalizados e excluídos podem ganhar voz. Os processos participativos devem ser plenos, organizados a partir das bases e instituídos como políticas de Estado que ultrapassem as estruturas de governos, para que sejam permanentes e perenes”, disse ele à Agência de Notícias do Pará.

Global

Na abertura da Confintea VI foi apresentado o 1º Relatório Global sobre Aprendizagem e Educação de Adultos, também chamado de “GRALE”. Ele se baseia em 154 Relatórios Nacionais produzidos pelos países membros da Unesco sobre a situação da educação de adultos em todo o mundo.

O documento, construído ao longo de quase dois anos de estudos e debates, foi organizado em seis capítulos, abrangendo temas como participação e equidade na educação de adultos, qualidade e financiamento. O relatório mostra que, desde a última Confintea, em 1997, realizada em Hamburgo (Alemanha), 56 países implantaram políticas de educação de adultos, o que representa 36% do total de Estados membros da Unesco.

O estudo aponta entre as soluções para melhorar a situação o reconhecimento da EJA como um direito básico, a sua integração nas políticas públicas, o fortalecimento de parcerias e pesquisas e a busca por financiamento.

O vice-ministro da Educação do México, Esteban Miguel, disse que os países da América Latina e do Caribe ainda sofrem com os altos índices de analfabetismo. Segundo ele, a taxa de alfabetização da região teve um aumento de apenas 5% desde a década de 1990, e grande parte da população não chega a concluir o ensino primário.

Entre as propostas, ele destacou a atenção às populações marginalizadas, como indígenas, afrodescendentes e moradores das zonas rurais, e a destinação, por parte dos governos, de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) para ações voltadas à educação de adultos.

O ex-secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação do Brasil (MEC), Ricardo Henriques, que presidiu os debates sobre o Relatório Global, afirmou que é preciso trabalhar em conjunto para que o conhecimento seja distribuído igualmente. “Os seres humanos estão sempre confrontando mudanças que exigem novas competências, e aqueles que não entrarem na aprendizagem serão sempre marginalizados e explorados”, afirmou.

Aprendentes

A rede internacional de educandos também apresentou na conferência a “Carta dos Aprendentes”, que recebeu contribuições de representantes governamentais sobre exemplos de políticas que buscam aumentar a participação dos jovens e adultos na educação. Dos oito artigos da carta, foram destacados os relacionados à inovação, cooperação internacional, recursos para financiamento, qualidade, acesso e participação.

A representante da Associação de Aprendentes Adultos do Quênia, Magdalene Motsi, destacou a importância de ouvir os alunos. “Por que associar à carta com os alunos? Para ter uma experiência de aprendizagem mais rica, de qualidade, reativa, para desenvolver mais capacidades e saber o motivo de as organizações tomamem decisões nessa área”, afirmou

Ela cobrou dos governos que assinem a carta para motivar estudantes. Cinquenta países já subscreveram o documento e adotaram a Semana dos Alunos Adultos, em 2004. “Gostaríamos de contar com o apoio de todos na nossa visão de futuro e buscamos aqui apoio às vozes dos alunos adultos. Queremos que endossem a carta nessa conferência”, disse John Gates, da Rede de Aprendentes Adultos do Reino Unido.

EUA, Índia, Congo e Ásia

Na quarta-feira, dia 2, representantes de vários países expuseram os instrumentos políticos utilizados para promover a educação de adultos durante a mesa-redonda “Políticas e Governança para educação de jovens e adultos”.

A representação dos Estados Unidos afirmou que o país incentiva a educação de adultos através de um ensino secundário flexível, que privilegia a formação profissional. Através dos chamados “colleges”, os norte-americanos formam mão-de-obra para a economia local e desenvolvem projetos de educação de adultos, em parceria com empresas e indústria.

A ministra de Estado de Desenvolvimento de Recursos Humanos da Índia, Purandeswari Daggubati, destacou o avanço no país do ensino primário universal e a alfabetização de adultos, desde a independência em 1943. “Na época éramos 10% de alfabetizados apenas; agora somos 65%. No entanto, nos demos conta de que grupos de nossa sociedade não atingiram os níveis médios de alfabetização e permanecem motivos de preocupação para nós. Cerca de 40% da nossa população não é alfabetizadoa, sobretudo as mulheres. Dos não alfabetizados, 60 milhões são mulheres”, disse.

A representante do Congo afirmou que o desafio da educação de adultos é desenvolver projetos auto sustentáveis, uma vez que há falta de recursos para esse segmento da educação, também se faz necessário”.

