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Escolas técnicas devem definir enfoque em profissões de hoje ou do futuro

Seis em cada dez jovens que entrarão no ensino médio a partir de 2018 vão ocupar, na próxima década, uma profissão ainda inexistente.

O dado é citado por Eduardo Deschamps, que é presidente do CNE (Conselho Nacional de Educação), órgão ligado ao MEC (Ministério da Educação). Essa previsão atinge em cheio os cursos técnicos, que correm para dar conta das demandas atuais do mercado, mas precisam com urgência gerar novas tecnologias para o futuro.

Atualmente, a educação profissional aguarda a finalização da formulação da Base Nacional Comum Curricular e as diretrizes do CNE para dar início às mudanças.

Primo da formação regular, o ensino técnico ensaia novos formatos. Como se sabe, o novo currículo do ensino médio dará ao jovem a decisão de escolher entre cinco modalidades de formação (ou “percursos”), entre elas a modalidade técnica.

“Este será um grande dilema que teremos de enfrentar”, diz Deschamps, sobre a decisão da linha que o ensino profissional deve seguir. Ele explica que, de certa maneira, o mercado dita a oferta de cursos técnicos. Mas considerar só as demandas da indústria e dos serviços fará com que a educação fique estagnada no presente.

Deschamps enxerga dois caminhos possíveis. Os cursos podem ser específicos para determinados setores, com aulas voltadas aos ofícios atuais, ou podem seguir uma linha mais abrangente. Neste caso, alunos seriam capacitados para lidar com os desafios do mercado de trabalho de maneira mais ampla.

Para a presidente do movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz, esta será uma barreira na adaptação dos cursos técnicos, que têm uma oferta ligada à realidade profissional do século 20.

“Vivemos uma reformulação do mercado de trabalho, com profissões novas surgindo o tempo todo”, diz. “O pessoal da educação não é capaz de pensar sobre isso sozinho, vai ter de haver articulação com outras áreas.”

Apesar de o tema estar em debate na esfera federal, a implementação da reforma do ensino médio fica, majoritariamente, a cargo das redes estaduais. São elas que abrigam a maior parcela dos alunos de ensino médio.

Para os Estados, no entanto, essa discussão parece distante. “O presente já nos desafia: há profissões em que temos dificuldades de formação no Brasil todo, principalmente na área de tecnologia da informação”, diz Idilvan Alencar, presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação).

Alencar tem mais dúvidas do que certezas sobre a reforma. “Há questões mais básicas que devem ser respondidas em conjunto ao MEC: a maioria dos Estados não tem professores da área técnica, vai ser possível contratar?”, questiona ele.

Se a rede pública parece perdida, a rede privada já desenha algumas soluções.

Segundo Rafael Lucchesi, diretor-geral do Senai e diretor-superintendente do Sesi, ambas as instituições montaram grupos de trabalho que funcionam em alguns Estados, ainda como projetos piloto. Neste primeiro momento, o que se discute é a possibilidade de uma reorganização gradual da carga horária dentro dos cursos já existentes.

No primeiro ano do ensino médio, por exemplo, o aluno teria 90% da carga horária destinada a conteúdos da base curricular comum, com os outros 10% voltados a aspectos gerais do curso técnico.

No ano seguinte, a educação profissional ganharia 40% do tempo do aluno e, no último ano, o ensino técnico seria focado em um assunto específico (os que escolheram o curso de tecnologia da informação, por exemplo, poderiam ter aulas de programação de jogos digitais).

Algumas escolas da rede pública estadual também discutem, com Sesi e Senai, formas de estabelecer parcerias, assim como ocorreu na implantação de programas como o Pronatec.

Liceu de Artes e Ofícios

A cooperação aparece nos planos do Liceu de Artes e Ofícios –escola paulistana que tem tradição no ensino técnico. “Estamos iniciando conversas com escolas de ensino médio que ainda não oferecem a educação profissional, mas que podem se beneficiar do nosso know how”, diz o coordenador pedagógico do colégio, Emerson Barreto. A instituição planeja ainda ampliar seu leque de oferta de cursos.

Apenas cerca de 8% dos alunos do ensino médio no Brasil pertencem ao nível técnico, segundo tabulação de dados do Censo da Educação Básica feita pelo Movimento Todos Pela Educação. É um número muito baixo quando comparado à situação de países europeus, por exemplo.

Escolas

A participação dessa modalidade é bem maior em outros países, de acordo com o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Profissional: na Finlândia, na Áustria e na Alemanha, alunos do ensino técnico representam, respectivamente, 70,4%, 69,8% e 47,8% dessa etapa da educação.

Uma das razões que explicam o baixo interesse dos estudantes brasileiros por esse tipo de ensino é o estigma que ainda o envolve.

Instituída em 1909 no Brasil, a educação profissional nasceu com um caráter assistencialista, voltada para os filhos das classes sociais menos abastadas.

“O preconceito vem de uma sociedade calcada na ideia de que as profissões mais prestigiadas decorrem do mundo acadêmico”, analisa Arthur Fonseca Filho, que é diretor da Associação Brasileira de Escolas Particulares. “Isso faz parte do contexto social do país como um todo, não é do contexto específico da escola.”

Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, acredita que a visão sobre o ensino profissionalizante dependerá da forma como for implementado.

“A lei abriu uma possibilidade de ressignificar o ensino técnico no país: se um Estado articula a formação às áreas estratégicas para o desenvolvimento socioeconômico, isso pode ser maravilhoso, mas se a oferta for defasada, podemos ir para outro extremo.”

O desejável é que as escolas técnicas estejam muito mais próximas do mundo do trabalho real.

Outro pensamento do senso comum que, atualmente, já está sendo posto em xeque é a ideia de que os alunos desses cursos tendem a ir para o mercado de trabalho sem ao menos refletir sobre as possibilidades da vida acadêmica.

Liceu de Artes e Ofícios

A estudante Danielly Costa, 17, é um exemplo que desmente isso. A garota faz o curso de técnico em edificações do Liceu de Artes e Ofícios, e deve concluir sua formação no fim deste ano.

“No ano que vem, quero continuar na área da construção civil, que é o que eu realmente gosto de fazer”, diz a jovem. “Após conseguir um trabalho, vou me preparar para o vestibular.”

A formação técnica, neste caso, poderá ser complementada com cursos superiores de arquitetura e urbanismo ou engenharias.

Por Lobo Braga, colaboração para a Folha de S. Paulo

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