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Por que os alunos cubanos aprendem mais que os brasileiros?

Recrutamento dos melhores alunos para o magistério, supervisão dos professores, além de saúde e boa alimentação, são as repostas, diz o professor da Universidade de Stanford Martin Carnoy, autor do livro “A vantagem acadêmica de Cuba”
Por Fábio Galvão

As respostas para a pergunta do título acima foram debatidas esta semana na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, no seminário “A sala de aula que ensina”, com a participação do professor Martin Carnoy, da Universidade de Stanford. Polêmico, o autor do livro “A vantagem acadêmica de Cuba” defendeu um controle maior do Estado sobre a educação pública, criticou os sindicatos brasileiros e as universidades e condenou o sistema de pagamento de prêmio em dinheiro por mérito para professores, sistema que vem ganhado força no Brasil.

O livro, recentemente lançando em português com apoio da Fundação Lemann, é resultado de um estudo realizado em 2007 para tentar entender porque os alunos de Cuba tiram notas muito mais altas em matemática e linguagens nos testes internacionais na comparação com os demais países da América Latina. Carnoy visitou escolas e filmou aulas de matemática da 3ª série no Brasil, Cuba e Chile.

Embora ressalte a ineficiência da economia cubana e seu governo autoritário, o professor de Educação e Economia diz que Cuba tem três lições básicas que podem e devem ser aprendidas pelas autoridades brasileiras: o recrutamento dos melhores alunos do ensino médio para o magistério e sua excelente formação; saúde e boa alimentação das crianças; e um sistema de tutoria e supervisão dos professores, com ênfase na melhoria da instrução. “Em Cuba, a educação e saúde são prioridades absolutas. Tanto as crianças quanto os pais delas são mais educados que nos demais países”, afirmou.

Carnoy destacou que o sistema de ensino cubano é altamente centralizado e controlado, com um currículo mais aprofundado e com menos conteúdo. No Brasil, disse ele, a educação pública é muito descentralizada, com pouco controle sobre o que acontece na sala de aula. “Em Cuba, os alunos passam quatros horas aprendendo, com exercícios individuais. Os alunos aprendem com seus próprios erros. Os diretores das escolas são líderes instrucionais e as professoras são como uma segunda mãe. No Brasil, a aula é muito expositiva e os alunos passam grande parte do tempo copiando ou trabalhando em grupos”, compara Carnoy.

Ele frisou ainda que, ao contrário do Brasil, em Cuba as escolas urbanas e rurais são praticamente iguais e os alunos aprendem as mesmas disciplinas. A questão da violência em Cuba é quase residual, enquanto no Brasil é uma das grandes preocupações dos professores. “Violência, saúde e condições precárias podem significar baixos níveis de aprendizado”, disse.

Controle suave e absenteísmo autorizado

O professor da Universidade de Stanford criticou os cursos de formação de professores no Brasil e chegou a defender um “controle suave” das universidades. “No Brasil, os cursos ensinam a pedagogia geral, não a pedagogia do ensino. O professor aprende matemática, mas não aprende a ensinar matemática”, sustentou.

Carnoy defendeu métodos de avaliação dos professores, assim como da própria escola. “Nós temos que avaliar o progresso do aluno, do professor e da escola”, disse, ao lembrar que em Stanford os professores são avaliados também pelos próprios alunos. Em Cuba, afirmou, os professores são formados para garantir um currículo nacional. “Há mais supervisão e os supervisores são claros sobre o que o é o currículo e como os professores devem ensiná-lo da maneira eficaz”, relatou.

Ele fez duras críticas ao que chamou de “absenteísmo autorizado” dos professores que impera no Brasil. “Os sindicatos dos professores deveriam defender os interesses dos alunos e não os seus próprios interesses”, criticou. No entanto, ele reconhece que os gestores precisam dialogar com os sindicatos, caso contrário quem acabará perdendo é o aluno.

Bônus e prostitutas

Questionado sobre a política de bônus por mérito que vem ganhando força no Brasil, Martin Carnoy admitiu que uma boa remuneração para o professor é essencial para melhorar a qualidade da educação, mas tem dúvidas sobre se o prêmio em dinheiro é a melhor solução. “Este tipo de premiação não dever ser no nível do professor, nem deve ser pago todo ano”, afirmou. Ele acredita que a avaliação não deve servir nem para punir, nem para premiar. É apenas mais um instrumento para orientar a instrução. O perigo, na opinião dele, que é o ensino acabe sendo direcionado apenas para o teste. “Os testes não medem tudo”, afirmou.

O professor norte-americano teme que este tipo de política pública provoque uma escolha seletiva. “Um professor, por exemplo, pode pressionar para que os piores alunos saiam da sua classe. Ou um diretor pode colocar os maus alunos na classe de um professor que ele não goste”, disse.

Carnoy alertou ainda para um fenômeno perigoso que está acontecendo em Cuba com a expansão do turismo. “Como os salários variam pouco em Cuba, a contratação para a docência de pessoas bens instruídas não é um problema, mas hoje é possível encontrar prostitutas, camareiras e taxistas ganhando mais que muitos professores”, relatou.

Questionado se um maior controle do Estado não poderia comprometer a democracia, Martin Carnoy admitiu os riscos, mas retrucou. “Democracia para quem?”. Na opinião dele, só há democracia política com democracia econômica. Ele culpou o sistema brasileiro pela má qualidade da educação ao constatar que as melhores universidades são freqüentadas pelos mais ricos, enquanto os mais pobres estudam nas piores universidades. “Educação de qualidade custa caro. Se você quer uma educação de qualidade, tem que pagar “, disse.

Leia um trecho do livro “A vantagem acadêmica de Cuba”
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