Pedagogia: o que você precisa saber sobre estágio - CGC Comunicação em Educação
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Pedagogia: o que você precisa saber sobre estágio

“O estágio é tão importante para o professor quanto a residência para o médico”, afirma Vivian Batista da Silva, professora Livre-Docente do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Para quem está em formação, o estágio é uma experiência fundamental para conhecer a profissão na prática. Mas quando pensamos na formação inicial dos futuros professores, essa importância atinge um patamar diferente.

É comum ouvir de professores recém-formados que o que aprenderam na universidade não se traduz na realidade da escola e da prática docente, ou seja, eles estudam muita teoria, mas não se sentem seguros de que esse conhecimento seja suficiente para dar uma boa aula. Por isso, é importante aproximar o conhecimento universitário do chão de sala de aula desde a graduação (ou licenciatura). “No estágio, o aluno vai vivenciar a realidade do que se discute na universidade”, afirma Wilna Mello, gestora nacional do curso de pedagogia da Estácio, rede de universidades particulares presente em todos os estados brasileiros e Distrito Federal.

Instituto Singularidades

No estágio, o estudante adquire um tipo de conhecimento que a universidade não consegue ensinar. “Determinados fazeres na profissão do professor são aprendidos na prática”, afirma Cristina Nogueira, coordenadora do curso de Pedagogia do Instituto Singularidades, em São Paulo. “O estágio tem um saber próprio”.

Entenda o que cabe a você, estudante, à universidade e à escola para que o estágio seja proveitoso para todos:

Como o estudante pode tirar o maior proveito do estágio?

O primeiro ponto a ter em mente é que o estágio faz parte da formação inicial do futuro professor e que não é apenas um pré-requisito para obter o diploma. “É importante que ele aprenda a observar, aprenda a colaborar com todas as pessoas que compõem a escola, tente entender o que está acontecendo e tenha uma atitude propositiva”, afirma Cristina Nogueira, do Singularidades. O aluno, diz ela, não deve chegar no estágio com um olhar de julgamento, mas sim compreender os problemas e dificuldades da escola e pensar em possíveis caminhos para resolver os desafios que encontrar pela frente, sejam na rotina ou na estrutura. “Uma situação pontual não revela todo o trabalho da escola. É preciso ter um respeito muito grande e não um olhar do que está certo e errado”, complementa Vivian Batista.

Para aproveitar ao máximo a experiência, é interessante fazer o estágio com tempo – isto é, não deixar para última hora, mas cumprir as horas obrigatórias durante a maior parte da graduação – e planejamento – é preciso ir para o estágio com objetivos claros que orientem sua experiência e olhar.

Ao iniciar o estágio ainda no começo da graduação, o futuro professor tem a oportunidade de “aprofundar seu olhar conforme adquire um maior repertório teórico e ganha experiência prática”. “O aluno consegue avançar, questionar, propor intervenções. Ele consegue ter um grau maior de reflexão”, diz Cristina. Para atingir esse amadurecimento, é fundamental ter um acompanhamento do estágio e espaços de troca sobre as experiências vivenciadas. Isso quer dizer que é preciso ter momentos de conversa para falar abertamente sobre o que você está experimentando e qual sua visão, para então receber orientações que podem ajudar a desenvolver seu perfil profissional.

Para ter experiências variadas – claro, respeitando as regras da escola – é interessante se envolver e explorar tudo que a instituição tem a oferecer. Ao acompanhar um professor mais experiente, aproveite para compreender todas as etapas que envolvem dar aula: entender o que é preciso levar em consideração na hora de planejar, como montar o planejamento, assistir atentamente a aula e, por fim, refletir sobre como foi a condução da atividade ou da sequência pensada pelo educador. Funcionou? Foi bom? O que poderia melhorar da próxima vez?

Agora, um ponto importante: HTPC. Não são todas as escolas que permitem que o estagiário esteja presente às reuniões pedagógicas da escola, mas se a instituição permitir, é interessante acompanhar as formações para entender como se dão os momentos de socialização e formação.

Qual o papel da universidade?

