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Liceu de Artes e Ofícios restaura obras atingidas por incêndio em SP

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Com o dólar e o euro custando os olhos e a cara, talvez não dê para viajar para a Europa tão cedo. Se servir de consolo, saiba que não é preciso ir a Florença, na Itália, para ver o bíblico “Davi”, esculpido por Michelangelo (1475-1564), nem ir ao Louvre, em Paris, para tirar fotos de “Diana, a Caçadora”, do artista francês Jean-Antoine Houdon (1741-1828). Vá ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo

O inimigo de Golias pode ser contemplado no Tatuapé, zona leste. A figura da deusa romana, por sua vez, encontra-se na praça Pedro Lessa, próxima ao Centro Cultural Correios, no Anhangabaú, região central. E há outras.

Da Aclimação à Lapa, réplicas de estátuas icônicas de diferentes períodos da história da arte, cujas versões originais se encontram em museus europeus, estão expostas em São Paulo ao alcance de uma baldeação.

Segundo inventário da prefeitura, há 12 obras em logradouros públicos classificadas como cópias. Algumas, como a reprodução de “Amalteia e a Cabra de Júpiter”, no parque da Luz, foram importadas.

Liceu das Artes e Ofícios de São Paulo

A maior parte, porém, foi produzida em oficinas do Liceu das Artes e Ofícios de São Paulo na primeira metade do século 20. Para tal, foram utilizadas técnicas de fundição de bronze e modelos de gesso, trazidos da Europa e tirados diretamente das obras que representam.

“Os exemplos serviam não apenas para enfeitar praças, mas para o aprendizado”, afirma Percival Tirapeli, 63, professor da Unesp.

“Aliava-se, assim, a busca por uma arte monumental, considerada necessária aos projetos de uma cidade em expansão”, diz Maria Hirszman, 49, crítica de arte e consultora da Enciclopédia Itaú Cultural.

Fundado em 1873, o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo – que já ocupou o atual prédio da Pinacoteca do Estado e foi dirigido pelo arquiteto Ramos de Azevedo (1851-1928)– tinha como intuito formar mão de obra para o desenvolvimento econômico e cultural de uma São Paulo inspirada em ideais urbanos europeus e financiada pela pujança cafeeira.

Hoje considerados relíquias, os modelos de gesso eram armazenados no galpão do centro cultural do Liceu, que pegou fogo em fevereiro de 2014 em razão de um curto circuito.

À época, o prédio estava com auto de vistoria do Corpo de Bombeiros vencido, e o fogo causou danos a algumas das figuras -são 35 no total, segundo levantamento recente.

O trabalho de recuperação dessas peças teve início em agosto de 2015. A primeira a ser concluída foi a versão em gesso da “Pietá”, de Michelangelo (exposta verdadeiramente em mármore na Basílica de São Pedro, no Vaticano), a um custo de R$ 20 mil.

“Fizemos essa primeira em caráter experimental para depois desenvolver métodos e conferir se a projeção foi correta ou não”, avalia o restaurador Júlio Moraes. As obras do novo centro cultural também foram iniciadas.

O Louvre não é aqui

É claro que, por intempéries, abandono ou vandalismo, algumas dessas réplicas paulistanas estão bastante deterioradas. E não só elas.

Segundo Mariana Falqueiro, 35, chefe da seção técnica de monumentos e obras artísticas do Departamento do Patrimônio Histórico, ligado à Secretaria Municipal de Cultura, das 436 obras de arte catalogadas em inventário público, 10% estão danificadas ou são consideradas desaparecidas.

“Essas obras acabam refletindo uma situação urbana e sofrendo com uma ação social”, avalia Falqueiro. “Acredito que essa cultura de preservação também exija um processo educacional. O trabalho de reparo é caro, e a população deve cobrar mais. Mas a conservação dessas obras de arte também depende muito da apropriação social, de a população saber o que significam. De que elas não sejam entendidas como elementos estranhos na paisagem.”

“A cidade possui grande acervo de obras de arte em parques e praças, mas não tem uma gestão de conservação. A atual política cultural consegue tombar um patrimônio no papel, mas ainda não sabe como zelar ou salvaguarda-lo”, afirma Walter Ramos, 55, coordenador do Instituto Pró-Monumentos, que, desde 2006, desenvolve diversos projetos voltados à preservação e catalogação do acervo em lugares públicos.

Por Bruno B. Soraggi, da Folha de S. Paulo

Leia a integra da reportagem no site da Folha

 

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