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Crianças criam startups em laboratórios de empreendedorismo

Um time de 96 pessoas, com presidente, diretores e outros cargos de liderança, resolveu ganhar dinheiro vendendo chorume. O grupo montou as composteiras, criou embalagens, engarrafou o produto, fez um plano de comunicação e arrecadou, em dois anos, R$ 1.796.

Centro Educacional Pioneiro

O valor parece pouco expressivo, até que se descobre que é um projeto de crianças de 11 anos do Centro Educacional Pioneiro, em São Paulo.

A instituição particular é uma das escolas que têm oferecido aulas relacionadas com empreendedorismo e mercado de trabalho. Os laboratórios envolvem atividades como criação de startups, estágios em empresas e simulação de entrevistas de emprego.
Segundo Débora Garofolo, professora especialista em inovação e assessora de tecnologia da rede estadual de ensino de São Paulo, há hoje um grande movimento de introdução desses temas nos currículos escolares.

Um dos objetivos dessas disciplinas, diz, é desenvolver atitude e mentalidade empreendedora para a resolução de problemas. Em cima desse pilar, os estudantes trabalham criatividade, inovação e exercitam o trabalho em equipe e o autoconhecimento.

O projeto de iniciação ao empreendedorismo do Pioneiro começa no quarto ano do ensino fundamental. Além de criarem o produto, os alunos passaram por entrevistas com a equipe de recursos humanos da escola para compor as vagas da diretoria. O objetivo era adequar os perfis dos alunos aos cargos.

Valdenice Minatel, diretora pedagógica do Dante Alighieri, na zona oeste de São Paulo, diz que, para empreender, é necessário ser questionador, resiliente e colaborativo —atitudes que fazem falta e ajudam na vida acadêmica.

O colégio tem uma série de programas ligados ao tema, como feiras e matérias eletivas em parcerias com faculdades.

Na primeira série do médio, os estudantes têm a cidade como objeto de estudo e precisam propor políticas públicas. Os melhores são selecionados para um programa com mentores em Washington (EUA).

“É um forma de treinar a habilidade de olhar para o mundo e enxergar oportunidade de melhoria”, diz Verônica Cannatá, coordenadora de tecnologia educacional da instituição de ensino.

Ela diz que alunos que não são brilhantes academicamente podem se tornar líderes em dinâmicas “mão na massa”, já os que se destacam no currículo tradicional podem ter dificuldades em desenvolver a esfera comunicativa que empreender exige.

A resolução de problemas da comunidade é o eixo central do chamado empreendedorismo social, também trabalhado nas aulas multidisciplinares do colégio Bandeirantes, batizadas de Steam, sigla que, em inglês, se refere a ciências, tecnologia, engenharia, artes e matemática.

Na apresentação dos projetos desenvolvidos na disciplina, presenciada pela reportagem, um dos grupos do terceiro ano do ensino médio mostrou uma receita caseira para substituir o plástico, usando amido de milho. Outro fez uma simulação de como funcionaria uma parceria entre empresas para estimular o uso de bicicletas e patinetes.

A Escola Internacional de Alphaville foi uma das pioneiras na inclusão de disciplinas relacionadas a negócios e mercado de trabalho na grade curricular, ainda em 2006.

Estudantes do nono ano do fundamental e do médio têm aulas que apresentam estudos de casos reais, com números do mercado, e fundamentos da administração.

Carolina Peres, docente da instituição, aponta que esses métodos e competências são particularmente importantes quando não se sabe quais serão as profissões do futuro.

“Ser resiliente e criativo faz com que, apesar do futuro ser incerto, o aluno tenha como se garantir para trabalhar em projetos, estudar na faculdade e tomar decisões”, diz.

A escola britânica St. Paul’s, na zona oeste de São Paulo, segue linha semelhante. No ensino fundamental, estudantes desenvolvem softwares e aplicativos e, no médio, compõem portfólios de investimento para apresentar a organizações.

Algumas escolas inserem de verdade os estudantes no mercado de trabalho.

É o caso do Colégio Humboldt, que, há 22 anos, tem o Programa Trabalho, em que alunos do segundo ano do médio passam uma semana trabalhando em uma empresa. Para conseguir o estágio, eles fazem cartas de intenção e passam por entrevistas.

As iniciativas já estão na mira de organizações de fora do universo escolar. Uma delas é o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que criou uma premiação para projetos de empreendedorismo do ensino fundamental ao superior —o Pioneiro foi um dos vencedores da etapa estadual.

O tema também fará parte do ensino público. No estado de São Paulo, a ideia é que até fevereiro de 2020 alunos a partir do sexto ano tenham, no cardápio de eletivas, matérias de empreendedorismo.

Incluir o tema na grade, no entanto, requer cuidado. Claudio Sassaki, cofundador da startup de educação Geekie, que presta consultoria à comunidade escolar, e mestre na área pela Universidade Stanford, nos EUA, diz que há um risco de que as aulas se tornem conteudistas, o que iria na contramão do esforço para deixar a educação dinâmica.

Na opinião de Lúcia Bruno, professora livre-docente do departamento de administração escolar e economia da educação da USP, existe um empobrecimento da formação de jovens quando se leva à sala de aula termos do mundo do trabalho.

Segundo ela, isso acontece porque o mercado é, em sua essência, competitivo e excludente, o que elimina valores como a solidariedade, importantes na educação.

Para a professora, as escolas têm, sim, o papel de preparar os jovens para o mundo do trabalho, mas não devem apresentar o empreendedorismo como um único modelo a ser seguido.

“Dá para preparar as crianças para resolverem seus problemas no âmbito psicológico, que não passa por empreender”, diz Bruno.