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Estudo prova o impacto da violência na educação e sugere soluções

O eixo básico de qualquer política preventiva e efetiva de segurança pública é a educação de qualidade, demonstra o estudo Trajetórias Individuais, Criminalidade e o Papel da Educação, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na quinta-feira, dia 8.

“Não se pode pensar em resolver o problema do crime prendendo e botando mais armas na rua quando, na verdade, é preciso investir na criança para que ela não seja o bandido de amanhã”, disse o autor do estudo, Daniel Cerqueira, técnico de Planejamento e Pesquisa do Ipea.

O estudo, divulgado pela Agência Brasil, fez um cruzamento de dados entre o Mapa da Letalidade Violenta e algumas escolas no Rio de Janeiro. Segundo Ipea, a taxa de reprovação é 9,5 vezes maior nos 30 bairros mais violentos em comparação aos 30 menos violentos. Já a taxa de abandono é em torno de quatro a cinco vezes maior.

O Mapa da Letalidade Violenta no Brasil identifica 60 mil assassinatos por ano, que respondem por cerca de 10% dos assassinatos no mundo. Com base nesses dados, Cerqueira destaca que 50% dos homicídios estão concentrados em 81 municípios e que, nestes, a violência se concentra em alguns bairros. “A gente percebeu que nestes municípios, enquanto 50% dos bairros praticamente não tinham homicídios, 10% dos bairros concentravam 50% dos homicídios”, disse à repórter Alana Gandra.

Para o técnico do Ipea, em vez de pensar o Brasil em dimensões continentais, os governos devem construir políticas para as crianças e jovens que residem exatamente nos bairros mais violentos do Brasil.

Estudo e pobreza

Cerqueira constata que os lugares violentos também são os mais pobres. “Como os alunos já vêm de uma desvantagem cultural e educacional desde a infância, dada à sua situação de pobreza e vulnerabilidade, você imaginaria que eles vão ter pior desempenho. Mas olhando outros indicadores da qualidade das escolas, como a provisão de recursos, a gente vê que nos bairros mais pobres se concentram as piores escolas do ponto de vista da oferta de recursos para o setor educacional”, disse.

Daniel Cerqueira disse que as boas práticas nacionais e internacionais que conseguiram reduzir o crime de forma relativamente rápida sempre funcionam em dois pilares: ter um sistema de repressão qualificado e inteligente, em que a polícia funcione como primeiro defensor dos direitos da cidadania e não agindo com truculência; e, em paralelo, ter políticas integradas de prevenção, com ênfase na educação infantil e para os jovens.

Na opinião de Cerqueira, não adianta simplesmente encarcerar, endurecer as penas ou diminuir a maioridade penal. “A gente tem que investir na criança e no jovem de hoje, para que eles não sejam os bandidos de amanhã”, disse. “Nesse quadro, é importantes a educação infantil, que abrange a faixa etária de até 6 anos, quando a criança desenvolve habilidades cognitivas e socioemocionais. Quando essas habilidades não são desenvolvidas na fase da primeira infância e, muitas vezes, a criança é criada em um ambiente hostil, ela tem mais chances de desenvolver problemas comportamentais que, mais à frente, levam na direção do crime organizado e desorganizado”.

Seis soluções

 O estudo aponta seis atitudes para afastar os jovens do crime, partindo da premissa do que as escolas poderiam oferecer para se transformarem em um instrumento mais potente que evite que as crianças enveredem na trajetória do crime.

Ele propõe que as escolas reconheçam as diferenças individuais e sociais dos alunos e apliquem programas psicoterapêuticos e de diálogos, a partir de princípios de justiça restaurativa. “Nessas escolas, a criança não vai apenas para aprender, mas tem o reconhecimento dos problemas por que está passando e tem um facilitador para mitigar esses problemas socioemocionais”.

O segundo ponto destaca a escola como espaço primordial para colocar na mente dessas crianças a ideia de cidadania, de que na sociedade ela tem obrigações e direitos. A terceira atitude é que a escola poderia ter mecanismos para trabalhar melhor o elo com a família, com o objetivo de resolver problemas educacionais da criança.

O programa Coordenadores de Pais, implantado em algumas escolas do Espírito Santo, é um bom exemplo disso, segundo Cerqueira. Ali, uma pessoa contratada na comunidade fica responsável por supervisionar a vida acadêmica dessas crianças e o envolvimento da família.

A quarta sugestão visa a reconhecer que o adolescente está em profundas transformações não só biológicas e busca sua identidade. É um período de experimentação. A proposta é que a escola explore os talentos e as escolhas dos jovens, facilitando que ele seja protagonista de sua trajetória escolar, por meio da motivação e do aspecto lúdico.

A interação social constitui a quinta alternativa. “O jovem pode estar na escola ou pode, simplesmente, estar nas ruas, à mercê do crime desorganizado e organizado”. Cerqueira indica a necessidade de atrair esse jovem para a escola, tornando esse espaço um local agradável, que faça com que ele prefira estar ali, interagindo com outros grupos de jovens nas artes ou no esporte, dando uma chance menor de ele se interessar por uma trajetória de crime.

A sexta proposta objetiva preparar os jovens para ingressar no mercado de trabalho e ter mais condições de ganhar um salário melhor. Cerqueira sugere que a adoção de programas do Ministério do Trabalho pode ser feita por estados e municípios para reforçar a ligação entre escola e mercado de trabalho, além de financiarem parte de cursos profissionalizantes que facilitem o emprego dos jovens.

O estudo divulgado pelo Ipea detalhou a situação educacional no Rio de Janeiro, mas deverá ser expandido para os 81 municípios que serviram de base para o trabalho.

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