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Coordenador da nova Cátedra da Unesco defende união EJA e trabalho

Professor Afonso Celso Scocuglia diz que o problema mais grave da educação brasileira é o analfabetismo e o precário letramento
A combinação da educação de jovens e adultos (EJA) com o mundo do trabalho é a melhor maneira de reverter o problema mais grave da educação pública brasileira: o analfabetismo e o precário letramento. A opinião é do professor Afonso Celso Scocuglia, encarregado de coordenar a nova Cátedra da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil: a Cátedra Unesco em EJA, criada neste mês de junho. A nova cátedra será adotada primeiramente nas universidades Federais da Paraíba (UFPB), Pernambuco (UFPE) e Rio Grande do Norte (UFRN).

Em entrevista ao CGC Educação, o professor Afonso Scocuglia, do Centro de Educação da UFPB, diz que os problemas de alfabetismo, letramento e evasão escolar são muito mais graves do que as estatísticas demonstram. De acordo com os dados do MEC, o Brasil tem 10% da população analfabeta, ou 14 milhões de pessoas. “Segundo a Unesco, não são alfabetizados os que não completaram a 4ª série escolar. Por esse critério os analfabetos brasileiros aproximam-se dos 70 milhões!”, afirma o professor.

Scocuglia explica que um dos principais objetivos da cátedra será formar alfabetizadores e firmar parcerias com o poder público e com as organizações da sociedade. Ele também defende o uso da educação a distância e diz que todo brasileiro sabe como resolver o problema da educação. “Acho que grande parte da nossa população saberia responder o que precisamos fazer para melhorar a educação e o nosso país. Não precisamos de grandes especialistas para descobrir isso”, afirma.

Leia a íntegra da entrevista

CGC Educação – Qual o principal objetivo desta Cátedra? Como ela poderá ajudar, efetivamente, para a redução do analfabetismo entre os jovens e adultos?

Afonso Scocuglia – O objetivo principal da Cátedra é realizar cursos, seminários, eventos, formação de educadores, pesquisas e publicações na área de educação de jovens e adultos. Neste caminho será prioritária a conexão com os problemas enfrentados nas regiões Norte e Nordeste e, também, em nível internacional, com países da América Latina e países de língua portuguesa que tenham problemas convergentes com os nossos propósitos.

CGC Educação – Como ela vai funcionar? Como um professor pode fazer para cursá-la? Quais os requisitos?

Scocuglia – A Cátedra foi aprovada definitivamente neste mês de junho, ou seja, neste momento estamos tomando as primeiras providências no sentido do funcionamento. Teremos muito que testar e aprender. Vamos reunir os parceiros iniciais (UFPB-UFPE-UFRN) e os aliados de primeira linha (como as Secretarias de Educação e a SECAD-MEC) para determinarmos nossas ações nos dois primeiros anos – dentro dos objetivos elencados. Dentre os mecanismos pensados, vamos verificar as possibilidades de utilização, por exemplo, das ferramentas da educação à distância para contemplar um número maior de educadores de jovens e adultos.

CGC Educação – Dados do Ministério da Educação mostram que o analfabetismo atinge ainda 14 milhões de brasileiros com mais de 15 anos, ou 10% da população. A própria Unesco admite que não conseguiremos atingir a meta de 6,7% para 2015, estabelecida na Conferência de Dacar, em 2000. Como o trabalho da Cátedra poderá ajudar a cumprir esta meta?

Scocuglia – Penso que os problemas de alfabetismo e letramento são muito mais graves do que as estatísticas mostram. Segundo a UNESCO, não são alfabetizados os que não completaram a 4ª série escolar. Por esse critério os analfabetos brasileiros aproximam-se dos 70 milhões! Ademais, uma pesquisa realizada em 2005 pela Ação Educativa e o Ibope identificou que 3 em cada 4 brasileiros (com mais de 15 anos) não são completamente letrados. Não preciso nem dizer que estamos diante do problema mais grave da nossa educação e que não será uma Cátedra (por mais volumosa e conseqüente que seja) que resolverá tamanha tragédia social. Certamente a Cátedra poderá constituir-se em uma das iniciativas para atacar essa problemática gigantesca.

