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Dia Mundial da Educação, professores contam como seus mestres lhe inspiraram

Por Ocimara Balmant , Especial para o Estado de S. Paulo

O cenário não é animador no Dia da Educação. Estudos apontam que os professores brasileiros recebem salários menores do que a média vista nos países desenvolvidos, são responsáveis por turmas mais numerosas e têm menos tempo para se preparar para as aulas. É uma equação nada atrativa e com reflexos já mensurados.

Uma pesquisa do Todos pela Educação mostra que 49% dos professores não indicariam a docência a um aluno, e um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mapeou que nos últimos dez anos caiu de 7,5% para 2,4% o porcentual de brasileiros com 15 anos de idade que têm intenção de atuar como professores da educação básica.

Quem são esses 2,4% e quais foram os motivos dessa escolha? Neste 28 de abril, Dia Mundial da Educação, perguntamos a jovens professores o que os levou a eleger a sala de aula como local de trabalho. Foram unânimes: a decisão pela carreira é reflexo da admiração que sentiram pelos mestres que tiveram pelo caminho.

Em algum momento – pode ter sido ainda no início da educação fundamental ou no fim do ensino médio -, cada um teve o privilégio de conviver com alguém que se tornou uma referência não só pelas matérias e pela didática, mas também pelo acolhimento em sala de aula.

Laíza, Arthur e João Gabriel foram inspirados por Fernando, Ricardo e Lisânias, respectivamente, e contam ao longo desta edição como tem sido a experiência de deixar de ser aluno para se tornar colega de trabalho dos seus mestres. Uma chance, dizem, de continuar aprendendo enquanto enfrentam o desafio diário de ensinar e, quiçá, de inspirar as futuras gerações a trilhar o mesmo caminho.

Por que 28 de abril é Dia Mundial da Educação?

A data é celebrada desde o ano 2000, quando líderes de 164 países firmaram publicamente compromisso em um movimento pela educação mundial. Isso ocorreu na cidade de Dacar, no Senegal, durante o Fórum Mundial da Educação. A data, então, serve de incentivo para a construção de valores essenciais para uma sociedade justa e saudável, por meio da educação e da participação familiar, como destacou o governo federal brasileiro em evento no ano passado. Na ocasião, a Biblioteca Nacional brasileira lembrou que, em 28 de abril de 2000, no fórum no Senegal, foi assinado um documento, a Declaração de Dacar. Nela, os países se comprometeram a não poupar esforços para que a educação chegue a todas as pessoas do planeta.

Colégio Santa Maria

Quem assiste a uma aula de Arthur Consiglio Campelo no Colégio Santa Maria não acredita que ele pudesse fazer outra coisa da vida que não ser professor de Educação Física. Mas a decisão não foi simples. “Eu ainda estava no fundamental quando fiz um trabalho voluntário com a população do Vale do Ribeira e percebi que tinha vocação para dar aulas, lidar com pessoas. Mas só no último ano do ensino médio é que tive coragem de assumir essa escolha. Por um bom tempo, eu dizia que faria Administração de Empresas”, lembra.

Ao contar sobre a decisão, muita gente tentou dissuadi-lo, por conta do desprestígio da categoria no País. Mas foi aí que Arthur se valeu do apoio e da orientação de duas pessoas muito importantes em sua formação: os professores José Ricardo Rik do Val e Ricardo Katchborian. O primeiro era seu professor de Educação Física naquele momento, e o segundo era um mestre antigo, que o acompanhava desde os 6 anos de idade.

“Assim que ele me disse do interesse, fiquei muito feliz e o convidei para um estágio nas minhas aulas de judô, certo de que seria apenas uma confirmação. Depois de tanto tempo convivendo com o Arthur, eu já sabia que ele tinha jeito para isso”, conta Ricardo. “Na nossa profissão, ter jeito é muito mais do que dominar o conteúdo. O segredo é se interessar de verdade pela história de cada aluno e demonstrar respeito.”

Ricardo exemplifica com uma situação bem prosaica. Desde que começou a dar aulas de Educação Física, há 37 anos, ele se nega a uma prática bastante comum de elogiar o aluno mais habilidoso em determinado esporte. “Isso não é efetivo no processo de aprendizagem. Quando a gente dá aulas, o desafio é tratar todos igualmente, fazer com que todos se sintam acolhidos e estimulados.”

Arthur aprendeu direitinho a lição. Há quatro anos como professor do fundamental no Santa Maria, é muito querido pelos alunos e já percebe que vai fazer seguidores. Mas, por enquanto, o grande questionamento dos estudantes não recai sobre a situação delicada da profissão. As crianças querem mesmo é saber como ele consegue ficar tanto tempo só ensinando jogos e brincadeiras sem morrer de vontade de brincar também.

