by

Quem sou eu? Quem somos nós?

Ao entrar no Ensino Médio, o aluno Tomás Lessa tinha curiosidade sobre como seria essa nova etapa do percurso escolar e sobre como ele lidaria com as novas matérias, principalmente Sociologia e Psicologia. “Queria saber quais temas seriam trabalhados e como os professores conduziriam a disciplina. Me disseram diversas vezes que eu me envolveria emocionalmente com as aulas”.

Logo no início do ano, os alunos são convidados a esse envolvimento com a disciplina. “Quem sou eu? Quem somos nós?” são as perguntas que abrem as aulas de Sociologia e Psicologia no 1º ano do Ensino Médio no Oswald. Promover uma discussão sobre o processo de construção do ser humano, tanto em sentido individual quanto social, está entre as prioridades do curso.

“É um espaço para os alunos refletirem sobre si mesmos e sobre essa construção da identidade num momento em que eles estão com vários questionamentos pulsantes, próprios da adolescência”, afirma Marcella Monteiro de Souza e Silva, professora de Psicologia, responsável pelo curso ao lado do professor de Sociologia Tarso Loureiro.

A fim de instrumentalizar o aluno para uma análise mais crítica da sociedade e para a percepção de sua responsabilidade dentro dela, as reflexões em sala de aula partem de conceitos da Psicanálise, no caso das aulas de Psicologia, e de Pierre Bourdieu, nas aulas de Sociologia.

Integrando as áreas do conhecimento

Até o fim de 2014, as aulas eram oferecidas separadas, mesmo que os professores já dialogassem com frequência sobre os temas trabalhados em cada curso nos momentos de planejamento. Percebendo a proximidade e as muitas possibilidades de construção conjunta, no início de 2015 o curso passou a ser integrado.

Na perspectiva da aluna Livia Nery, que participou do curso no ano passado, a conexão entre as aulas foi percebida como um ganho. “Somos indivíduos inseridos em uma sociedade, então vemos que Sociologia e Psicologia têm uma interdisciplinaridade muito forte, porque fomos entendendo como o psicológico do indivíduo pode influenciar como ele se comporta socialmente”, conta Livia, hoje no 2º ano do Ensino Médio.

Mesmo com a integração das aulas, os professores contam que uma das inquietações dos alunos é buscar uma separação entre os temas, entre o que seria “social” e o que seria “psicológico”. “Existe algo natural, uma essência do humano?”, “Tudo é determinado?” são algumas das perguntas que surgem nesse sentido.

O professor Tarso Loureiro conta que a intenção das aulas é justamente mostrar que quando se trata de refletir sobre a complexidade dos elementos que nos determinam, nos formam ao longo da vida, não é possível separar as experiências individuais e sociais.

Professor Tarso Loureiro durante aula de Sociologia

Professor Tarso Loureiro durante aula de Sociologia

Como exemplo Tarso fala um dos conceitos do sociólogo Bourdieu usado em aula: o “universo dos possíveis”. Ele diz que nós somos aquilo que é possível ser: ser uma mulher hoje, por exemplo, é muito diferente de ser uma mulher no século XIX, que é diferente de ser mulher em sociedades não ocidentais. “Nossos objetivos têm a ver com ir percebendo esses condicionantes sociais na formação do indivíduo através dessas realidades”, afirma o professor.

Escrita de si

O conhecimento da realidade de outros tempos para melhor entender o presente também é foco do curso de Produção de Texto, que está em constante diálogo com os conteúdos trabalhados em Psicologia e Sociologia. Na disciplina, oferecida pelo professor Evandro Rodrigues, os alunos são convidados a transformar suas experiências pessoais em assuntos de escrita.

Como inspiração e referência para as produções textuais, os alunos entram em contato com obras escritas em primeira pessoa e que têm a adolescência como tema central. É o caso Sofrimento do jovem Werther de J.W. Goethe, Indignação de Philip Roth e Niétotchka Niezvânova de Fiódor Dostoiévski.

No caso deste último, os estudantes conhecem a história da personagem desde a infância até a vida adulta, passando por temas como a ambiguidade de sentimentos em relação aos pais, o desamparo e as escolhas afetivas que definirão seu destino.

O romance russo iniciado em 1842 chamou a atenção do aluno João Zocchio durante o primeiro ano do Ensino Médio. Em uma das avaliações do ano letivo, ele e seus colegas precisavam relacionar a narrativa às aulas de Psicologia e Sociologia. “O que ficou de mais marcante de aulas sobre esse livro foi a relação entre a obra de Dostoiévski com as posteriores descobertas da Psicanálise de Freud, com muitos conceitos básicos como realidade psíquica e alguns dos mecanismos de defesa do ego, como repressão, projeção, racionalização, negação, introjeção e sublimação”, conta João.

Reflexões contínuas

Se “quem sou eu?” e “quem somos nós?” são as perguntas que abrem e norteiam o curso de Psicologia e Sociologia, elas estão longe de se esgotar ao final do primeiro ano do Ensino Médio.

Nas aulas de História do segundo ano, quando o tema era “etnocentrismo”, a aluna Livia Nery conta que em diversos momentos fez relações com o que ela havia estudado em Sociologia no primeiro ano. “Estávamos aprendendo a enxergar como vemos a cultura dos outros a partir dos nossos valores, da nossa cultura e sociedade, e as aulas de Sociologia com o Tarso também traziam esse olhar”, afirma.

A professora de Psicologia Marcella Monteiro de Souza e Silva conta que muitos questionamentos também se perpetuam e se tornam objeto de pesquisa na disciplina de Teses do Oswald, proposta pedagógica em que os alunos do 2º ano do Ensino Médio elaboram uma monografia a partir de um tema de interesse.

Professora Marcella Monteiro durante aula de Psicologia

Professora Marcella Monteiro durante aula de Psicologia

Uma das alunas orientadas por Marcella na disciplina de Psicologia Social das Teses deste ano está pesquisando os motivos do aumento do suicídio entre os adolescentes na sociedade atual. Durante as investigações sobre o capitalismo e o mundo do trabalho, a aluna recordou-se dos cursos do último ano, localizando falas de um livro trabalhado em aula e relacionando-a ao tema de sua pesquisa.

Marcella acredita que as problemáticas trazidas pelos alunos nas Teses relacionam-se com a integração das disciplinas de Sociologia e Psicologia, proposta desde o ano passado. “Os temas que eles trazem têm me chamado bastante a atenção e vejo isso como um reflexo de como os alunos internalizam essas duas áreas, de modo a ver o mundo não mais em caixinhas separadas, mas com um diálogo interno constante”, afirma.

 

Texto originalmente escrito no Blog do Oswald em O Estado de S. Paulo