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Enem: nota melhora, participação cresce, mas desigualdades continuam

63% das escolas registraram desempenho inferior à média nacional. Destas, 96% são públicas
Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2010 revelam uma pequena melhora na nota geral dos alunos, uma crescente participação e a persistência das desigualdades entre o ensino público e o privado. No sábado, o Ministério da Educação divulgou os resultados dos alunos e nesta segunda-feira foram publicados os resultados por escola.

No período 2009-2010, a nota média nacional dos alunos passou de 501 para 511 pontos. Na redação a média subiu de 585,06 para 596,25. Essas médias referem-se apenas aos alunos que estavam concluindo o ensino médio quando fizeram a prova.

Segundo o resultado por escola, 63% delas registraram desempenho inferior à média nacional, informa a Agência Brasil. Responsáveis por 88% das matrículas do ensino médio, as escolas públicas são maioria esmagadora entre as que ficaram com nota abaixo da média: 96%.

A meta do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), responsável pelo exame, é atingir a média de 600 pontos em 15 anos. No entanto, diz a agência de notícias do governo federal, se for mantido o padrão de resultados obtidos nas duas últimas edições, será possível antecipar essa meta em dez anos.

Ranking

Considerando apenas as escolas com alto índice de participação na prova (mais de 75% dos alunos), apenas uma pública está entre as 20 melhores do país: o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A média obtida pela escola mineira foi 726,42 pontos, com um taxa de participação de 98% dos estudantes.

Os alunos com melhor desempenho foram os do Colégio São Bento, no Rio de Janeiro, com 761 pontos – 250 a mais do que a média nacional. Em segundo lugar está o Instituto Dom Barreto, de Teresina. Na sequência aparecem o Colégio Vértice, de São Paulo, e os colégios Bernoulli e Santo Antônio, de Belo Horizonte.

Nenhuma das escolas públicas que compõem a lista das 100 melhores no Exame Nacional do Ensino Médio de 2010 é da rede estadual regular. Fazem parte das melhores públicas as vinculadas às universidades públicas, os colégios militares, os institutos federais de educação profissional e as escolas técnicas estaduais. Em muitos casos, estas instituições selecionam seus alunos por meio de uma prova, já que a procura é maior do que a oferta de vagas.

Mudança

O Inep mudou a divulgação dos resultados por escolas e criou quatro faixas de participação. O grupo um engloba as 4,6 mil escolas que tem 75% dos alunos ou mais participando da prova (17,8% do total). O grupo dois reúne as 5,4 mil unidades que tiveram de 50% a 75% de seus estudantes inscritos (20,9%). Já o grupo três representa os 8,6 mil estabelecimentos com participação de 25% a 50% (33% do total) e o grupo quatro reúne as 7,4 mil escolas que tiveram menos de 25% dos alunos inscritos (27,4%).

Segundo o Inep, o objetivo é reduzir distorções no caso de escolas em que a participação dos alunos é pequena. Como em muitos casos os estabelecimentos de ensino utilizam o bom desempenho no Enem para fins publicitários, o Inep quer evitar que as escolas em que apenas os melhores alunos fazem a prova possam ficar na lista das mais bem colocadas.

Pela primeira vez desde que o exame foi criado, em 1998, é possível comparar os resultados de duas edições distintas. Isso porque em 2009 o Inep adotou uma nova metodologia chamada Teoria de Resposta ao Item (TRI), que permite “calibrar” as provas para que elas tenham o mesmo nível de dificuldade de um ano para outro.

Participação

A participação dos estudantes concluintes das escolas públicas e privadas subiu de 824 mil em 2009 (45,8%) para 1 milhão (56,4%) em 2010. Participaram das provas mais de 3,2 milhões de estudantes. Para a edição de 2011, que será aplicada nos dias 22 e 23 de outubro, há 5,4 milhões de inscritos. Desse total, 1,4 milhão estão terminando os estudos neste ano. Os dados do Inep mostram ainda que o número de escolas do ensino médio regular aumentou de 25.484 (2009) para 26.099 (2010).

