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As famílias não educam mais seus filhos?

Por Luciana B. Fevorini

É comum ouvir de educadores que a família delega para a escola a tarefa integral de educar crianças e jovens. Falando de um modo simples, alguns educadores acham (reforçados por alguns teóricos da educação e da sociologia) que a família parece não ser mais capaz de cumprir algumas das funções educacionais que são a base para a educação escolar, como, por exemplo, colocar limites e transmitir valores morais como respeito e confiança mútua.

A sensação é de que a escola tem que dar conta de tudo: de todos os conteúdos escolares que futuramente serão cobrados em exames nacionais e vestibulares, dos conteúdos que não serão cobrados (natação, balé, judô, informática), de valores éticos, da boa convivência social, da consciência política… Porque pais e mães estão extremamente ocupados em sustentar financeiramente a família e prover materialmente seus filhos.

Mas será mesmo assim? Na minha pesquisa de doutorado (realizada com pais e mães de algumas escolas particulares de São Paulo) encontrei famílias bastante envolvidas com a educação escolar dos filhos (também as encontro no meu trabalho de diretora). Não esperam que a escola sozinha transmita valores fundamentais de sociabilidade, mas, pelo contrário, escolheram escolas cujos valores são coincidentes com os seus, justamente para compartilhar com elas esta formação.

Generalização indevida

Famílias desinteressadas e ausentes, então, não existem? Claro que existem! Mas afirmar que a família vive uma crise de autoridade e que delega toda a tarefa educacional para a escola é uma generalização indevida. Se a escola quer estabelecer parcerias produtivas com as famílias de seus alunos para de fato partilhar com elas a responsabilidade de educar crianças e jovens, deve começar por se desfazer deste preconceito. Afinal, não há um modelo ideal de família; as famílias reais são configuradas de inúmeras formas. Não são as configurações em si que determinam dinâmicas favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento dos filhos, mas inúmeros fatores psicossociais.

Qual o princípio para uma boa parceria entre escola e família? A reciprocidade. A escola como instituição “especializada” em educação não deve estabelecer uma relação estritamente técnica com os pais de seus alunos, impondo seu conhecimento e seus valores a eles. Se assim o fizer, apenas vai reforçar as eventuais fragilidades das famílias. Deve, pelo contrário, estabelecer relações de simetria, corresponsabilidade e de respeito mútuo, considerando que o aprendizado de como ser pai ou mãe não acontece naturalmente.

Então a escola deve ceder às exigências dos pais? Também não! Afinal, ela tem uma função educativa específica e diferente da familiar, que é a de transmitir o saber sistematizado para as novas gerações, ou seja, a escola deve ter uma proposta pedagógica para que esta função seja realizada. Esclarecer as famílias sobre como esse processo se dá na prática e em cada momento da escolaridade é responsabilidade da escola e deve acontecer em encontros periódicos com as famílias.

Mas a escola também tem outra função educativa específica, diferente da familiar e absolutamente intrincada com a socialização do saber: a de formar para a cidadania, ou seja, para a vida social. Nesse sentido, sua organização e regras devem sempre se pautar pelos princípios da coletividade, ou seja, o direito que todos têm de conviver e de aprender. Criar condições para que crianças e jovens tenham uma boa relação com a cultura, desenvolvam consciência política e ajam com valores pautados no respeito e na solidariedade são, portanto, tarefas da escola.

Diretora Escolar do Colégio Equipe, doutora em Psicologia Escolar pelo IPUSP.

Este artigo foi publicado originalmente no blog dos Colégios, no portal do jornal O Estado de S. Paulo

 

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