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Gestão: encontrar bons docentes é o maior desafio para gestores de escolas privadas

Encontrar professores qualificados e com boa formação, atrair novos alunos para sua instituição, lidar com as famílias que “terceirizam” os problemas dos filhos e com a inclusão: estas são as quatro questões que mais tiram o sono de gestores de escolas privadas hoje no Brasil. É o que aponta a pesquisa “Desafios da gestão escolar”, feita pelo Instituto Data Popular especialmente para a revista Educação. No levantamento, foram ouvidos 82 gestores de escolas particulares, 76% delas situadas no Estado de São Paulo e o restante proveniente de outros 12 estados brasileiros. As escolas foram divididas segundo o porte e o estrato social de seu público (veja quadro abaixo com perfil das escolas).

Para identificar as questões mais relevantes a serem submetidas aos participantes, antes foram realizados dois grupos focais com diretores de escolas de São Paulo. Após esses encontros, para efeito de sistematização, as preocupações identificadas foram divididas em dois grupos, o primeiro mais de ordem administrativa, o segundo relativo a questões com maior potencial de reflexo no campo pedagógico.

Os resultados espelham algumas das questões mais latentes da educação brasileira em geral e outros mais característicos do universo privado. O principal deles é o ponto central das preocupações dos gestores: a dificuldade de encontrar bons professores, que também tem repercussões em outros itens mencionados, como a alta rotatividade e falta de comprometimento docente. Esse quadro dialoga diretamente com a tão falada desvalorização da carreira docente, que tem feito com que a oferta de jovens professores seja reduzida e muitas vezes fique mais circunscrita àqueles com menor bagagem sociocultural.

A preocupação com a contratação de bons professores, com formação suficiente para sustentar o projeto pedagógico das escolas, é constante para 63% dos entrevistados, eventual para outros 28% e ocorre raramente para 9% deles. É a questão que aparece com maior percentual de “preocupação constante” entre os dois grupos temáticos. A preocupação aparece com índice idêntico em escolas voltadas às classes A/B e naquelas voltadas à classe C, em ambos os casos com os mesmos 63%.

Ao serem perguntados sobre quais são as questões mais urgentes e quais as mais desafiadoras, encontrar bons professores ficou, respectivamente, em segundo e primeiro lugar. Já atrair novos alunos é a segunda maior preocupação administrativa (constante para 60%; às vezes, para 32%), mas é vista como mais urgente (com mais do que o dobro do índice de “encontrar professores”) e como a segunda mais desafiadora.

A questão da atração de novos alunos apareceu como mais crítica para as escolas de menor porte. Nesse caso, 73% delas apontam a preocupação como constante, contra 46% das de maior porte. Nesse estrato, essa preocupação supera até mesmo o desafio de encontrar bons professores, apontado por 66% delas. Já quando o critério é a classe social atendida, encontrar bons professores e atrair novos alunos são as duas principais preocupações, com índices muito parecidos para as duas questões e para os dois perfis de escolas.

Mas a aparição de “atrair novos alunos”, inadimplência (com 55% de preocupação constante) e “manter os alunos já matriculados” (54%) como três dos cinco itens apontados entre os desafios administrativos traz um indício claro de que a crise econômica está abalando fortemente a gestão das escolas. Tendo dado seus primeiros sinais já em 2014 e ganhado corpo a partir de 2015, a recessão econômica promete resistir, ainda que suavizada, por mais um bom tempo. E ela afeta mais diretamente aqueles que já trabalhavam com margens de lucro reduzidas.

A questão da inadimplência, por exemplo, torna-se mais crítica nas escolas de classe C, sendo preocupação constante para 63% delas (contra 48% das de classe A/B). Isso se reflete também na preocupação com a manutenção dos bons professores e com a alta rotatividade docente, em que seus índices são bem superiores àqueles das escolas de estrato social mais alto.

Já no caso da retenção dos alunos já matriculados, quarto aspecto mais frequente, as escolas voltadas à classe A/B estão entre as mais preocupadas (58% a 49%), mas compartilham a aflição com aquelas de pequeno porte (59% delas com preocupação constante, contra 49% das de grande porte).

O quinto item apontado como o mais relevante entre aqueles das questões administrativas está diretamente ligado ao primeiro: 45% dos gestores disseram que a manutenção na escola dos bons professores é um tema de preocupação constante para eles. As escolas de classe C são mais sensíveis à questão: para 49% delas, contra 40% das A/B, o tema é mais crítico.

