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Reunião de pais melhora o aprendizado do filho na escola

A orientadora educacional Luciana Fevorini, diretora do Colégio Equipe, em São Paulo, fala sobre a importância da reunião dos pais e mestres no aprendizado dos filhos, em entrevista à rádio trans mundial. Ela comenta também sobre uma lei em tramitação no Congresso que torna a reunião obrigatória para os pais.

Rádio: As reuniões de pais normalmente são maçantes?

Luciana: Na minha pesquisa de doutorado constatei que muitos pais acham a reunião de pais chata. É uma pena. Acho que tem vários motivos para isto. Um deles é que as escolas falam demais de assuntos genéricos, como regras, e acabam desinteressando os pais. E não falam tanto do aprendizado das turmas. Muitas vezes na reunião também os pais perguntam dos filhos e não se cria um ambiente coletivo de reflexão sobre o processo de aprendizagem. Então são estes dois os principais motivos de os pais acharem chato. Mas a ouvinte tem razão: as reuniões são fundamentais para os pais acompanharem o processo de aprendizagem dos filhos. Nas minhas pesquisas, quando os pais se interessam pelo aprendizado, em geral os filhos tendem a ter um bom resultado na escola.

Rádio: Como tem sido as reuniões na escola: Há um padrão nacional de como deve ser a reunião?

Reunião de pais para falar de projetos

Luciana: Não tem padrão e as escolas fazem reuniões de maneiras diferentes. Um jeito possível é os coordenadores e professores ficarem a disposição dos pais. O que acontece às vezes é quando muitos alunos vão mal e a fila de pais fica muito grande e alguns desistem de conversar. Mas as escolas precisam perceber que a reunião não é apenas para saber sobre o aluno. Ela tem que mostrar os objetivos do semestre ou bimestre, o que a escola espera alcançar com a turma, que trabalhos irão desenvolver. Precisamos falar mais do ponto de vista do projeto para frente e não do resultado para trás. Estas questões de notas e desempenho que não forem atingidos pelos alunos, aí sim as famílias são chamadas para conversas individuais. Estas questões de dificuldades de aprendizagem devem ser individualizadas. Um motivo de um aluno ir mal não é o mesmo motivo de outro aluno ir mal. E coletivamente os pais também dever ter uma referência. Por exemplo, se muitos alunos forem mal de matemática, então não é uma questão apenas do meu filho. Nas questões de boletins, as reuniões devem ser individuais. Assim, os pais conseguem acompanhar o que está acontecendo com a turma do filho e com o filho. Eles sabem onde a escola pretendia chegar e onde o filho dele está chegando. Agora está sendo divulgado o currículo mínimo nacional, que é uma referência para as famílias também saberem o que o filho está aprendendo em cada ciclo, em cada série e poder fazer este acompanhamento.

Rádio: E sobre a tramitação desde projeto de lei que pode penalizar os pais que não acompanham a vida escolar dos filhos. O que você pensa sobre isto?

Luciana: A ideia de valorizar a presença da família na escola é importante, mas eu não sei se este é o caminho certo, de penalizar os pais. Muitas escolas fazem reuniões em horário de trabalho dos pais. Até existe uma lei em São Paulo que os pais podem pedir licença do trabalho para irem a reunião dos filhos. Acontece que em muitas situações os pais não se sentem a vontade para fazer este pedido. Então ele acaba não indo. É importante que a escola tenha flexibilidade de fazer as reuniões em outros horários. Há pouco eu tive a chance de conversar com diretores de escolas do Brasil inteiro. Eu conversei com um diretor de uma escola do interior do Pará que conseguiu chamar os pais para a escola. Eles não iam para as reuniões nem quando era à noite. Ele resolveu fazer, além das reuniões dos pais, outras atividades, como eventos culturais e sociais. E aí os pais iam para estas atividades e também para a reunião. Cabe às escolas pensarem em movimentos que tragam as famílias para a escola independente só da reunião, para falar estritamente do aprendizado. Na escola onde eu trabalho os pais são interessados e vão às reuniões. Mas na diversidade e no tamanho do Brasil cabe às escolas pensarem em estratégias para chamar as famílias. Agora, do ponto de vista da punição, eu considero uma estratégia mais extrema.

Rádio: Como você vê o ensino brasileiro hoje?

Otimismo

Luciana: Ainda temos muitos desafios a fazer. E temos alguns avanços. Do ponto de vista não prático, uma das coisas mais importantes é valorizar o ensino. Saber que ele é uma ferramenta de transformação social importante. Eu tenho contato com muitas escolas públicas que fazem um trabalho de qualidade com professores e diretores bastante envolvidos na atividade de educar, o que é muito satisfatório. É claro que isto ainda não faz parte de um sistema. Há muitas experiências ainda um pouco desarticuladas. Mas estas experiências somadas podem dar corpo para as escolas do sistema educacional público brasileiro. Eu sou otimista. Quando os alunos gostam dos professores a tendência dos pais também é ter uma relação afetiva positiva com o professor do filho. É muito importante o contato do pai com o professor. Este é um dado da minha pesquisa de doutorado. Os pais querem saber quem são os professores dos filhos. E as vezes acontece o contrário. Um aluno não gosta de um determinado professor e o pais vai conversar com ele e gosta. Isto também pode mudar a relação daquele aluno com o professor. No ensino fundamental 1, onde o professor é polivalente, isto também acontece. Elas estão presentes em praticamente todas as reuniões de pais, mas quando começa o fundamental 2 e ensino médio, nem sempre este contato acontece. É importante as escolas saberem que é legal ter este contato sempre, mesmo no ensino médio.

Rádio: Como você avalia situações nas quais os pais falam muito e deixam outros pais frustrados?

Luciana: Quem coordena uma reunião de pais não pode ter medo de coordenar. Tem quer cortar quando uma pessoa está excedendo o tempo e passar a palavra para o outro é um exercício importante. Outra coisa é a escola mandar a pauta da reunião antecipadamente para os pais, por carta, ou email, e pedir uma inclusão de pautas se achar necessário. Não está programada, por exemplo, falar sobre a cantina. Mas a família está preocupada com a cantina. Então quando a escola recebe de volta estas respostas, a coordenação da reunião já tem como incluir esse assunto em pauta e organizar o tempo para que estes assuntos sejam colocados. E um aprendizado, é um pouco difícil, mas quando tem uma boa coordenação, os pais gostam da reunião.

 

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