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Por que a nossa educação padrão não é uma educação bilingue?

Em uma era de globalização, um assunto como esse torna-se cada vez mais relevante

Por Gernot Grube*

Ninguém nega o valor da educação para todas as sociedades. Educação é como uma extensa oferta de instrumentos para desenvolver, cuidar, melhorar e aumentar nossos recursos. Na maioria das sociedades as escolas detêm o papel-chave para desenvolver a competência cognitiva e moral de jovens personalidades. A quantia de dinheiro alocada na educação varia enormemente de uma sociedade para a outra. Mas suspeitamos que essa não seja apenas uma questão financeira. Pois há sistemas mais caros que não produzem resultados tão bons quanto outros mais baratos. Trata-se, sim, de uma questão de metodologia. O que deveria ser feito na sala de aula?

No primeiro fim de semana de maio, do 1° ao dia 3 do mês, realizou-se uma conferência com 500 participantes em São Paulo sobre educação bilíngüe. A conferência acontece a cada dois anos e é realizada pela Escola Cidade Jardim. Os participantes vêm de todo o mundo. Os palestrantes são pesquisadores acadêmicos de renomadas instituições do Brasil e do exterior que têm-se destacado por sua pesquisa de ponta na área de educação bilíngue. Em uma era de globalização, um assunto como esse torna-se cada vez mais relevante.

Ofelia Garcia, da New York University, argumentou em sua palestra que a única educação apropriada para o século 21 é uma educação bilíngue. Em seu recém-publicado livro, onde promove o futuro do bilinguismo, ela cita a declaração da Unesco de 2003: “as exigências de participação em níveis nacional e global e as necessidades culturais e linguísticas específicas de distintas comunidades só poderão ser atendidas pelo ensino multilíngue.”

Algumas sociedades, como a cidade-estado de Singapura, já possuem consequentemente, um sistema de ensino bilíngue. Na conferência, Anne Pakir, da Universidade Nacional de Singapura, apresentou experiências recentes com bilinguismo em seu sistema local de ensino.

Educação bilíngue é diferente de simplesmente aprender uma língua estrangeira como acontece em muitos esquemas tradicionais. Em termos simples, o aprendizado bilíngue significa usar dois idiomas na escola. Significa por exemplo, aprender história em Inglês e Português, ou aprender geografia, matemática e química em ambos os idiomas. Imagine-se aprendendo o teorema de Pitágoras em Português e depois discuti-lo em Inglês. Se esse processo for iniciado cedo, o aluno poderá dominar um segundo idioma com fluência. E depois acrescentar outro (s) idioma (s) com maior facilidade ainda.

Siv Bjorklund, da Universidade de Vaasa, na Finlândia, explicou que, o progresso de alunos bilíngues na aquisição de idiomas adicionais é significativamente superior ao de alunos monolíngues. Mas há evidências também de que as habilidades cognitivas em geral são mais estimuladas pelo bilinguismo. A experiência prática em educação bilíngue mostra que para as crianças, é perfeitamente acessível a tarefa de comunicar-se com perfeição em duas línguas. É claro que o simples fato de ser fácil não é argumento suficiente. Mas o fato de ser tão fácil demonstra o enorme potencial latente na cognição infantil.

Resumidamente falando, vamos olhar para algumas das vantagens da educação bilíngue. Nossas crianças estão tendo a oportunidade de usar muito mais de suas habilidades naturais cognitivas. Elas têm a oportunidade de expandir um horizonte intelectual que potencialmente aprimora capacidades básicas de abstração e o aproveitamento de conteúdos acadêmicos torna-se mais fácil. Elas falam duas línguas com facilidade e frequentemente sem sotaque, ao saírem da escola… E elas estão completamente preparadas para aprenderem outros idiomas.

Este último argumento deveria ser suficiente para promover a educação bilíngue em um nível institucional. Pois em um mundo que se torna cada vez mais uma comunidade internacional, nada mais essencial do que habilidades lingüísticas de comunicação.

E apesar de, no ocidente e em grande parte da Ásia e da África o Inglês ter-se tornado uma língua franca, não devemos buscar um Esperanto. Pois uma língua deve situar-se em um contexto cultural. A estratégia não é eliminar línguas que reflitam contextos culturais específicos. Mas aumentar nossa habilidade de aquisição de novos idiomas.

Na conferência, Jim Cummins, da Universidade de Toronto, mencionou um último e interessante aspecto do bilinguismo. Toda a pesquisa ao longo dos últimos 40 anos mostra que não há desvantagem de crianças aprenderem uma língua estrangeira e matemática ou história ao mesmo tempo. Isso refuta a (falsa) suposição de que apenas as crianças mais cognitivamente “agraciadas” poderiam lidar com tanto aprendizado ao mesmo tempo. Isso funciona também de outra maneira: uma criança com dificuldade de entender um problema aritmético em uma língua, pode se beneficiar do uso de uma segunda língua para reconhecer o problema em questão.