A seguir, vem uma questão de outra ordem bem distinta, a sucessória, que é objeto de atenção constante para 39% dos entrevistados, com forte prevalência nas escolas de grande porte. Nelas, o olhar para a preparação do sucessor ideal está presente continuamente em 46% dos casos, contra 32% das escolas de pequeno porte. Nestas, o assédio dos grandes grupos é uma sombra constante para 22%, contra 12% que revelam essa preocupação nas grandes.

Outros quatro itens ainda receberam menções de pelo menos 10% dos respondentes como objetos de preocupações constantes em seu cotidiano. São eles: a relação entre professores e alunos fora do ambiente escolar (27%); a alta rotatividade de professores e a falta de comprometimento desses profissionais com o exercício docente (27%); o já citado movimento de aquisição de pequenas escolas por parte de grandes grupos (17%) e o futuro profissional do próprio gestor da escola e a falta de perspectiva de longo prazo (10%).

Se no plano administrativo a falta de recursos humanos, as transformações do mercado e a crise econômica dão o tom do que prende a atenção dos gestores, as mudanças comportamentais relativas à família, além da questão da inclusão, são os temas que aparecem em primeiro plano no âmbito daquilo que os gestores dizem ser as questões ligadas mais diretamente a aspectos pedagógicos.

Aqui, a dita “terceirização dos problemas dos filhos” por parte dos pais ocupa o primeiro lugar, sendo objeto de preocupação constante para 60% dos gestores, assim como a pouca participação dos pais na educação dos filhos é apontada por 54% dos gestores. Entre os dois itens, fica a questão da inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais, com 57%.

Mas outros temas que podem estar ligados a uma percepção de desagregação nos planos familiar e social, além de suas consequências psicológicas, também se fazem presentes. Sinal disso é que o tema mais do que contemporâneo da dificuldade de lidar com frustrações (52%) aparece em quarto lugar, sendo secundado pelos problemas de saúde psicológica dos adolescentes, ligados a questões como depressão, anorexia e suicídio (44%) e conflito entre alunos (38%), percentuais sempre relativos ao que é objeto de preocupação constante dos gestores.

Em meio a esses tópicos, aparecem também questões como o preparo dos alunos para o mercado de trabalho (52%), a recorrente resistência ou dificuldade dos professores na utilização de recursos tecnológicos (43%) e a de escolher quais são aqueles mais adequados às práticas pedagógicas (37%). Note-se que, no plano das preocupações pedagógicas, há maior proximidade entre os percentuais de preocupação constante do que no campo administrativo. Se neste a dificuldade de encontrar bons professores desponta mais forte e a preocupação do gestor com seu futuro profissional é quase incipiente (63% a 11%), nas questões ligadas ao pedagógico o item mais mencionado (terceirização dos problemas) e o décimo na escala (mudanças na legislação sobre as diretrizes pedagógicas) trazem um intervalo bem menor, de 60% a 33%. Ao que parece, há várias questões incidindo sobre as práticas pedagógicas, muitas delas concorrendo para tornar a gestão mais desafiadora. Sem contar o fato de que a dificuldade de contratação de professores também incide diretamente sobre a sala de aula, apesar de aqui listado como um problema administrativo, ligado à gestão de recursos humanos.

No caso da inclusão, cujo universo regulatório sofreu mudanças com a entrada em vigor, no início de 2016, da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146), as escolas muitas vezes se sentem inseguras sobre o que exatamente são obrigadas a oferecer. No caso, aquelas que servem à classe C se dizem mais constantemente preocupadas. São 66% dos gestores que apontam a questão, contra 50% no universo das classes A/B. Já na relação entre a inclusão e o porte da escola, os sinais aparecem invertidos: há mais preocupação nas de grande porte (63%) do que nas pequenas (51%), o que não deixa de causar certa estranheza, já que o mais comum seria que as pequenas, teoricamente com menos recursos, apontassem o item como objeto de suas aflições.

Também no que diz respeito à pouca participação dos pais na educação dos filhos, há maior incidência de preocupação na classe C (61%, contra 48% na classe A/B) e na escolas de grande porte (66%, contra 42% nas pequenas). As instituições de grande porte também se sentem significativamente mais pressionadas em duas outras questões: em relação à saúde psicológica de seus alunos (61%, contra 27% das pequenas) e no que diz respeito ao ingresso de seus estudantes no mercado de trabalho.

