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Será que os bebês entendem a contação de histórias?

A educadora e especialista em primeira infância, Ana Paula Yazbek, diretora do Espaço da Vila, conversa sobre como os bebês entendem a contação de histórias, em entrevista à jornalista Gabriela Viana, da rádio CBN.

Segundo ela, “os bebês entendem tudo o que a gente faz com eles”. “A situação de leitura de história tem muito significado e de muita troca. E o bebê entende muito bem estas trocas”, diz ela.

Ouça a íntegra da entrevista 

Leia a íntegra

CBN: Quais os motivos da importância da leitura na primeira infância?

Ana Paula Yazbek: A leitura traz uma outra relação com o tempo. A rotina da criança é marcada por muitos comandos, troca de fraldas, tomar leite, vai dormir, etc. E na leitura de uma história, o tempo é de uma outra dimensão. É o tempo do era uma vez…, a voz do adulto é com uma outra melodia, um outro ritmo. E há também muita troca de afeto, muito contato e, além de tudo, contato com uma linguagem enriquecida. Isto é muito significativo e importante.

As mudanças na voz e na feição do adulto também atraem a criança?

Sim, com certeza. Toda esta melodia, esta dramatização, que não precisa se carregada de coisas esteriotipadas, mas que cada uma vai encontrando o jeito mais confortável ao ler e modular sua voz e suas feições, isto faz com que a criança decodifique o mundo de uma outra maneira.

Tem alguma estratégia que os pais podem usar, por exemplo, quando a criança não gosta de ouvir histórias? Quando ela já é um pouco mais velha?

São várias as possibilidades. Uma delas e tentar ir para uma temática que atraia a criança e, ao mesmo tempo, ampliar este repertório. Se a criança gosta de heróis, por exemplo, pensar em algumas histórias em que os heróis aparecem, preferencialmente, que não sejam os heróis comerciais, e que apareça esta temática. Vencer o outro, superar e criar espaços de diálogos com a criança sobre a história. Não precisa ser algo maçante e uma obrigação. Tudo que está em um contexto obrigatório realmente acaba tendo uma maior resistência. Mas se é algo que integra as pessoas é muito mais fluído e gostoso.

Existe alguma estratégia para cada fase desta primeira infância?

É possível que você faça leituras que partem do cotidiano da criança. Boas histórias que falam de boas situações de sono, sobre a chegada de um bebê. E fora isso, as cantigas, neste início da vida, tem muito esta potência das narrativas. Elas contam histórias com uma melodia que é interessante para os bebês.

É bom usar os brinquedos da criança para contar histórias?

Sim, pode ter este tipo de encenação, de brincadeira. Pode ter também contar história da chegada do bebê, como foi receber este bebê em casa, das trocas de olhares, o que você está sentindo por ele, então é uma jeito de contar história.

E quando a criança está chegando no primeiro ano de vida, precisa de um outro jeito de contar história?

Ouvir a historia de vida todo mundo gosta ao longo da vida toda.  É possível ir acrescentando algumas coisas. A partir dos seis meses, a criança começa a estabelecer uma relação com o livro. O livro é a princípio mais um objeto que a criança tem na sua frente, que ela pode olhar, mexer, abrir, morder, tocar, mas quando há a mediação de um adulto aquele livro traz outras coisas. Ele traz aquelas imagens que foram colocadas ali, ele traz a narrativa que ele tem, e conta coisas sobre a vida. As histórias trazem uma percepção de mundo. Quando um bebê tem este contato frequente com os livros, ao se depararem com estes livros, mesmo que não estejam com um adulto por perto, em geral eles vão se deter, seja nas imagens, seja nesta memória melódica do que foi falado para eles, seja também nos sons que eventualmente possam sugerir, porque tem imagens de animais ou coisas que façam barulho.

Quando a criança está entra 1 e 2 anos ela já mostra o que quer ouvir de história?

Com certeza. Ela começa a saber mais sobre aquilo que gosta, aquilo que a atrai. Ela vai em busca disso. É muito interessante que as famílias tenham por hábito frequentar livrarias, bibliotecas, que as escolas e os berçários tenham isto como uma prática diária e cotidiana porque isto faz muita diferença para a criança. Ela vai ampliando seu repertório não como um consumo de repertório e sim porque ela vai se abastecendo de outras representações de mundo. Isto é muito significativo.

Isto é uma forma de reforçar também a comunicação? E reforça ela a contar o que ela vive?