Com todas essas boas razões para o bilinguismo, não seria razoável esperar que nossas escolas fossem lenta e gradativamente transformadas em instituições bilíngues? Claro que não tão lentamente, pois deixaríamos preciosos e necessários recursos cognitivos inexplorados. Mas não se trata de uma questão de andamento, mas uma questão de princípio: por que a maioria esmagadora de nossas sociedades não inicia processos de educação bilíngue?

Há uma perfeita metodologia disponível que não está sendo utilizada. O argumento com o qual nos deparamos aqui é o de que há interesses nacionais, um lobby político que deliberadamente emperra o processo de implementação de um sistema educacional bilíngue.

Na conferência de dois anos atrás, Gilvan Muller de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina, reconstruiu o histórico das políticas de língua no Brasil e mostrou que, para definir uma identidade brasileira forte, as outras línguas não apenas foram excluídas das escolas, mas também foram proibidas de serem usadas.

É claro que esse não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Theodor Roosevelt, em 1915, expressou isso da seguinte maneira: “Temos espaço aqui para um único idioma. O idioma Inglês. Pois queremos que o sistema faça com que nosso povo seja Americano, de nacionalidade Americana e não habitantes de um abrigo poliglota.” Ou então, como foi dito por Ronald Reagan várias décadas mais tarde: “É absolutamente errado e contra os ideais americanos ter um programa bilíngue que está comprometido em manter suas primeiras línguas e jamais apresentá-los a um inglês com real competência para que possam ingressar ativamente no mercado de trabalho.”

É fácil perceber o quão equivocado é esse ponto de vista. Pensando dessa forma, ignora-se o fato de que a educação bilíngue visa aprimorar a competência linguística em geral, inclusive no inglês.

A situação na Europa parece ser um pouco diferente se considerarmos uma declaração da Comissão da União Européia de 2003: “O aprendizado de uma língua franca não é o suficiente. Cada cidadão europeu deveria ter competência comunicativa em pelo menos dois outros idiomas, além do seu próprio.” Mas a realidade, no entanto, é menos significativamente diferente. Também na União Européia, a educação bilíngüe não é a norma. E por que não, já que uma soma infindável de pesquisa argumente em seu favor?

Vamos pensar um pouco sobre os “motivos” que impedem a implementação do bilinguismo em um nível global. Em primeiro lugar, não haveria dinheiro suficiente para a contratação de professores capacitados. Esse argumento é, sem dúvida, limitado. Pois o business da política é direcionar os orçamentos e um critério central para decisões financeiras deveria ser o investimento em recursos humanos. Em segundo lugar, há o preconceito nas mentes de pais, de que os alunos não seriam capazes de lidar com o desafio do bilinguismo. A única maneira de se livrar dessa armadilha é através da implementação do novo modelo, tarefa do governo e dos responsáveis pela educação. Mas parece que as respectivas lideranças não estão muito dispostas. Talvez, a partir disso, percebe-se o terceiro motivo: a luta por uma identidade nacional. As políticas educacionais de cada país devem encaixar-se nas exigências nacionais. Esse argumento explica porque, às vezes, um certo tipo de bilinguismo nunca foi e continua não sendo o desenvolvimento das competências linguísticas de uma criança. Mas sim, adotar uma criança cuja língua materna pertença a alguma minoria e doutriná-la no idioma oficial do país, ajudando assim, a fortalecer a identidade nacional.

Daí em diante, a questão do bilinguismo torna-se uma questão de poder, sobre as estratégias utilizadas pelo status quo para reproduzir sua superioridade. A partir desse ponto, o problema torna-se mais complexo. Não é a Nação que pede uma educação fortemente monolíngue. Mas os interesses de grupos sociais para preservarem seu poder. Poderíamos entender que a partir dessa perspectiva o bilinguismo torna-se um item delicado, dado o poder que ele tem de mobilizar os tecidos sociais. A linguagem é nossa principal ferramenta para criar, manter, transformar, destruir ou preservar redes sociais.

Infelizmente, não houve nenhum palestrante na conferência que abordou esse tópico: os links entre monolinguismo, estruturas sociais e interesses de poder. Talvez por bons motivos. Pois esse assunto requer sua própria conferência. Se aceitarmos o argumento de que a ausência do bilinguismo se deve à noção de que enfraqueceria a rede social de um grupo no poder, devemos aceitar que o debate sobre o bilinguismo é, em essência, político. Essa será uma discussão para os grupos que não estão no poder, mas que detém os melhores argumentos. Estamos falando de educação bilíngue enquanto modelo padrão, ao invés de uma educação particular ou especializada para apenas alguns alunos privilegiados.

* Doutor em Filosofia e ex-pesquisador na Universidade Humboldt, em Berlim. Em maio de 2008 mudou-se para São Paulo).

Artigo traduzido por Marcus Perrenoud

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