CGC Educação – As pesquisas indicam ainda que a média de idade dos analfabetos brasileiros é de 54 anos e que entre 47 e 55 anos o número de analfabetos quase dobra: 19.5%. Como atrair este público para a EJA?

Scocuglia – Esta é uma das questões centrais que os sistemas educacionais têm enfrentado. Mais do que isso: depois de atrair os jovens e os adultos (cada vez mais são os jovens) mantê-los estudando tem sido um enorme desafio do setor de EJA. Em suma, os níveis de abandono têm sido enormes em todo o Brasil. Uma das combinações que tem surtido efeito na reversão deste quadro são as combinações da EJA com o mundo do trabalho.

CGC Educação – O programa Brasil Alfabetizado, do MEC, estabeleceu a meta de que pelo menos 75% dos alfabetizadores deveriam ser professores da rede municipal ou estadual. Mas o próprio MEC admite que isto não é cumprido, principalmente por causa do baixo valor da bolsa, de no máximo R$ 300,00. A Cátedra poderá ajudar a atrair estes alfabetizadores para os cursos de EJA?

Scocuglia – Esperamos que as Secretarias de Educação e o MEC sejam parceiros da Cátedra para as ações exemplificadas nas suas questões. Como pode ser notado, os problemas são imensos e extrapolam normalmente a ação de uma Cátedra. Um objetivo fundamental a perseguir (talvez o mais significativo) seja formar educadores de jovens e adultos, a começar por alfabetizadores.

CGC Educação – Além das universidades federais da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte há expectativa do programa ser ampliado?

Scocuglia – Sim. Começaremos com as três universidades e tentaremos ampliar o programa. Sabemos que existem ONGs, movimentos sociais e entidades da sociedade civil que poderão nos ajudar nas ações e tarefas. De início, pensaremos em ações qualificadas que sirvam de base inicial para a gradativa ampliação quantitativa.

CGC Educação – O que o Brasil precisa fazer para melhorar a educação pública?

Scocuglia – Penso que qualquer iniciativa que aparece com algum realce (como as Cátedras da Unesco) em áreas tão problemáticas como a EJA podem, equivocamente, ganhar “áurea” de “salvadoras da pátria”. E não é este o caso. Não há “salvação” para um problema secular como a EJA e o analfabetismo. Há um trabalho imenso e CONTÍNUO a fazer. Sabemos que no setor educacional as soluções incluem fortes políticas de Estado combinadas com as iniciativas da sociedade civil e que, obrigatoriamente, tenham investimentos e trabalhos permanentes. Como propõe a Unesco, devem ser políticas de “educação ao longo de toda a vida”.

Precisamos combinar a fortaleza das políticas públicas, as parceiras da sociedade civil e os investimentos prioritários (E PERMANENTES) na EJA. Não temos “plano B”. Não há experiência histórica exitosa contemporânea que não tenha feito da educação a PRIMEIRA das suas prioridades. Tudo isso sabendo que a educação não é a única alavanca da transformação social, mas que sem ela não há transformação social profunda.

Acho que grande parte da nossa população saberia responder o que precisamos fazer para melhorar a educação e o nosso país (já que há unanimidade em perceber que a educação é decisiva para isso). Se saíssemos nas ruas perguntando por medidas a serem implementadas, parte significativa da sociedade começaria por propor, por exemplo, grande ênfase na melhoria da qualidade dos professores (que só acontece com formação continuada e permanente), ninguém esqueceria que os professores precisam ser (muito) bem remunerados, que as escolas precisam de bibliotecas e laboratórios funcionando a contento e outras medidas. Não precisamos de grandes especialistas para descobrir isso. Quem não sabe disso?детские мягкие игрушкилобановский депутатодежда для малышей до года