Aqui, entra um elemento que tem caracterizado fortemente as disputas de colégios privados no âmbito do ensino médio: a aposta na oferta de balizadores para os exames vestibulares e para o Enem, o que inclui não só a realização de simulados, mas também o uso de softwares que comparam o desempenho dos alunos em relação a eles mesmos, aos colegas e ao histórico do curso desejado. O item também inclui a preocupação com as novas carreiras do mercado e com as habilidades que o mundo do trabalho requer. Com isso, 73% dos gestores das grandes escolas se dizem voltados a esse tema, contra 32% das instituições de pequeno porte, talvez ainda mais centradas numa formação mais tradicional, voltada a carreiras mais consagradas.

No geral, como diz o psicólogo e consultor José Ernesto Bologna, da Ethos Desenvolvimento Humano e Organizacional, os resultados da pesquisa reforçam aquilo que já se sabia ou intuía, principalmente com relação aos temas da dificuldade de contratação do professor e do sentimento das escolas de que as famílias terceirizam os problemas dos filhos. “A diferença é que aqui se trata de uma pesquisa, e não de um palpite. Ela dá uma linguagem e reforça o que se imaginava. Por isso tem grande importância”, diz o consultor.

Nessa linha de expressão mais clara dos problemas, Bologna ressalta a questão da dificuldade dos alunos de lidar com a frustração. “Colocada dessa maneira, a resistência à frustração do filho é uma questão inovadora”, diz, em relação ao quarto dos temas de maior incidência no campo pedagógico, mencionado como preocupação constante por 52% dos gestores.

O consultor, no entanto, elege como “questão brutal” apontada pela pesquisa a da carência docente. E diz que ela não será resolvida apenas pelas universidades, com uma eventual melhora da formação. “A universidade não vai entregar o professor que a escola quer, pois a defasagem é enorme. Isso é um problema maior, do país”, avalia Bologna.

Gestão no Instituto Singularidades

Miguel Thompson, diretor do Instituto Singularidades, uma das principais instituições formadoras hoje no país, diz que a questão passa pela formação continuada. E que, muitas vezes, as escolas não se mostram dispostas a investir nessa formação. “É uma visão extrativista, querem achar bons professores, mas não querem formá-los. Investem em palestrantes caros, mas não numa formação processual”, diz.

Somadas, as visões ajudam a entender aspectos do problema. Muitas vezes, os estudantes de licenciaturas não conseguiram ingresso em outras carreiras por carregarem deficiências anteriores em sua formação. Ingressam no campo educacional e, não raro, saem mal preparados da universidade. Além disso, não estão prontos para assumir o cada vez mais desafiador universo de sala de aula. Se não houver apoio institucional, com a proximidade de profissionais mais rodados, o fato de remanescer na profissão dependerá, muitas vezes, da falta de outras opções ou da necessidade financeira. Em resumo: com exceção daqueles muito bem formados e das escolas com infraestrutura para amparar jovens inexperientes, há um ambiente que conspira para a não atração ou para que o professor iniciante desista da carreira.

Para o consultor Maurício Berbel, até antes da crise ao menos as escolas maiores investiam em jovens promissores. “Hoje isso está mais restrito. Em função de cortes de custo, foi deixado de lado”, diz. Para ele, houve uma inversão nas últimas duas décadas que tem ajudado as escolas. “Há 20 anos, os sistemas de ensino apostilados eram piores e os professores melhores. Hoje, os sistemas melhoraram e os professores pioraram. Eles e os recursos tecnológicos têm ajudado as escolas a manter o nível”, avalia.

Para Eugenio Cordaro, da Corus Consultores, um problema crônico do meio escolar é a falta de profissionalização dos gestores, que impacta fortemente a relação com os professores. Perde-se muito tempo, diz, discutindo-se problemas administrativos e pedagógicos que acontecem de maneira similar há muitos anos. Em muitos desses casos poderiam ser adotados protocolos e procedimentos que dariam mais tempo aos gestores de planejar a escola e de serem mais analíticos.

“Há muita reflexão e pouca ação. Por exemplo, poucas escolas trabalham com bases de dados, fazendo uma comparação, em termos de desempenho, da evolução dos alunos. Isso permite comparar um professor com o outro, o desempenho de um ano com o anterior. Há reunião pedagógica semanal, mas os dados são pouco discutidos; só escolas grandes usam Big Data”, diz Cordaro.

