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Na sala de aula invertida, alunos antecipam conteúdo em casa

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Um sofá vermelho, de cara, já quebra o protocolo. Mesas de seis lugares estão dispersas no espaço em que um dia foi tomado por carteiras enfileiradas. No teto, um projetor digital. Ainda há um computador e mais uma lousa branca. Essa é a sala do 9ºA (ensino fundamental) do Colégio Elvira Brandão, na zona sul de São Paulo.

É nesse ambiente nada convencional que 22 alunos têm experimentado um jeito de aprender pouco difundido no Brasil. Eles estão numa sala de aula invertida.

O método, criado em 2007 nos Estados Unidos e muito usado na Finlândia, muda a forma tradicional de ensinar.

Por meio de uma plataforma digital, o conteúdo é antecipado aos alunos. Em sala, a turma tira as dúvidas da disciplina e a lição, antes feita em casa, é executada sob a supervisão do professor.

A disposição do mobiliário estimula os alunos a trabalhar em grupo e permite que o docente circule pela sala fazendo um atendimento mais personalizado.

“A gente percebeu que eles tinham dificuldade em resolver os exercícios em casa. Nesse método, a gente inverte o processo e coloca o aluno em uma posição mais ativa”, diz Pedro Robert, professor de matemática do colégio.

Nas aulas de matemática do 9ºA, os alunos assumem o comando e transmitem o conteúdo com o uso de recursos audiovisuais. Cada grupo se autoavalia, recebe notas da sala e do professor.

“Meus colegas explicam na linguagem que a gente entende. Pego mais rápido a matéria”, diz Eduardo Pereira, 14.

Já Mateus Juliotti, 14, afirma que foi submetido a uma autonomia forçada. “Não houve uma transição para a gente se acostumar. É muito desorganizado, nunca sei o que preciso estudar.”

Sala de aula do Elvira

O professor Robert, do Elvira, diz que tem atacado as dificuldades da turma. “Para quebrar a insegurança em relação ao conteúdo, sempre faço um resumo da matéria.”

Marcos Pereira, professor de empreendedorismo da Escola Internacional de Alphaville, em Barueri (Grande SP), trabalha com a metodologia na sua turma de 9º ano. Segundo ele, a maior dificuldade é engajar o aluno. “O recurso tecnológico por si só atrai, mas fazer a sala estudar antes não é nada fácil.”

O professor de história Eric Rodrigues obteve bons resultados com a sala invertida. Entre 2013 e 2015, reduziu em 50% o índice de reprovação em sua disciplina numa turma da Escola Municipal Emílio Carlos, no Rio de Janeiro.

Segundo Bruna Nunes, pesquisadora do CDI (Centro para Democratização da Informática), o método é tendência por aqui. Mas, para deslanchar, os professores terão que se capacitar. “Trabalhar com sala invertida exige domínio de videoaula e de outros meios digitais. Os professores ainda não têm essa formação na licenciatura.”

Para Renato Judice, diretor pedagógico do Elvira, é natural que haja resistências à nova forma de ensinar.

“O ensino híbrido é um caminho sem volta para a escola de hoje. Vamos continuar melhorando nossa estrutura para seguirmos nessa metodologia.”

Por Dhiego Maia, da Folha de S.Paulo