Este é uma maneira da criança representar aquilo que ela vivencia. Quando as crianças pegam um livro elas começam a falar parte daquela narrativa e apresentam para o amigo “olha o sapo da boca grande” e começa a contar sobre isto. E as outras crianças começam a se aproximar. Ai muitos pensam – “mas eles são muito pequenos, qual o sentido do que isto tem para eles” – estas cenas nos dizem o quanto isto tem um sentido.

Tem aquela fase dos 4 aos 6 anos em que a criança começa a repetir as histórias. Como fazer para que aquela história não fique chata e ao mesmo tempo ela também se sinta estimulada a participar da história?

Uma das coisas que a gente pode pensar é a necessidade da criança de ouvir sempre a mesma história porque aquela história está contanto coisas importantes e ela que reencontrar aquilo. Então, às vezes, a criança está em uma fase que está sentindo muito medo e é uma história de um lobo muito mal, só que ela encontra este lobo em um espaço de segurança porque ela ouve aquele lobo, ele faz muitas coisas perigosas, malvadas, mas de repente acontece algo que aquele lobo se transforma, se resignifica ou ele continua muito mau, mas ela está lidando com este medo dela em um terreno muito seguro. Ela não está ameaçada. Ela está lidando com este medo simbolicamente, podendo enfrentá-lo de muitas maneiras.

Tem aquela fase que a criança começa a perguntar o que acontece. Como os pais podem fazer?

As perguntas das crianças nem todas precisam ser respondidas. É um convite a pensar junto. Quando ela pergunta – por que ele fez isto? – a gente pode responder – por que mesmo?, por que será que alguém faz uma coisa deste tipo? – e aí pensando nestas possibilidades. É muito importante que as histórias tragam uma abertura. Existiu durante muito tempo, e ainda existe infelizmente, a existência de história moralizadoras. O que se aprende com esta história? É mais interessante pensar quais as possibilidades de relação com o mundo que esta história nos dá. Que os enredos não tenham o mesmo tipo de final. Eles podem ter final felizes, finais divertidos, imprevisíveis, tristes. A tristeza faz parte da vida. É do humano. E a gente encontrar tristeza neste viés narrativo é encontrar com coisas que a gente muitas vezes não está conseguindo lidar e que é importante poder lidar e poder falar sobre isto.

Nossa ouvinte Carolina Pereira pergunta: as histórias de princesas e príncipes contribuem ou podem ser prejudiciais para a criança a longo prazo na construção do modelo ideal de amor?

É interessante pensar nos contos de fadas. Eles são um pouco mais amplos do que príncipes e princesas. Existem as bruxas, os magos, os animais falantes, existem muitas coisas que estão perpassando nas histórias. Este mito do amor romântico é um mito da humanidade. Podemos discutir isto quando as criança são um pouco maiores. “E viveram felizes para sempre…” O que pode ser para felizes sempre? O que será que aconteceu depois que eles conseguiram superar aquele dilema que a história contou?

E fazer a criança contar uma outra história em cima daquilo?

Pode ser também.

Criar história na hora de dormir também é uma forma de estimular a criatividade dela e ela contar a sua própria história?

Vamos pensar que a hora de dormir é uma hora em que começamos a entrar em contato com a gente, com o que sentimos e gostamos. Quando as crianças são pequenas, muitas vezes parecem que tem o efeito contrário. Ficam extremamente excitadas antes de dormir, cantarolam, fazem mil coisas e, de repente, adormecem. É um jeito da criança, do que ela viveu naquele dia e de um outro jeito. Então criar história pode ser uma outra possibilidade, mas sabendo que é um jeito muito diferente desta criação de história, da literatura. A gente tem que oferecer boa literatura para as crianças e também muitas oportunidades de conversa com elas.

Na sua experiência como educadora, você já consegue diferenciar as crianças que tem a literatura na rotina da família e as que não tem, com alguma experiência de atenção, da capacidade de comunicação?

É interessante pensar que no início da vida as coisas são muito diversas, não são tão visíveis assim. Não necessariamente uma família que lê para o filho tenha um filho mais articulado que uma família que a criança não ouve muitas histórias. Mas independente disso, é muito significativo que as crianças tenham esta oportunidade de ouvir boas histórias. No meu percurso como educadora eu percebo que há uma diferença significativa entre crianças de classe social mais favorecidas das crianças com nível socioeconômico menor. Mas existem muitos lugares que fazem trabalhos excepcionais com as crianças e famílias que se preocupam com isso independente do nível socioeconômico.