Ministro

Para o ministro da Educação, Fernando Haddad, o crescimento da nota dos alunos indica melhoria na qualidade do ensino médio. “Estamos confiantes que o Enem represente para o ensino médio aquilo que a Prova Brasil vem representando para o ensino fundamental. Ou seja, um instrumento que auxilia a organização racional do currículo e que orienta o trabalho dos professores na sala de aula”, disse ele, de acordo com a Agência Brasil.

O ministro aponta que a Prova Brasil – avaliação aplicada a todos os alunos do 5° e do 9° ano do ensino fundamental – foi responsável por uma melhoria da qualidade nesta etapa. “Quando me perguntavam porque o ensino fundamental avança mais do que o médio, eu atribuía a dois fatores. Primeiro, não há como melhorar a qualidade por cima, é preciso avançar da base. Por outro lado, o ensino médio não contava com um instrumento como a Prova Brasil, que ajuda na organização do trabalho da escola”, disse.

Haddad alertou que o resultado não dever usado unicamente como critério para a escolha da escola. “Nós sabemos a importância que os pais dão a esses resultados, por isso divulgamos o Enem por escola há anos. A recomendação é que se observe não apenas a nota, mas a taxa de participação, que é um subsídio a mais”, afirmou.

Ele criticou o vestibular tradicional e disse esperar que o Enem seja uma espécie de componente curricular do ensino médio. “Que os estudantes façam a prova mesmo que não pretendam utilizar o resultado para ingressar em uma universidade, que façam como atividade de conclusão da educação básica, até para saber como terminaram”, defendeu.

Na opinião do ministro da Educação, o vestibular desorganiza o trabalho da escola e o Enem organiza. “Quando você substitui um pelo outro você tem impacto na qualidade. O Enem dá impulso a uma ação de melhoria. O vestibular desorganiza pela própria irracionalidade do processo, em que cada universidade tem um processo seletivo e você acaba tendo uma sobreposição de conteúdos que nenhuma escola, em sã consciência, consegue cobrir em três anos. Você dispersa a energia”, disse.

Sobre as desigualdades, Fernando Haddad disse que a distância entre os resultados é “intolerável”. Ele avalia que muitas vezes o baixo desempenho está relacionado não apenas às condições da escola, mas de seu entorno. “Às vezes, as condições socioeconômicas das famílias explicam muito mais o resultado de uma escola do que o trabalho do professor e do diretor. E, muitas vezes, as escolas são sobrecarregadas com responsabilidades que não são 100% delas. É muito diferente uma escola de um bairro nobre de uma região metropolitana de classe média, cujo investimento por aluno é dez vezes o investimento por aluno da rede pública, de uma escola rural que atende a filhos de lavradores que não tiveram acesso à alfabetização”, afirmou.

Qualidade

Para Mozart Neves Ramos, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e do movimento Todos Pela Educação, o Enem induz a melhoria, mas não conseguirá sozinho garantir a qualidade necessária. Ele avalia que melhora na nota é resultado de um trabalho mais direcionado que as escolas têm feito, além de ser pré-requisito para o Programa Universidade para Todos (ProUni).

“É natural que houvesse esse avanço a partir desse foco que as escolas estão dando, tanto públicas quanto privadas, na preparação para a prova. Por onde a gente anda vê propaganda de cursinhos e instituições que estão preparando o aluno para o Enem e o próprio aluno começa a se moldar para esse novo modelo avaliativo. Não necessariamente o aumento da nota significa que a qualidade do ensino médio melhorou. O ensino médio ainda está estagnado do ponto de vista do desempenho. O aluno precisa urgentemente de uma nova escola”, disse.

Para ele, a ausência de escolas públicas entre as melhores do Enem prova a desigualdade de acesso a oportunidades educacionais no país. “Esse quadro é um reflexo do próprio apartheid, causado por uma educação que não é oferecida no mesmo patamar a todos desde a alfabetização. As avaliações mostram que essa desigualdade começa lá atrás e vai se acentuando ao longo do percurso escolar. O jovem da escola particular chega ao nível de formação e aprendizado esperados quando termina o ensino médio, mas o da escola pública chega com três ou quatro anos de déficit na aprendizagem. A luta é desigual”, afirmou.allsjcam.ruchinese translateAxo Light