O estágio deve fazer parte do projeto pedagógico da universidade e cabe à universidade pensar em uma metodologia para acompanhar o estagiário e integrar a experiência com a grade curricular do curso. Por isso, é importante entender como ele funciona na sua instituição de ensino.

Veja a seguir como funciona o estágio na Estácio, Universidade de São Paulo e Instituto Singularidades:

Por ter muitos alunos que trabalham o dia inteiro para pagar a faculdade e, portanto, têm dificuldade para cumprir as horas obrigatórias de estágio, a Estácio desenvolveu projetos que permitem que alunos com nível socioeconômico mais baixo experimentem a prática dentro da universidade. Um deles é a brinquedoteca, um espaço em que alunos da Estácio podem deixar seus filhos durante o período em que estão em aula. De segunda a sexta, a iniciativa recebe crianças de 4 a 10 anos e são os estudantes de Pedagogia – sob supervisão e acompanhamento de professores da universidade – que preparam atividades lúdicas para trabalhar com as crianças. Além disso, a instituição oferece aulas de alfabetização para jovens e adultos, o que permite que estudantes de Pedagogia possam se aproximar da prática de sala de aula.

Na Estácio, segundo Wilna Mello, as 400 horas de estágio precisam ser divididas em três tipos de estágio: na Educação Infantil e Anos iniciais do Fundamental; na Gestão Escolar; e em espaços educativos não-escolares. Independentemente do tipo de estágio, seja ele na universidade ou em escolas públicas conveniadas, o estagiário tem um acompanhamento semanal com o professor responsável e momentos de reflexão sobre a experiência.

Já na USP, o Programa de Formação de Professores tem como objetivo acompanhar o estagiário e fazer a articulação entre a universidade e as escolas públicas. “As educadoras [responsáveis pelo Programa] conhecem e conversam com a equipe da escola para abrir espaço para os estudantes”, explica Vivian. A cooperação entre a universidade e as escolas é essencial para um estágio bem sucedido. “Essa cooperação estabelece uma relação de apoio mútuo que aproxima as instituições”, afirma Sandra Torquato Bronzate, educadora do programa.

As propostas de estágio estão alinhadas ao que os professores estão trabalhando em sala de aula. No manual de estágio da Faculdade de Educação da USP, as propostas de estágio são divididas em quatro tipos:

Observação: O aluno busca entender a prática docente, as relações escolares e a dinâmica da sala de aula, a partir da proposta do professor da graduação.

Intervenção: O estagiário é responsável por elaborar uma proposta para realizar uma atividade ou ação pontual na escola, a partir das necessidades da instituição e do objetivo do estágio.

Regência: Sempre com supervisão, o aluno de Pedagogia pode ser responsável por auxiliar na condução de atividades ou participar e desenvolver aulas e sequências didáticas, por exemplo.

Pesquisa: A partir da proposta do professor da graduação, o estudante cria um projeto para investigar, a partir de procedimentos de pesquisa, um aspecto do cotidiano da escola ou da prática docente.

Há, portanto, uma integração entre a teoria que o aluno aprende na universidade com a experiência do estágio. Essa preocupação também pode ser observada no Instituto Singularidades, que construiu o currículo a partir do estágio. “Existem atividades de diversas disciplinas que são dadas a partir das vivências que os alunos trazem do estágio’, explica a coordenadora Cristina Nogueira.

Lá os alunos começam o estágio ainda no primeiro semestre. “É comum que se pense no estágio na segunda metade do curso pela ideia de primeiro se aprende a teoria e depois se aplica, mas é fundamental desde o começo que o aluno tenha essa experiência profissional”, explica.

O caminho percorrido no estágio é assim: o aluno vai para a escola, volta para o curso de graduação (ou licenciatura) com dados da experiência, discute conceitualmente com professores e volta para a prática com uma nova percepção a respeito do assunto ou daquela situação.