Liceu de Artes e Ofícios

O fato de ter sido uma das melhores alunas na escola em que cursou o fundamental não foi suficiente para Laíza Souza chegar tranquila ao Liceu de Artes e Ofícios, onde fez o ensino médio integrado ao ensino técnico em Edificações. Logo no primeiro semestre, ela precisou fazer provas de recuperação em três disciplinas. Uma delas foi Topografia, ministrada por Fernando Ribeiro.

“Eu estava num momento de muito desgaste, fiz a prova e entreguei. Comecei a chorar. O Fernando olhou e me acalmou. Vi ele corrigindo a prova. Dava 5,5 e a média era 6. Comecei a chorar ainda mais. Ele não disse nada, só colocou um 6 bem grande. Me deu o meio ponto que valeu minha vida.”

A atitude de Fernando fez com que o desejo de ser professora, um sonho de infância que havia sido esquecido na adolescência, voltasse à tona. “Porque entendi que lecionar era também não deixar os alunos desistirem. E era isso que eu queria fazer.”

Hoje, dez anos após o episódio, é exatamente isso o que Laíza faz. Na sala de aula em que leciona Topografia (sim, a disciplina que quase a fez desistir do curso), ela cede um tempo da aula para conversar com os alunos sobre temas sem nenhuma relação com o conteúdo programático. “Meus alunos têm entre 15 e 17 anos, e enfrentam os mesmos problemas e dilemas que eu tive. Escuto a história de vida deles e também conto como cheguei até aqui.”

Aos 24 anos, Laíza é professora no Liceu desde 2016, quando participou de um processo seletivo que incluiu uma aula-teste avaliada por Fernando, atualmente coordenador-geral do ensino técnico no colégio. No cargo de gestão, pode-se dizer que instituiu o “aprendizado pelo afeto”. “Não acredito em ambiente de aprendizado que não tenha afeto. É do docente pela carreira, pelo aluno, pela instituição que trabalha. É do aluno pelo aprendizado, pelos colegas, pela escola”, elenca o professor.

E, assim com Laíza, Fernando – 48 anos de idade e 15 de magistério – se lembra daquele meio ponto. Mas, diferente de Laíza, não acredita que a decisão de arredondar a nota tenha salvado a vida da aluna. “Fomos nós que ganhamos. Por meio ponto, o mundo ganhou uma professora. Educação não é cálculo, transcende qualquer lógica numérica.”

Colégio Equipe

Todas as terças e quintas-feiras, João Gabriel Priolli, de 32 anos, e Lizânias de Souza Lima, de 74 anos, dividem a mesma sala de aula como professores de História do ensino médio do Colégio Equipe. “Nossa sintonia é absurdamente positiva. É um trabalho afinado e sem hierarquia”, diz Lizânias. João Gabriel concorda, mas faz um adendo. “Há uma troca, mas eu ainda sou o mais beneficiado.”

É a fala convicta de quem admira o professor que o inspirou a escolher a docência. Filho de historiadora, o interesse de João Gabriel pela disciplina era antigo, mas foi a maneira de Lizânias expor o conhecimento que o instigou. “Eu admiro a forma como ele aproxima o estudante ao pesquisador de história. A disciplina no ensino médio tem o papel de ponte entre os dois mundos. Ele foi a pessoa que me despertou para eu entender que gostava de trabalhar com isso também.”

Lizânias explica que o compromisso com o conhecimento científico é seu único norte. Irrevogável. “Não faço de outro jeito. Pode ser que desista, mas nunca vou ensinar o que não acredito”, afirma, ao salientar sua contraposição à ideia de uma escola com professores cerceados, defendida por parte da classe política. “Uma das prerrogativas da profissão é a liberdade de cátedra. Sem isso, não temos educação, temos doutrinação.”

O docente acredita, no entanto, que esse policiamento do pensamento faça com que diminua ainda mais o número de interessados pelo magistério. “É um discurso que assusta. Você vai escolher uma profissão e correr o risco de sofrer processos se fizer o que é o correto a ser feito dentro de uma sala de aula e algum estudante decidir gravar e denunciar?”

A depender de Lizânias, as aulas continuam com materiais impressos e celulares desligados. Aliás, nas turmas em que divide com João Gabriel, eles se complementam até nesse quesito. “Levo algumas ferramentas com as quais ele tem menos familiaridade, e ele me ensina que nem tudo do professor tradicional a gente quer jogar fora”, conta.