by

Projeto mostra o descaso com boletins de ocorrência de adolescentes desaparecidos em SP

Três alunas do ensino médio da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo, fizeram um projeto de iniciação científica e  analisaram 185 boletins de ocorrência e descobriram erros que vão desde a falta de informações sobre a vítima, até a troca do sexo do desaparecido. O trabalho foi selecionado pela USP e agora vai ser levado para uma feira nos EUA.

Quantos jovens desaparecem em São Paulo todos os anos? Quem são eles? Onde eles moravam? Onde estudavam? Estes questionamentos motivaram três alunas da Escola Lourenço Castanho a produzirem um trabalho de iniciação científica sobre o tema. O esforço delas valeu a pena: elas conquistaram o 1° lugar na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia da USP (FEBRACE) 2018, na categoria Ciências Humanas, e agora embarcam nesta sexta-feira, dia 11 de maio, para os Estados Unidos, onde irão participar da 69ª Intel International Science and Engineering Fair (Intel ISEF 2018), uma das mais importantes feiras mundiais de trabalhos científicos para estudantes de Ensino Médio.

Antes da viagem, a delegação brasileira ficou na USP, em regime de concentração, se preparando para as apresentações. A Intel ISEF 2018 será realizada de 13 a 17 de maio, na cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia.

O trabalho “Cartografia dos adolescentes desaparecidos no triângulo da violência na zona sul da cidade de São Paulo em 2016”de autoria das alunas Ana Carolina Bueno Gonçalves, Beatriz de Souza Bim e Clara Helena Vicentini Ferreira do Valle, orientado pelo professor Ednilson Quarenta, também recebeu o prêmio Destaque do Ano 2018 na categoria interdisciplinaridade, concedido pelo Instituto de Ciências Moleculares da USP e o 1º lugar na Mostra Brasileira de Ciência e Tecnologia (MOSTRATEC) 2017, na área de Ciências Humanas.

Triângulo da violência

As alunas da Lourenço Castanho iniciaram a pesquisa em 2016 a partir da Cartilha de Enfrentamento ao Desaparecimento, produzida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo. Elas combinaram os dados com uma análise criteriosa das informações contidas em 185 boletins de ocorrência, referentes ao desaparecimento de adolescentes no chamado Triângulo da Violência, registrados nos distritos policiais dos bairros periféricos de Jardim Herculano, Capão Redondo e Parque Santo Antônio, na zonal sul da capital paulista.

Após um minucioso estudo que resultou na catalogação de todos esses dados, organizados a partir de subcategorias de análise, como gênero, cor, idade, escolaridade, região e presença da figura do pai, Ana, Beatriz e Clara iniciaram o processo de elaboração de uma cartografia étnico-social estruturada nas informações dos adolescentes desaparecidos na região.

A elaboração de um mapa com a identificação exata do local em que ocorreram esses desaparecimentos serviu de base para o cruzamento com outras informações, obtidas a partir de indicadores como o Atlas Socioassistencial da Cidade de São Paulo.

Desaparecimento x vulnerabilidade

Segundo a conclusão das estudantes, “evidenciou-se uma correlação entre o fenômeno do desaparecimento de adolescentes e a grande vulnerabilidade social intrínseca aos bairros periféricos”.

Ana Carolina conta que uma das maiores dificuldades foi articular as informações dos boletins de ocorrência com os demais dados. “Criamos algumas categorias de análise, como gênero, local do desaparecimento, idade, escolaridade, tabelamos este material e transformamos os dados em mapas e gráficos. Descobrimos, por exemplo, que 53% dos jovens desaparecidos em Jardim Herculano são pardos”, explica.

Beatriz diz que “se impressionou com a informação de que 21 mil pessoas são dadas como desaparecidas em São Paulo, a maioria adolescentes. “Começamos a nos questionar porque isto acontecia e porque precisamos dar uma atenção para este assunto. Não é um tema que está em debate na nossa sociedade hoje em dia”, afirma.

Clara destaca que a qualidade dos boletins de ocorrência é muito precária. “Teve casos de nomes masculinos serem registrados como femininos”, conta.

Iniciação Científica na escola

O trabalho de Iniciação Científica para os alunos do Ensino Médio da Lourenço Castanho começou em 2013, como um projeto piloto vinculado a uma matéria optativa, a OFA – Oferta Formativa Ampliada, ministrada pelo professor Ednilson Quarenta.

Em 2014, ele ampliou-se e começou a se constituir como projeto integrador da 2ª série do Ensino Médio. Em 2015, ele foi redesenhado e chegou ao formato atual, cujo principal objetivo é a alfabetização científica dos alunos.

O trabalho começa já na 1ª série e contempla a seleção de um tema, o recorte e a análise de um objeto investigativo e a apresentação dos resultados por meio de um relatório científico avaliado por uma banca examinadora. Este processo permite ao aluno de Ensino Médio vivenciar uma experiência típica da universidade.

Século XXI

Para a Lourenço Castanho, uma educação à luz da complexidade dos problemas do século XXI não pode prescindir das habilidades formativas que a iniciação científica proporciona. Identificar um tema de relevância social e acadêmica, ler sobre ele, traçar objetivos e metas, levantar hipóteses, estudar um problema e buscar respostas para ele não são aprendizagens restritas à educação básica. São aprendizagem que inserem os alunos do mundo global.

A Intel ISEF é realizada desde 1950 nos EUA. Participam projetos de 70 países. A classificação para participar do evento é feita pelas feiras parceiras – no Brasil são a FEBRACE e a Mostratec.

 

 

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterEmail this to someone