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Enem: professores discutem troca das matérias e tempo das provas

 

Professores ouvidos pelo Guia do Estudante avaliaram que a separação da prova do Enem em dois fins de semana foi uma boa mudança, mas alguns criticam a troca das grandes áreas, que teria tornado a prova do segundo dia muito densa e difícil de encarar no tempo definido.

A prova do segundo dia uniu Matemática com Ciências da Natureza (Química, Física e Biologia). Até a prova de 2016, Matemática ficava na segunda prova, porém junto com Linguagens e Códigos e Redação. Para o professor de Matemática Márcio Miranda de Carvalho, do Instituto Federal do Piauí, o tempo da prova do Enem, de 270 minutos, é insuficiente para resolver tantos cálculos.

Entre as três principais universidades estaduais paulistas, apenas a prova da Unesp mantém os 270 minutos para 90 questões. Márcio destaca que as provas da Fuvest-USP e da Unicamp também trazem 90 questões mas, além de reunir todas as áreas de uma vez, com menos questões de exatas, ainda dão meia hora a mais. A diferença de 30 minutos gera um tempo médio para responder cada questão de 3,33 minutos, contra 3 minutos no Enem.

E há ainda provas um pouco mais generosas. No vestibular da Universidade Estadual do Ceará, o tempo médio é de 3,43 minutos por questão. A prova da primeira fase da Uerj traz 60 questões para resolver em 4 horas, 4 minutos por questão, e na Estadual do Maranhão, sobe para 5 minutos, destaca Carvalho.

Enem no Colégio Jardim Anália Franco

Para o professor de Matemática Alexandre Miranda Ferreira, do Colégio Jardim Anália Franco, em São Paulo, seria mesmo importante um equilíbrio maior entre a quantidade de questões e o tempo da prova. “Eles não podem nivelar a prova por baixo. Manter um nível elevado é necessário até para trazer uma classificação sensata e justa. Mas em função da complexidade que foi colocada na prova eu diria que algo poderia mudar. Eu não aumentaria o tempo da prova, mas diminuiria a complexidade dos exercícios para permitir que o candidato se desenvolva mais em cada um”.

O estudante Vinícius Marchiorato Pacífico, de 19 anos, aluno do curso Poliedro, achou tanto a prova do Enem quanto a da Fuvest mais difíceis em exatas. “Achei a prova de exatas do Enem mais difícil do que esperava e isso fez cair minha expectativa do desempenho que tive. É muita coisa em pouco tempo e você acaba tendo de chutar”, lamenta. “Prefiro a prova da Fuvest, que para mim avalia melhor o candidato, mas ela também estava um pouco mais difícil este ano”, diz Vinícius, que quer cursar Relações Internacionais.

“Para estipularmos o tempo máximo das provas objetivas no curso Anglo-Leonardo da Vinci [em São Paulo] utilizamos a seguinte regra: 3 minutos para realizar cada questão e adicionamos 30 minutos no tempo total para ser usado em ler as instruções, transcrever para o quadro de respostas, pausas para descanso e para ir ao banheiro. É o mesmo critério usado pela Fuvest e Unicamp”, diz o professor Fefoso (Fernando Nascimbeni), coordenador de 5 unidades do Curso Anglo em São Paulo e região (SP).

“Realizamos uma pesquisa com os alunos da turma da manhã do cursinho Anglo-Leonardo da Vinci, que participaram do Enem deste ano, e vimos que no primeiro domingo de prova apenas 5% dos alunos relataram problema com a falta de tempo. Já no segundo domingo, aproximadamente 75% dos alunos não conseguiram realizar todas as questões da prova em virtude do tempo escasso”.

“Pelo retorno que recebemos dos alunos, acredito que a grande dificuldade dos alunos com relação ao tempo para fazer a prova 2 no Enem 2017 esteve na nova distribuição das grandes áreas do conhecimento. Eu sugiro que a distribuição seja, no primeiro dia, Linguagens, Ciências da Natureza e Redação, e no segundo dia, Ciências Humanas e Matemática.”

Segundo Fefoso, os professores de Matemática do Anglo avaliaram que a prova deste ano exigia mais tempo de resolução que nos anos anteriores. “Se o Inep pretende elevar o nível de complexidade das provas do Enem precisará repensar também o número de questões das provas no tempo total”. O coordenador avalia como inviável aumentar o tempo das provas, em razão da grande quantidade de alunos que prestam as provas fora de sua cidade. “O candidato que tem de sair de casa duas horas antes ficaria nove horas sem uma refeição adequada”, ressalva.

O professor Márcio Miranda de Carvalho acrescenta uma crítica. “A mudança realizada resultou em muitos textos para serem lidos na primeira prova, e muitos cálculos para fazer na segunda, quando o esperado é que haja um equilíbrio dos dois em cada prova”, afirma.

Há quem discorde. Célio Tasinafo, coordenador pedagógico do Cursinho Oficina do Estudante (Campinas, SP), avalia que o enfoque seja outro. “Considero muito positivas a mudança na ordem das provas e a realização do exame em dois domingos (ao invés de sábado e domingo). O aluno não chega mais ao segundo dia cansado física e mentalmente e trabalha áreas do conhecimento afins em cada dia de prova. O modelo antigo, com Linguagens, Redação e Matemática, era muito mais cansativo – ainda mais porque aquela prova era realizada no domingo, após a avaliação de Ciências humanas e Ciências da natureza realizada no sábado. A reclamação do tempo para a realização das provas do Enem é histórica. Se observarmos os anos anteriores, muitos estudantes também reclamavam, por exemplo, das 45 questões de Linguagens (sempre com textos bem longos) junto com as 45 questões de Matemática e ainda a Redação.”

Em minha opinião, pela característica da prova (contextualização das questões, grande número de gráficos, tabelas etc), não é o ordenamento das questões que causa dificuldade aos estudantes, mas a falta de experiência dos mesmos com provas longas e exigentes. Para superar essa dificuldade, os estudantes que farão o Enem nos próximos anos devem focar na resolução das provas anteriores considerando o tempo médio que terão no dia do exame para responder à cada questão (3 min)”, resume Tasinafo.

 

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