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Correção da redação do Enem volta a ser criticada

Série de reportagens de O Globo relata erros absurdos na língua portuguesa, em grafias, concordância verbal, acentuação e pontuação

O jornal O Globo publicou três reportagens nesta semana informando sobre erros graves em algumas redações do Enem. Na segunda-feira, noticiou que pelos menos três redações com a nota máxima (1 mil pontos) tinham problemas de gramática, concordância verbal, acentuação e pontuação. Na terça-feira, informou sobre outra redação, desta vez com 560 pontos, que trazia uma receita de um macarrão instantâneo. Nesta quarta, outra reportagem mostrava um texto com um trecho do hino e um time de futebol – neste caso a nota também foi de 500 pontos.

A repórter Lauro Neto escreve que logo após o Ministério da Educação liberar a correção do Enem para os estudantes, em fevereiro, o site do jornal pediu que os estudantes enviassem redações com a nota máxima. Cerca de 30 textos foram enviados por candidatos que atingiram a pontuação máxima, com a comprovação das notas pelo Ministério da Educação, e a confirmação de aprovação dos alunos pelas universidades federais.

O objetivo, disse o diário carioca, era mostrar os bons exemplos de redação, mas diante dos “erros gritantes”, o MEC foi procurado e recebeu quatro redações com erros.

Em nota, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anysio Teixeira (INEP) disse que “uma redação nota 1 mil deve ser sempre um excelente texto, mesmo que apresente alguns desvios em cada competência avaliada. A tolerância deve-se à consideração, e isto é relevante do ponto de vista pedagógico, de ser o participante do Enem, por definição, um egresso do ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”.

Sobre os critérios usados na correção, estabelecidos por professores doutores em Linguística da Universidade de Brasília (UnB), a autarquia do MEC informou ao jornal que “um texto pode apresentar eventuais erros de grafia, mas pode ser rico em sua organização sintática, revelando um excelente domínio das estruturas da língua portuguesa”.

Na primeira reportagem, O Globo relata que encontrou em várias redações erros absurdos na língua portuguesa, como grafias erradas (rasoavel, enchergar, trousse), além de graves problemas de concordância verbal, acentuação e pontuação.

A reportagem destaca que os corretores observam cinco competências na redação do Enem – cada uma vale 200 pontos. Na competência 1, por exemplo, são atingidos a pontuação máxima apenas se “o participante demonstra excelente domínio da norma padrão, não apresentando ou apresentando pouquíssimos desvios gramaticais leves e de convenções da escrita. (…) Desvios mais graves, como a ausência de concordância verbal, excluem a redação da pontuação mais alta”.

Dois especialistas foram ouvidos pelo jornal. O pós-doutor em Linguística Aplicada e professor da UFRJ e da Uerj, Jerônimo Rodrigues de Moraes Neto, disse que essas redações não deveriam receber a pontuação máxima. “A atribuição injusta do conceito máximo a quem não teve o mérito estimula a popularização do uso da língua portuguesa, impedindo nossos alunos de falar, ler e escrever reconhecendo suas variedades linguísticas”, afirmou.

O professor Claudio Cezar Henriques, titular de Língua Portuguesa do Instituto de Letras da Uerj, destacou que a banca corretora não usa o termo “erro”, mas “desvio”. “É preciso lembrar que as avaliações oficiais julgam os alunos, mas também julgam o sistema de ensino. Na vida real, redações como essas jamais tirariam nota máxima, pois contêm erros que a sociedade não aceita”, afirmou.

Na matéria de terça-feira, os repórteres Lauro Neto e Leonardo Vieira escrevem que um estudante debochou do exame ao colocar no meio da redação a receita de um miojo. Das 24 linhas da redação, quatro foram reservadas para a receita.

O candidato recebeu 120 pontos (60%) na competência 2, na qual são avaliadas a compreensão da proposta da redação e a aplicação de conhecimentos para o desenvolvimento do tema. Na competência 3, na qual é avaliada a coerência dos argumentos, o candidato recebeu 100 (50%).

Em nota, o MEC afirmou que “a presença de uma receita no texto do participante foi detectada pelos corretores e considerada inoportuna e inadequada, provocando forte penalização especialmente nas competências 3 e 4”.

O Globo entrevistou dois professores e um coordenador da banca de correção da prova, que pediu para não ser identificado. “Na parte em que ele escreveu sobre o tema, ele se saiu bem. A orientação é considerar o que for possível. Desse modo, ele conseguiu metade da nota”, afirmou.

Para o coordenador de Língua Portuguesa e Redação do colégio pH, Filipe Couto, os critérios de correção não são claros. “O edital do Enem diz uma coisa e a banca faz outra”, afirmou.

O professor de redação do curso Pensi e da escola Modelar Cambaúba, Raphael Torres, disse que o candidato “quebra a estrutura do texto” aos escrever a receita. “Mas a banca não enxerga isso como impropério. Ela pega as próprias brechas que fez com o Guia do Participante para legitimar a nota que deu. Ele deveria tirar uma pontuação muito mais baixa do que 560”, disse.

Na terceira reportagem sobre as redações do Enem, o jornal revela o caso de um aluno que incluiu o hino do Palmeiras, dedicando dois dos quatro parágrafos à canção.

Em nota, o INEP, garante que os avaliadores identificaram o hino e por isso o aluno obteve nota 500, tendo nota baixa especialmente nas competências 1 e 2. “Desconsiderada a inserção inadequada, o texto tratou do tema sugerido e apresentou ideias e argumentos compatíveis”, afirmou a autarquia do MEC responsável pelo exame.

O Globo informa que o autor do texto é o paulista Fernando Maioto e que ele teve a inteção de testar o Enem. “Sempre escutei histórias de pessoas que fizeram a redação e colocaram receitas de bolo. O grande intuito mesmo era mostrar que os corretores não leem completamente a redação”, afirmou.

O jornal também identificou o estudante que colocou a receita do macarrão na redação. Aprovado em engenharia civil da Unilavras, Carlos Custódio Ferreira disse que merecia tirar nota 0 na redação. “Fiquei surpreso quando vi o resultado. Era para eu zerar, pois fugi do tema. Confirmei o que desconfiava, que não corrigiam todas as redações direito”, disse ele ao jornal.

O Globo entrevistou dois professores para comentar o caso. Para o professor de Letras e vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, Deonísio da Silva, a redação com o hino deveria ser zerada. “Penso que é deboche, mas mesmo se não for, ainda sim ele quebrou com a lógica argumentativa. Eu daria zero”, disse.

Já a doutora em linguística aplicada Lucília Garcez defendeu a nota 500. “Se você observar bem a redação, excluindo a brincadeira de colocar o hino do Palmeiras, o participante escreve bem, não comete muitos erros de língua portuguesa, articula bem as ideias”, afirmou.

As reportagens de O Globo viraram notícia em vários jornais. Nesta quarta-feira, O Estado de S. Paulo destaca que em um universo de 4 milhões de redações do último Enem, cerca de 300 textos apresentaram alguma “inserção indevida”.

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