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Escolas testam modelos que deixam para trás a velha ideia do professor que só despeja conteúdo

Pergunte a uma escola qual é a sua linha pedagógica e receba como resposta pelo menos um parágrafo. Foi-se o tempo em que uma palavra resolvia essa questão, como tradicional, construtivista, humanista ou democrática.

A busca por modelos capazes de dar conta de crianças e jovens absorvidos pela revolução tecnológica chegou até aos mais conservadores dos colégios, finalmente convencidos de que não há mais como manter o velho sistema do professor despejando conteúdo na lousa para alunos que absorvem tudo passivamente.

Dentre as escolas particulares, a disputa para conquistar a confiança das famílias torna os anúncios publicitários uma verdadeira sopa de conceitos. Cidadania, ética, empreendedorismo, sustentabilidade, fluência digital, liderança, consciência global…

“Existe uma clara mudança de discurso. Antes falava-se em uma formação com mais técnica e mais conteúdo, hoje fala-se em formar o ser humano, o cidadão do mundo. Ficou para trás aquela ideia da escola forte, centrada só no conteúdo”, observa a socióloga Helena Singer, que tem pós-doutorado em educação e presidiu no Ministério da Educação o mapeamento de escolas inovadoras e criativas.

O ensino por projetos e a ideia do aluno protagonista estão na moda, além da tecnologia, do bilinguismo, dos currículos internacionais e outros. Professora da Faculdade de Educação da USP, Silvia Colello alerta que é preciso verificar se as escolas usam as novidades de forma adequada e se não as vendem só no marketing. “E nem toda modernização é boa.”
A revista sãopaulo lista tendências da educação praticadas por dez colégios da capital, de públicos até os que têm mensalidades acima de R$ 5.000.

Trocas sociais na Lourenço Castanho

Em projetos sociais de escolas particulares, os alunos ricos aprendem a ajudar os pobres, certo? Errado. Estudante da Lourenço Castanho, com unidades em bairros da elite econômica como Moema e Vila Nova Conceição, na zona sul, Vinícius Vitorino, 17, explica: “Não há mais esse caráter assistencialista. É bom quando tem cara de troca. A gente ensina e aprende ao mesmo tempo”.

Como exemplo, ele cita a visita que fez com o colégio a Heliópolis, já considerada a maior favela da América Latina, com 100 mil habitantes. Lá, ele e os colegas conheceram projetos de educação, de cultura e a rádio comunitária. Depois, foi a vez de os alunos da comunidade irem à Lourenço participar de saraus e de oficinas, ministradas tanto pelos estudantes da escola particular quanto por jovens de Heliópolis. “Eu ajudei nas aulas de dança árabe”, conta

Eles já tiveram curso de hip hop com jovens do Jardim Ângela, bairro de periferia da zona sul, aulas experimentais de judô com portadores de síndrome de Down, entre uma série de outras atividades. Há duas semanas, estiveram no bairro do Grajaú, onde fizeram grafite com movimentos locais.

Para coordenar o núcleo de projetos com essa nova visão, a Lourenço contratou um ativista social, Sylvio Ayala. “Temos que furar a bolha, extrapolar as paredes da escola e ir além do assistencialismo. Todos os espaços da cidade são propícios para encontrar a educação, estabelecer intercâmbios e vínculos. Isso é tão importante quanto aprender matemática e química. Não é formação complementar, é principal.”

Vinícius vivencia as trocas no cotidiano. Ele sempre havia estudado em escolas municipais, até conseguir uma bolsa no ensino médio da Lourenço. “A gente conversa muito nas aulas sobre as diferenças entre o ensino público e o privado. Os professores falam, por exemplo, do fato de os alunos estarem acostumados a ter ar-condicionado na sala, que nem sempre é assim, e posso ajudar com a minha experiência”, diz ele, que se tornou o fotógrafo oficial das saídas culturais.
No início, Vinícius teve de se esforçar até chegar ao nível de conteúdo da turma da Lourenço, mas agora já está tranquilo e pensa na faculdade: “Estou indeciso entre direito e letras”.

Confessa uma queda pela segunda opção. “Desde que tinha uns seis anos, quero ser professor de literatura.” Um mestre que gosta de ensinar e aprender ao mesmo tempo. Belo futuro para a educação.

LOURENÇO CASTANHO
Infantil: r. Diogo Jácome, 224, Moema, tel. 3049-5330
Fundamental 1: r. Lourenço Castanho, 273, Vila Nova Conceição, tel. 3059-5781
Fundamental 2: r. Bueno Brandão, 283, Moema, tel. 3049-5374
Médio: r. Fiandeiras, 77, Vila Olímpia, tel. 3047-0099
Mensalidade: de R$ 3.298 a R$ 4.186

Equipe tem a prática de dar voz aos estudantes em seu DNA

Culinária vegana, improvisação teatral, música, beisebol, análise do panorama socioeconômico brasileiro e apresentação sobre os candidatos à presidência da República. Os temas foram os mais variados em um evento organizado pelos alunos do Equipe.

Para ministrar as oficinas, os escalados foram os próprios alunos. Atividades assim fazem parte da rotina do colégio de Higienópolis, fundado há 50 anos, que tem no DNA algo que virou a última moda da educação: o protagonismo dos estudantes.

Na tentativa de deixar para trás o velho modelo do professor despejando conteúdo na lousa para uma turma que copia passivamente, as escolas investem em ações que coloquem as crianças e os jovens em evidência. “A corrida para tornar os alunos protagonistas acelerou. As redes sociais ajudaram a criar essa consciência”, diz Helena Singer, socióloga com pós-doutorado em educação.

No Equipe, faz parte da grade curricular uma aula semanal de orientação educacional, que funciona como assembleia. A diretora, Luciana Fevorini, conta que, além de tratar de questões do funcionamento da scola, os alunos trazem temas atuais. “Uma vez reclamaram que os professores usavam muito power point, deixando menos espaço ara a interferência da turma. Também pediram aula de feminismo quando teve manifestação de mulheres na Paulista.”

Ela acredita que tenha se tornado difícil, mesmo para os colégios mais tradicionais, ignorar os assuntos do dia a dia dos estudantes. Pedro Penellas Pereira, 17, do 3º ano, faz parte do grêmio do Equipe e do grupo Inflama, que reúne alunos de escolas particulares para discutir questões políticas da educação, como a reforma do ensino médio. Frequenta também reuniões extracurriculares com o professor de filosofia, nas quais os alunos decidem o que ler.

Um dos autores escolhidos foi Nietzsche, que entre tantas frases famosas tem uma boa para encerrar este texto sobre o protagonismo dos alunos: “Jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes quisesse”.

EQUIPE
Infantil, fundamental e médio
R. São Vicente de Paulo, 374, Higienópolis, tel. 3579-9150
Mensalidade: de R$ 2.300 a R$ 2.700