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O que uma prova de Matemática pode fazer por uma Nação?

Por Tabata Amaral *

Todo ano, nesta época, quando ouço ou leio que as provas da OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas) estão chegando (serão dia 05 de junho), o livro da minha vida vem à minha cabeça. Pois, sem dúvida, a OBMEP foi a porta de entrada para que eu chegasse onde estou.

Eu estava cursando a 6ª série da E. E. Prof. Isaltino de Mello, na zona sul de São Paulo, quando a Professora Simone me disse que faríamos uma tal de OBMEP e que era para eu dar mais atenção àquela prova, que aquilo era algo diferente. Ouvi a professora, fiquei até o final da prova e fui medalhista de prata e ouro na 1ª e 2ª OBMEP. Isso me levou a receber uma bolsa de estudos em uma escola particular na região central de São Paulo e, depois, em uma escola de inglês. Como consequência dessa primeira oportunidade, anos depois passei em seis excelentes universidades americanas com bolsa. Me graduei por Harvard em Ciência Política e Astrofísica, e voltei para o Brasil para trabalhar pela educação pública.

Repito essa história, que talvez muitos de vocês já saibam, para mostrar com um exemplo concreto como o clichê é real: a educação pode salvar muitos jovens, e a mudança precisa começar a ser feita em sala de aula.

No Brasil em que vivemos, infelizmente, o tamanho dos sonhos de milhares de crianças e adolescentes ainda tem cor, gênero e CEP. No entanto, acredito piamente que a educação pode mudar a direção de muitos futuros.

Para ficarmos apenas na ciência exata, vale mostrar o impacto efetivo da OBMEP nos resultados de matemática no país, que têm sido medidos por estudos independentes.  De acordo com trabalho do ex-presidente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) Chico Soares, por exemplo, escolas que participam ativamente da competição apresentam melhora no desempenho dos alunos de 26 pontos na Prova Brasil, o equivalente a um ano e meio de escolaridade extra. Fora as milhares de histórias individuais que vemos de jovens que foram bem na prova e ganharam motivação para seguir adiante. Ganharam bolsa, foram estudar em escolas diferenciadas, conseguiram oportunidades de emprego e ajudaram suas famílias a mudar de situação financeira.

Por isso, é inconcebível ainda ler, nos dias de hoje, que a maior olimpíada de matemática do mundo em número de participantes corra, em algum momento, o risco de não ser realizada por falta de verba.

Os governantes precisam abrir os olhos, de uma vez por todas, para a importância da prova e da educação como um todo. É preciso sair da retórica, do discurso, e partir para a prática. Destinar mais recursos públicos ao ensino básico e usá-los de maneira eficiente, formar melhor os nossos professores, com políticas de valorização à profissão, colocar pessoas qualificadas e com autonomia na gestão das escolas, e desenhar políticas educacionais mais conectadas com a realidade.

Contribuir para a melhoria da qualidade da educação básica, possibilitando que um maior número de alunos brasileiros possa ter acesso a material didático de qualidade; identificar jovens talentos e incentivar seu ingresso em universidades, nas áreas científicas e tecnológicas; incentivar o aperfeiçoamento dos professores das escolas públicas, contribuindo para a sua valorização profissional; contribuir para a integração das escolas brasileiras com as universidades públicas, os institutos de pesquisa e com as sociedades científicas; e promover a inclusão social por meio da difusão do conhecimento. Essas são apenas algumas das melhorias decorrentes da realização da OBMEP.

Os estudantes que fazem as provas vivem realidades diversas, mas muitas vezes estão unidos por um mesmo sonho. Um sonho grande que, muitas vezes, é de uma família inteira. Um sonho de uma Nação”.

* Tabata Amaral, 24 anos, é cientista política formada pela Harvard University e ativista pela educação. Co-fundadora do Projeto VOA!, do Movimento Mapa Educação e do Movimento Acredito. Comentarista da Rádio CBN e colunista da Revista Glamour.

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