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Reformas atiçam formigueiros secundaristas em SP e no Rio

“Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com formiga não atiça o formigueiro”. Eram 7h38 da manhã quando um grupo de pouco mais de 100 estudantes transformou a canção, de inspiração indígena, em grito de ordem no cruzamento da rua Maria Antônia com a avenida da Consolação, centro de São Paulo. Era uma das primeiras manifestações de alunos egresso  de algumas das 233 escolas privadas da cidade que paralisaram suas aulas na manhã de sexta-feira.

Colégio Equipe

Aquela mobilização, que partiu do Colégio Equipe, em Higienópolis, centro de São Paulo, foi desmanchada por bombas de gás lacrimogênio. Foram lançadas contra estudantes que, de mãos dadas, entoavam brados contra a violência diante da tropa de choque da PM. A greve acabou, mas os formigueiros da classe média alta nas duas principais cidades do país permanecem atiçados.

A adesão dos professores ao movimento, que atraiu muitos alunos às ruas, dividiu os pais e alunos. Com adesivos no peito #28EuParo, patrocinados pelo sindicato de professores das escolas privadas, os secundaristas não deixaram dúvidas sobre os laços que os motivaram a sair de casa naquela manhã de 15 graus, sob garoa. “O professor é meu amigo, mexeu com ele mexeu comigo” disputou o topo do ranking dos gritos de ordem dos secundaristas, a grande maioria sem participação prévia em manifestações do gênero.

Em duas escolas, Santa Cruz, em São Paulo, e São Bento, no Rio, as pressões contra os professores levaram pais a se mobilizar em petições públicas de apoio ao corpo docente. Em São Paulo, professores se revezaram em aulas públicas para os alunos, numa reprise da prática que, no ano passado, marcou os protestos contra reforma proposta pelo governador Geraldo Alckmin para a rede estadual. Na mesma manhã, alguns pais foram ao Santa Cruz para deixar mensagens contra o movimento. Fitas brancas, amarradas a grades, esticaram a corda: “É mais coerente lecionar na periferia, ou não?”, “Fantoches do PT e da CUT”, “Não à doutrinação do colégio”.

À noite, depois que um grupo de black blocs se valeu da passeata que deixou o Largo da Batata em direção à casa do presidente Michel Temer, para promover depredações no bairro, a revolta dos pais contrários à greve aumentou. Muitos deles assistiram às depredações das janelas de suas casas. A casa de Temer fica a 500 metros do Santa Cruz, em Alto de Pinheiros.

Ao longo das últimas semanas que precederam a greve geral, as escolas de São Paulo já estavam sacudidas pela manifestação da direção, do corpo docente, de pais e de alunos, contra e a favor da paralisação. Além dos professores do Santa Cruz, docentes de outros colégios católicos, como Sion e São Luís, também respaldaram-se em pronunciamentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do papa Francisco. Conseguiram mais unidade do que colegas de estabelecimentos laicos, como Porto Seguro e Bandeirantes. Em redes sociais, os alunos e, principalmente, os pais começaram a se dividir, nem sempre civilizadamente, em relação ao corpo docente das escolas.

Manifestações como aquelas de 2013 se medem pela quantidade de pessoas que vão para a rua. Greve geral como a de sexta-feira se mede pelo grau de paralisação do país. A mobilização de estudantes não foi determinante para a amplitude da greve geral, cujo eixo foi a paralisação do transporte público.

Reformas

O punhado de estudantes que foi às ruas não representou ameaça à estabilidade do governo como em 2013, mas ofereceu um resumo dos formigueiros enfrentados pelo discurso do governo Michel Temer em defesa das reformas. Prejudicados (professores) mobilizaram o apoio daqueles que, potencialmente, o discurso do governo aposta serem beneficiários (estudantes) no futuro por uma seguridade mais saneada. Datafolha divulgado ontem mostrou que a maior oposição à reforma vem dos mais jovens e escolarizados.

Era possível encontrar entre os estudantes que foram às ruas na sexta-feira quem aceitasse o argumento de que a Previdência não se sustenta até meados do século, quando aquela geração se aposentará, sem reformas. Mas naquele extrato a ideia de que o projeto em tramitação no Congresso garantirá o futuro de sua geração é uma batalha, no momento, perdidaO rescaldo da greve geral em setores mais abastados de São Paulo demonstra que a intenção do governo em identificar grevistas como partidários do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à CUT ou ao MTST não surtiu efeito. A polarização mostrou visões divergentes sobre o direito de manifestação e não revelou divisões binárias que permita situar os os contendores nos 10% que apoiam o governo Temer.

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