Um ouvinte diz: acho este assunto muito interessante; realmente o contado das crianças com histórias e livros é muito produtivo para o conhecimento; tenho na minha família esta verdade. Tenho três filhos e meu filho Artur, quando era pequeno, com 2 anos, gostava de frequentar as bancas de jornais e adorava as revistinhas da Turma da Mônica. E hoje, aos 28 anos, ele é apaixonado pela leitura e também pela escrita. É uma forma de estimular isto ao longo da infância para a adolescência e a vida adulta?

Sim. Poder ter este contato frequente com livro. Muitas vezes a pessoa é adulta e diz “eu não leio, não gosto de ler, é muito parado” é porque não tem a experiência de abrir um livro e se deixar levar por aquelas palavras. Quando a gente lê um livro, a gente fica amigo dos personagens, a gente briga com os personagens, a gente vai perseguindo alguns autores e aqueles autores se tornam pessoas quase conhecidas da gente. Então é importante desmistificar um pouco este disponibilidade, “deixa eu ver se venço este desafio” porque  a gente, como adultos, está o tempo inteiro lendo, lendo no celular. Mas são coisas muito fragmentadas. E de novo eu falo: as narrativas trazem outro tempo, uma outra relação e isto faz bem para a vida de todos nós.

Uma pesquisa de 2017, realizada pela fundação Maria Cecília Vidigal, mostra que 40% dos pais brasileiros ignora o potencial de desenvolvimento dos bebês até os 6 meses. Com o resultado desta pesquisa em mãos, a fundação se uniu com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a fundação Itaú Social para poder orientar pais e escolas para incluir a leitura no cotidiano das crianças pequenas; e receitar livros já passou a ser uma recomendação médica pela Medical Academic Pediatric e  pela SBP que orienta os pediatras. Elas promover a leitura durante as consultas oferecendo livros infantis no consultório. Tem algum livro que você percebe que é a preferido das crianças?

Eu observo no Espaço da Vila que as crianças tem uma relação muito amplificada com as histórias. Atualmente a gente está com um livro sobre o animal mais feroz. É um livro que tem imagens muito bonitas e o texto vai se compondo junto com as imagens. Então a gente percebe que as crianças estabelecem esta relação entre texto e imagem. Existem muito bons livros. Há estas narrativas atuais para crianças pequenas nas quais os textos e imagens dialogam muito bem. Estas são as preferidas, independente das temáticas que elas trazem.

Um mensagem do ouvinte Tiago Oliveira: tem histórias tradicionais que podem apresentar alguma insegurança para os pais quando trazem fatos violentos, como por exemplo, no caso do Chapeuzinho Vermelho, o lobo come a vovozinha. Isto pode ser muito violento para uma criança. No caso da Bela Adormecida, existe a figura da madrasta. Como explicar isto para as crianças e é preciso explicar isto para as crianças?

As crianças vão perguntar se for preciso. Este é a grande questão que aparece. É lidar com medo no espaço de segurança. Temos que ser sensíveis para como a criança está se relacionando com esta situação. Existem crianças que ficam com muito medo. Então para estas crianças a gente deve ter um cuidado maior. Selecionar outros textos. Mas algumas crianças buscam isto. Então a gente pode ir alimentando, nutrindo e vendo porque ela está querendo tanto enfrentar este medo ou sofrer as consequências, ser o mocinho, ser a vilã da história. É importante perceber um pouco isto. E saber que não são somente os contos de fada que existem. Existem muitas outras histórias, os contos de tradição oral, que não são os contos de fada; existe uma literatura brasileira que tem muita qualidade, de ótimos autores nacionais que falam muito sobre esta identidade brasileira. É algo importante para a gente sempre cuidar e valorizar.

E como a gente escolhe as histórias para as crianças de acordo com a fase que elas estão?

A princípio, tudo pode ser lido para todos. É um critério básico. Mas a gente tem que ir realmente olhando. Ter o hábito de frequentar livrarias e bibliotecas vai fazendo que você perceba aquilo que atrai as crianças. De preferência nunca ir para aqueles livros que estão expostos, extremamente coloridos e cheios de sons, são livros em geral mais caros. Estes não são os melhores textos para as crianças. É começar a olhar: quais são os autores nacionais mais reconhecidos, o que aparece como indicação em revistas de qualidade, que tipo de temática que atraia as crianças, como estas ilustrações são feitas, quem são estes ilustradores. Tem que se informar e buscar esta informação. Existem muitos veículos que publicam informações de qualidade sobre literatura. Buscar isto não de uma forma arrogante. Mas existem bancas enormes em shopping centers que precisam ser evitados porque geralmente não tem livros de qualidade.