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Professores: vítimas ou culpados pela má educação?

Secretários estaduais de Educação debatem a formação dos professores e concluem: os cursos de pedagogia estão desconectados da realidade da escola brasileira

Por Fábio Galvão

Na véspera do Dia do Professor, os secretários estaduais de Educação, reunidos em São Paulo, debateram os problemas e as soluções de uma das principais deficiências da Educação no Brasil hoje: a formação dos professores. As discussões giraram basicamente em torno de dois temas: salários e os cursos de pedagogia e licenciatura. Muitos discutiram se professor é vítima ou culpado pela má educação brasileira.

A partir da apresentação de três estudos sobre a formação do docente – um nacional, outro latino-americano e o terceiro mundial, os secretários concluíram que as instituições de ensino superior estão desconectadas da realidade da escola brasileira. Não formam alfabetizadores. Os secretários cobraram responsabilidade das universidades públicas e privadas e defenderam um currículo mais voltado ao ensino da didática em sala de aula.

Caixa preta

A presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Educação (Consed), Maria Auxiliadora, a Dorinha, disse que vai convidar as entidades que representam as universidades e os professores para debater o assunto. “Precisamos abrir a caixa preta da formação dos professores. Precisamos valorizar o professor e atrair os jovens, caso contrário será uma carreira fadada ao fracasso”, disse.

Segundo ela, que é secretaria de Tocantins, este é o momento ideal para debater o assunto, já que o Ministério da Educação está lançando o Sistema Nacional de Formação do Magistério, com investimento de R$ 1 bilhão. Dorinha informou que irá sugerir ao Ministério da Educação uma revisão nas diretrizes curriculares dos cursos de pedagogia e licenciatura. E se mostrou preocupada com a idéia do MEC de usar os Institutos Federais de Educação Tecnológica (Ifets) para formar professores. “Estou preocupada porque eles não têm tradição em formar professores. Vamos mostrar nossa preocupação ao MEC”, disse.

Punição

A secretaria adjunta de Políticas Educacionais do Mato Grosso, Rosa Neide Sandes de Almeida, concordou em chamar as universidades para a responsabilidade, mas cobrou cuidado com as generalizações. “Parece que querem desmerecer a universidade pública”, disse ela, ao lembrar que a grande maioria dos professores é formada pela rede particular. “Muitas vezes punimos professores. Alguém já puniu as instituições?”, questionou.

Para a secretária de Educação do Paraná, Ivelyse Arco-Verde, a “falta de consistência na formação” dos professores pelas universidades públicas abriu um vácuo, já preenchido pelo setor privado. “As universidades não estão articuladas com o sistema. Quando o público não assume, o privado assume”, afirmou.

A secretária de Goiás, Milca Severino, sugeriu a criação de uma instituição exclusiva para formar professores e lembrou que o sistema universitário brasileiro ainda é muito recente. “Nossas universidades ainda são crianças. Quando chegarmos na idade das universidades da Europa este problema da má formação dos professores não existirá”, disse.

Conversa construtiva

Já a secretária de Educação de São Paulo, Maria Helena Guimarães, pediu um diálogo construtivo com as universidades. “Nossas universidades são ótimas pesquisadoras, mas não discutem a formação de professores. É preciso chamá-las para a discussão, para um conversa construtiva”, disse.

Na opinião da Bernardete Gatti, coordenadora do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas, que recentemente publicou uma pesquisa sobre os cursos de pedagogia e seus currículos, o Brasil ainda não tem uma política educacional definida para a formação dos professores. “Estamos formando muito tecnocratas e poucos professores”, disse.

Ela criticou a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e espera que agora, com a nova função da Capes, de auxiliar na formação básica, a situação possa mudar. “A Capes só faz o professor pensar na carreira, não no aluno. Espero que agora isso mude”.

Outra questão levantada por ela foi em relação às Faculdades de Educação. “Qual é o papel das Faculdades de Educação no Brasil? Hoje, os alunos de licenciatura não se integram à Faculdade de Educação. Talvez pudéssemos transformar as Faculdades de Educação em instituições que formem o professor na sua totalidade”, afirmou Bernardete.

Salários

No momento em que alguns Estados ameaçam contestar na Justiça a lei do piso nacional do professor de R$ 950, a questão salarial dos docentes provocou muitas discussões durante o encontro, promovido pelo Consed, Fundação Victor Civita e movimento Todos Pela Educação.

Segundo a pesquisa “Como os Sistemas Escolares de Melhor Desempenho do Mundo Chegaram ao Topo”, apresentada pela doutora em desenvolvimento econômico pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e sócia da McKinsey & Company, Mona Mourshed, pagar bem os professores é uma das principais lições para melhorar a educação de um país. “É claro que só o salário não resolve, mas é imprescindível um bom salário, principalmente no início da carreira, para atrair os jovens”, disse. Na visão dela, é preciso reintroduzir o profissionalismo na carreira dos docentes para que o “aprendizado dos alunos não entre em colapso”.

A presidente do Consed disse que melhorar os salários é importante, mas que só isso não irá melhorar a qualidade da educação. “Sabemos que a formação é frágil, mas precisamos acabar com esta imagem do professor coitadinho. Ele também precisa ser responsabilizado”, afirmou.

A secretaria de Educação de São Paulo e o diretor do Todos Pela Educação, Mozart Neves, destacaram que várias pesquisas já mostraram que não há relação entre o aumento do salário dos professores e a melhoria na educação. “O salário é uma variável importante, mas não é a única”, disse Mozart, que também integra o Conselho Nacional da Educação.

Na opinião da secretária de Goiás, se o Brasil aumentasse o salário dos professores e não fizesse mais nada pela Educação, a situação iria melhorar. “Não podemos fechar os olhos para a questão salarial. O professor hoje no Brasil não tem dinheiro para comprar livros, nem assistir a uma peça de teatro”, afirmou Milca.

A uruguaia Denise Vaillant, coordenadora do Programa de Desenvolvimento do Profissional Docente na América Latina e Caribe (Preal), destacou que a formação inicial do docente na América Latina não é muito diferente do que acontece no Brasil e alertou que há uma tendência em culpar o professor por todos os males da educação. “Os professores não são vítimas nem culpados. Eles apenas devem ser considerados como profissionais fundamentais para o desenvolvimento de um País. Ele são os maestros”, afirmou.

Leia as pesquisas

Formação de Professores Para o Ensino Fundamental: Instituições Formadoras e seus Currículos

Como os Sistemas Escolares de Melhor Desempenho do Mundo Chegaram ao Topo.

Visite o site do Programa de Desenvolvimento do Profissional Docente na América Latina e Caribe

Leia mais sobre o Seminário 2008 – Secretários Estaduais de Educação

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