“Existe uma ideia de que basta estar na escola para aprender sobre a realidade da escola, mas é preciso ter uma metodologia”, afirma a coordenadora do Instituto Singularidades. Para ajudar o aluno a construir o olhar para a realidade da escola, os professores propõem pautas mais estruturadas no início da graduação. Conforme o estudante avança na graduação e na experiência prática, ele ganha mais autonomia para construir suas próprias pautas a partir das perguntas que aprende a fazer e do olhar que construiu. Essa experiência é compartilhada em sala de aula por meio de socialização e tematização da prática.

AFINAL, O QUE É TEMATIZAÇÃO?
Tematização é uma estratégia comum adotada pelas escolas na formação de professores. Tematizar significa olhar para a prática da sala de aula como um tema de reflexão. Na prática, é uma estratégia para pensar a teoria a partir da prática. O estudante é levado a refletir a respeito da prática, levantar hipóteses e teorias que podem auxiliar os professores a pensar em possíveis intervenções na sala de aula.

O que cabe à escola que recebe o aluno de pedagogia (ou licenciatura)?

A escola precisa se ver como co-responsável pela formação desse futuro professor. Para Sandra Bronzate, da USP, espera-se que a escola seja esse espaço de vivência da prática. No entanto, nem sempre é isso que acontece.

Há uma ideia geral de que estamos longe dessa perspectiva no Brasil As escolas precisam ter um trabalho estruturado para acolher os estagiários e seus desafios, segundo Cristina Nogueira. Isso significa ter alguém para acompanhar, garantir que os estagiários estão sendo incluídos e possam crescer na experiência. Vivian Mello complementa que a escola precisa entender em quais lugares é importante que esse estudante esteja presente para que a experiência seja proveitosa, tanto para a escola quanto para o estudante.

Se o professor faltar, posso assumir sozinho a turma?

Apesar de ser comum, não, não pode. “O estagiário não pode ser visto na escola como alguém que tapa buraco, ele deve ser visto pela escola como alguém que está se preparando”, explica Cristina.

O que pode – e é recomendado – é que o estagiário faça uma atividade de regência, isto é, que ele seja responsável por dar uma aula. Neste caso, a diferença é que o professor acompanha o estagiário, ajuda a preparar a aula e assiste à atividade para dar uma devolutiva dos pontos a desenvolver.

Que legislação protege o estágio?

Para estar bem informado do seus direitos e deveres quando se trata do estágio, é importante que você esteja de olho na regulamentação, além da universidade. Entenda melhor a legislação:

– Em 2008, a lei nº 11.788 regulamentou o estágio para os estudantes de todas as áreas. Nesse documento consta a definição de estágio, os tipos e as responsabilidades de cada uma das partes envolvidas.

– Anteriormente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) regulamentava a formação de professores e definia o estágio em suas resoluções. É o caso dos documentos CNE/CP nº 1 e nº 2 de fevereiro de 2002, que coloca que atividades ligadas à prática docente não devem estar desarticuladas do resto da formação do estudante de Pedagogia, nem devem se restringir ao estágio. Isto é, a prática deve estar presente durante todo o curso. O documento também define a finalidade do estágio como uma experiência com ênfase na observação e reflexão. A resolução nº 2 institui a carga mínima para a formação de professores da Educação Básica e determina que o estudante precisa cumprir 400 horas de estágio curricular supervisionado a partir do início da segunda metade do curso. Aqueles que já trabalham como professores regulares podem diminuir sua carga de estágio supervisionado para 200 horas.

– Em 2006, o CNE divulgou as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Pedagogia (licenciatura). O documento determina que em cursos de licenciatura em Pedagogia, os estudantes devem cumprir 300 horas de estágio supervisionado, com prioridade para experiência na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, mas sendo possível contemplar outras áreas, conforme o projeto pedagógico da instituição de ensino superior.

Vale ressaltar, entretanto, que municípios e estados podem ter diretrizes complementares às mencionadas anteriormente. É o caso do Conselho Estadual de São Paulo que na deliberação CEE Nº 111/2012 – atualização de uma deliberação de 2012 – determina que das 400 horas de estágio supervisionado, no mínimo, 200 horas sejam em sala de aula e 200 horas de acompanhamento da gestão escolar. Então, é importante também estar atento às regulamentações locais.