Orçamento

O presidente da Ásia South Pacific For Basic and Adult Education (Aspbae), Jose Roberto Guevara, defendeu metas claras até 2012, por parte dos governos, que passam por orçamentos bem definidos e planos para atingir os grupos menos favorecidas. “Devem haver mecanismos de monitoramento de nível internacional para acompanhamento dos resultados, com relatórios a cada dois anos”, disse.

Na opinião da educadora norueguesa Ase Kleveland, “é preciso incluir instituições nesse processo e trabalhar em cooperação com muitos atores, no sentido de orquestrar as ações da educação de adultos, diante das dificuldades de orçamento e mobilização”.

A vice-mnistra de Educação do Paraguai, Diana Serafina, citou como proposta a elaboração de orçamentos com base em análises e diagnósticos corretos, investimento em comunicação social para que seja assumida socialmente a responsabilidade da luta pela alfabetização e articulação com governos locais, entre outras ações.

Menos retórica

O sociólogo Hugo Zemelman, fundador do Instituto do Pensamento e da Cultura da América Latina, cobrou um “basta” nas políticas somente declarativas e de boas intenções. “Os governos do continente, em geral, são de retórica; falta que essa política seja concreta. A educação de adultos é um problema que não se resolve com declarações”, afirmou.

Ele sugeriu uma política de educação de adultos mais ligada ao mundo do trabalho. “De outro modo, assumimos os riscos de termos massas ilustradas de marginais”, afirmou E também cobrou maior participação das universidades. “O que conhecemos do que está sendo construído nas instituições de pesquisa do continente? As universidades também precisam responder a este desafio”, afirmou.

A diretora geral do Centro de Cooperação Regional para Educação de Adultos na América Latina e Caribe (Crefal), Mercedes Calderón, apresentou uma plataforma de cooperação entre os países América Latina e Caribe, fruto de uma pesquisa em 20 países. “Uma das tendências observadas é a emergência de grupos específicos que demandam atenção educativa, como os migrantes, mulheres e jovens dos setores urbanos e populações indígenas. A eles se somam os setores tradicionalmente atendidos: analfabetos, pessoas com educação básica inconclusa e trabalhadores que requerem capacitação para o trabalho”, disse.

Para garantir vínculos de uma cooperação regional em benefício da EJA, ela destacou três aspectos: reconfiguração do espaço da educação, profissionalização dos educadores e pesquisa. “Devemos ter como premissa que a educação transcende a alfabetização; ela melhora a qualidade de vida nas comunidades, reduz a mobilidade e amplia as possibilidades de trabalho. Destacamos o caráter marginal da educação de jovens e adultos. É importante pensarmos as políticas públicas da educação por toda a vida e reconhecer as múltiplas diversidades, fortalecendo a participação da sociedade civil na elaboração dessas políticas”, defendeu.

Redes mundiais

O segundo dia da Confitea também debateu o tema “Cooperações em rede e parcerias internacionais inovadoras”, com o relato das experiências de duas grandes redes internacionais que vêm conseguindo bons resultados no trabalho com a educação de adultos: o Sistema Ecca e a Rede Ibero-americana para Educação de Pessoas Jovens e Adultas (Rieja).

O Sistema Ecca de Formação a Distância, surgido na década de 1960 nas Ilhas Canárias, na África, utiliza o rádio como principal ferramenta de trabalho. Segundo Margarita Lopez, representante da instituição, o sistema trabalha com aprendizagem formal e não-formal de adultos e hoje é utilizado não África e em grande parte da América Latina. Ao todo, disse ela, a rede já beneficiou mais de 2 milhões de adultos com cursos oferecidos nas diferentes áreas do conhecimento.

O diretor Geral de Educação e Formação de Adultos de Cabo Verde, Florenço Mendes, integrante da rede, destacou que “o Sistema Ecca tem a capacidade de se adaptar a diferentes realidades e contextos de cada país”.

Encarna Cuenca, da Espanha, explicou como funciona a Rieja, uma rede intergovernamental que integra os Ministérios da Educação de 16 países, incluindo o Brasil. “É importante compartilhar experiências neste mundo globalizado, onde não se pode dar as costas para o que o outro está fazendo. Temos que aproveitar os conhecimentos existentes”, ressaltou.

Um ponto em comum entre as duas experiências é a preocupação com a autonomia de cada país que adere às redes de cooperação. “É difícil avançar quando cada país é autônomo em suas políticas de educação, mas a rede pode potencializar esse trabalho. Temos avançado, mas estamos conscientes dos desafios que temos à frente”, afirmou Jorge Camors, coordenador de Políticas Educativas do Ministério da Educação do Uruguai, país membro do Rieja.программа для определения местоположения телефонасколько стоит сайт проверитьо нетрудоспособности