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De Minecraft a K-pop, tudo cabe na sala de aula do mundo contemporâneo

Com exemplos que foram do Minecraft, K-pop à série espanhola Merlí, passando por Henry Ford, Andy Warhol e Steve Jobs, dois professores de gerações diferentes ensinaram como a nova educação pode (e deve, segundo eles) se apropriar dos avanços tecnológicos para transmitir conhecimento.

Instituto Singularidades

No último dia da Rio2c, conferência sobre criatividade que acontece anualmente no Rio, uma palestra sobre educação foi uma grande aula sobre como levar a cultura pop para dentro das escolas com sucesso, com direito a inúmeras referências do mundo contemporâneo. “O modelo fordista [decorrente da linha de montagem preconizada pelo industrial Henry Ford] de disciplinar o conhecimento é domesticador e acabou isolando a escola do mundo real”, resumiu Miguel Thompson, que dirige o Instituto Singularidades – uma instituição de ensino superior especializada em formação de professores, financiada pelo braço de investimentos da família do empresário Abílio Diniz.

Com a experiência de quem já foi professor de cursinho pré-vestibular, Thompson transitou do Iluminismo à cultura da internet em menos de 15 minutos para provar que, por mais conectada que esteja, a sociedade não pode prescindir do educador.

“O celular é maravilhoso, mas ele isola. Precisamos desconectar para reconectar”, provocou, mostrando imagens de um ensaio fotográfico em que o celular foi apagado das cenas, resultando em pessoas olhando para a própria mão, sem diálogo.

A inovação depende da troca, argumentou. Com desenhos com interpretação dúbia no telão, Thompson colocou a plateia para dialogar no esforço para identificar figuras diferentes na mesma imagem e, assim, provar seu ponto de vista. “A diversidade de pontos de vista é fundamental, e cabe ao educador ajudar a ver todos os ângulos e possibilidades.”

Professor de uma escola pública de ensino médio no Recife, Daniel Martins prega o que chama de apropriação cultural do bem com os alunos. Coordenador técnico dos cursos do Nave, uma escola integral que combina formação técnica em design e programação com projetos práticos de inovação tecnológica, ele ensina que essa apropriação passa por entender que o celular não é inimigo do professor, assim como as redes sociais.

“Eu sei que eles fazem memes das minhas aulas e até incentivo, peço pra mostrarem pra classe. O meme é parte da linguagem dos alunos”, explica. O professor, hoje, precisa deixar de lado o que chamou de “pedantismo pedagógico e geracional”, recomendou o designer de games. “Você sempre vai ser o adulto da conversa, mas precisa ouvir o aluno.”

Thompson e Martins concordam que as referências dos alunos podem ser incorporadas para promover o conhecimento. No mundo dos games, o professor da Nave cita a experiência da versão pedagógica do Minecraft, um dos maiores sucessos da indústria de games independentes. “Não é só um jogo sobre blocos para construir, é possível abordar até temas como compostagem e ensinar jogando”, disse Martins, que joga com os alunos.

Thompson apresentou o feed fictício de Rembrandt criado pelo Rijksmuseum, da Holanda, que preparou um vídeo com posts do pintor barroco e suas interações com Vincent Van Gogh e Johannes Vermeer no Facebook. “Podemos desafiar os alunos a usarem as redes sociais como ferramenta para criar. Que tal um perfil do Darwin?”, provocou.

E desafia professores a abandonarem a condescendência com o próprio ofício: “Essa história de que ser professor é vocação é o &*#%! É profissão, e os professores têm de se profissionalizar. Entender como se dá o conhecimento é como se fosse o cálculo para o engenheiro. Professor que não entende como se dá a cognição e não entende a cultura infanto-juvenil é um engenheiro que não entende de cálculo”.