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Ensino em outro idioma na infância estimula o cérebro

Ensino – Benefícios para crianças vão além de conseguir se comunicar com mais gente. Há vantagens neurológicas e cognitivas; e o aluno aprende a ler na primeira língua e aplica o conhecimento para dominar a segunda

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

A administradora Cristina Gazel ficou surpresa quando ouviu o filho de apenas 1 ano se despedir do porteiro da escola dizendo “bye bye”. Vitor ainda falava poucas palavras em português, mas, no segundo dia de aula na Builders, na zona oeste de São Paulo, já ouvia quase tudo em inglês no colégio.

Nos últimos 20 anos, o número de escolas bilíngues no Estado de São Paulo passou de 20 para 100, sendo a maior concentração de matrículas na educação infantil (até 4 anos). Para especialistas e coordenadores desses colégios, o aumento na procura se deve ao avanço de pesquisas que mostram os benefícios neurológicos e cognitivos do ensino bilíngue na primeira infância.

Estudos recentes em vários países mostraram que o benefício do bilinguismo vai além da comunicação e que esse estímulo tem efeito no cérebro, melhorando habilidades não relacionadas à linguagem. Essas descobertas têm feito com que governos estimulem a expansão de turmas bilíngues em escolas públicas por entender que podem melhorar o desempenho escolar. É o caso dos Estados americanos de Oregon, Carolina do Norte, Delaware, Utah e Washington.

No Brasil ainda não há uma legislação que defina a carga horária para a escola ser considerada bilíngue. Essas unidades seguem as diretrizes curriculares do Ministério da Educação (MEC), diferentemente das escolas internacionais, e ao mesmo tempo oferecem uma carga horária alta de aulas em outro idioma, seja inglês (a maioria) ou outra língua. Para a Organização das Escolas Bilíngues (Oebi), a carga horária mínima deve ser de 75% na educação infantil, 35% no fundamental e 25% no médio.

 As pesquisas trazem uma nova visão, já que há algumas décadas acreditava-se que ensinar uma segunda língua para crianças pequenas seria uma interferência que atrapalharia o desenvolvimento acadêmico e intelectual. Os estudos mostram que o ensino bilíngue causa mesmo uma interferência no cérebro, mas benéfica. Uma pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, verificou que as crianças bilíngues tinham maior controle inibitório, habilidade usada para focar quando há estímulos conflitantes.

Já um levantamento da George Mason University, na Virgínia, Estados Unidos, verificou melhor desempenho dos bilíngues em outras disciplinas, além do inglês, o que pode estar atrelado à melhor capacidade de concentração.

Cristina diz que matriculou o filho Vitor, agora com 12 anos, na Builders sem saber desses benefícios. “Não escolhi a escola por ser bilíngue, mas porque tinha gostado do ambiente e do projeto pedagógico. O bilinguismo acabou sendo bônus.” Os filhos menores, Gustavo e Olivia, de 10 e 8 anos, também estudam lá.

Os três entraram na escola com 1 ano de idade. Cristina conta que aos 5 anos já estavam alfabetizados em português e curiosos para ler em inglês. “Amigos me perguntavam se meus filhos não confundiam as línguas. Não aconteceu, foi um processo natural.”

Instituto Singularidades

Antonieta Megale, coordenadora da pós-graduação em Educação Bilíngue do Instituto Singularidades, diz que a alfabetização em duas línguas não confunde porque é um processo único. De acordo com ela, o aluno aprende a ler no primeiro idioma e aplica o conhecimento para ler no segundo. “Entre o inglês e o português, muito aprendizado é transferível. Por exemplo, a psicomotricidade, a junção entre letras e sílabas.” Segundo Antonieta, ao aprender as duas línguas ao mesmo tempo a criança faz involuntariamente comparações entre elas, o que a leva a compreender melhor a estrutura dos idiomas.

Ana Célia Campos, diretora da Builders e presidente da Oebi, diz que as pesquisas ajudaram a comprovar o que os colégios observavam na prática. Na Builders, quando a criança entra com 1 ano de idade, 80% a 90% do tempo a língua falada é em inglês para que se habitue e adquira vocabulário. “O português está garantido em casa. Fazemos essa imersão para que aprenda as duas línguas simultaneamente”, explica.

O processo de alfabetização é realizado em português, mas, segundo Ana Célia, as crianças acabam transferindo o conhecimento para o inglês e já começam a tentar a ler em outra língua.

Stance Dual

Uma das escolas bilíngues mais antigas de São Paulo, a Stance Dual, na região central da capital, foi fundada há 26 anos, quando, segundo a diretora Eliana Rahmilevitz, ainda havia desinformação sobre a proposta. “Algumas pessoas diziam que a criança escolarizada em duas línguas teria o aprendizado do idioma materno prejudicado ou desenvolvimento neurológico pior.”

Eliana explica que o colégio prepara as crianças para ler e entender o mundo e não só na escola. “Por isso, alfabetizamos em português. Assim os alunos relacionam o aprendizado com seu contexto. Depois, transferem o conhecimento para conseguir ler em inglês ou em outra língua.”

Amélia Falazar, diretora do Colégio Miguel de Cervantes, na zona sul de São Paulo, explica que as crianças desde os 4 anos têm contato com a língua espanhola já que em todas as aulas ficam duas professoras, cada uma falando em um idioma. A alfabetização é feita em português, mas aos 7 anos os alunos começam a ler e escrever em espanhol.

“São línguas similares e, para evitar uma confusão na ortografia e semântica, optamos pela alfabetização no português. Tivemos um grupo experimental com a alfabetização no espanhol, mas percebemos que dificultava o processo.”

Já no Colégio Humboldt, também na zona sul da capital, com ensino bilíngue em alemão, a alfabetização é simultânea nos dois idiomas, segundo a coordenadora Rebeca Boldrin. Na sala de aula, o alfabeto é representado de um lado com o som das letras em português e no outro em alemão.

“Nosso modelo propõe dar o mesmo valor às duas línguas. Não tem um jeito certo ou errado de se comunicar, não chamamos a atenção quando as crianças falam em português e isso faz com que o processo seja mais prazeroso para elas.”

Para Norma Sandra Ferreira, coordenadora associada do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é preciso cuidado com a abordagem e o estímulo usados pelos colégios. “Muitos pais põem o filho em escolas bilíngues por entender que vai ter um inglês melhor na vida adulta e que isso vai destacá-lo no mercado de trabalho. Esse aprendizado não pode tirar o espaço de brincadeira e aprender livre das crianças.”

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