Num momento em que a disputa pelo aluno se mostra cada vez mais acirrada, com a chegada à educação básica de novos grupos, a luta para atrair novos estudantes pode embutir algumas ciladas estratégicas. Isso pode ser ruim no longo prazo, principalmente quando faltam princípios claros.

“Há, em certos casos, uma competição acirrada puxando para preços, o que pode ser um problema. Muitas escolas não fazem direito o cálculo de custos e praticam preços que não se sustentam. Não entregam qualidade e criam uma competição danosa para o mercado como um todo”, alerta Maurício Berbel.

Outro problema é olhar demais para os competidores, sem se preocupar com a própria identidade. “Há quem invista para ficar igual ao outro, e não para criar um diferencial. Compram serviços ou parcerias e não constroem um conceito de escola”, diz Berbel.

A criação desse conceito ou estratégia é o que Thompson, do Singularidades, coloca como ponto inicial para o funcionamento da escola. “Bem definida a estratégia, tem de haver boa gestão, bom professor e boa comunicação”, lista. E lembra que o professor muitas vezes não é um bom professor de maneira universal. É um bom professor quando alinhado à estratégia da escola. E que o segredo para que a escola preste bons serviços é ter muita atenção à interação entre professor e aluno.

Para ele, não adianta olhar só para o aluno. Afinal, são os professores que carregam a imagem da escola porta afora. Se a relação deles com seus estudantes for boa, esse será o maior veículo de atração de novos alunos. Hoje, esses dois personagens são muito diferentes do que já foram. Mas continuam a ser o centro da escola.

No universo dos gestores da pesquisa Data Popular/revista Educação, há forte prevalência de gestores do sexo feminino, com formação superior nas áreas de pedagogia e psicologia, com idades que variam dos 35 aos 59 anos. Nos dois primeiros quesitos, o percentual atinge os 73% do total; no perfil etário, 65% dos entrevistados estão na faixa etária mencionada.

Se a pesquisa não permite que esse perfil se projete para o universo de escolas privadas brasileiras nessa mesma proporção, não é difícil avaliar que não deve ser assim tão diferente dessa amostragem. Talvez haja uma inflexão maior nas escolas de grandes redes ligadas a fundos de investimentos ou grandes grupos, mas, no geral, o perfil dos gestores da rede privada deve ser bem próximo do aqui observado.

E, desse ponto de vista, há pouca formação nas áreas de gestão e administração e um número considerável de gestores com menos de cinco anos de experiência na escola em que atuam. Mais do que isso: 30% do total não tinham exercido nenhum cargo de gestão antes de assumirem sua instituição e 53% vinham da área pedagógica, como professores ou coordenadores.

“Um baixo percentual tem formação em gestão. A tendência é que escolas sem gestores preparados e com poucos recursos fiquem tratando do dia a dia, sem tempo para dedicar ao planejamento”, diz Eugenio Cordaro, da Corus Consultores. Para ele, é preciso que os gestores ou tenham duas formações, nas áreas administrativa e pedagógica, ou ao menos uma vivência em uma das áreas. “Nas melhores escolas que conheço, a formação do gestor não é em pedagogia, e sim em economia, administração, engenharia. Depois, é preciso uma vivência na escola. Mas é vital pensar o planejamento estratégico longe dos problemas do dia a dia”, diz.

Para o também consultor Maurício Berbel, hoje há mais gente com experiência em gestão, mas ainda falta esse pensamento mais estratégico. E falta juntar os olhares. “A vinda de profissionais da administração contribui na gestão, mas afetou a essência pedagógica. A competição virou mais comercial, menos essencial, e isso é danoso”, avalia.

Miguel Thompson, diretor do Instituto Singularidades, sublinha o fato de que mais de um terço dos profissionais está há menos de cinco anos na gestão de suas instituições. “A escola é uma empresa que envolve muita gente, difícil de administrar. Há muita falta de profissionalização. Em outros setores, trazem gente de outras áreas para suprir essa inexpe­riência”, ressalta.

Para minimizar essa lacuna formativa, o Singularidades está estudando, em conjunto com a Fundação Getúlio Vargas, a constituição de um mestrado profissional de gestão, revela Thompson.

 

 

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