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Soluções para o ensino médio

Estagnado desde 2011 no Ideb, com evasão acima de 12% e considerado “desastroso” pelo Ministério da Educação, o ensino médio é a etapa mais problemática da educação brasileira. Há soluções? O MEC aposta que a reforma do ensino médio e a Base Nacional Comum Curricular desta etapa, que ainda está em debate, irão reverter este quatro. Apesar deste cenário ruim, experiências bem sucedidas em algumas escolas brasileiras comprovam que o ensino médio poder ser atraente para o aluno e também ser conectado com o mundo acadêmico e do trabalho.

Colégio Equipe

Em São Paulo, o Colégio Equipe vive uma experiência curricular chamada Projeto Coletivo do Ensino Médio, na qual os alunos das três séries do ciclo se reúnem para discutir temas de interesse deles com especialistas, professores e entre eles mesmos. Neste ano, após conversas em todas as salas de aula, diversas temáticas foram levantadas e organizadas, resultando na formulação da seguinte questão: Transformação social é possível?

Na próxima semana, entre os dias 17 e 21, haverá três mesas com convidados para debater junto aos alunos os seguintes temas: Violência e exclusão social, Novas formas de produção e Política no cotidiano.

Além das mesas, ocorrerão oficinas entre os próprios alunos e com artistas da periferia, que irão mostrar seus trabalhos e processos criativos, além de propor aos alunos a vivência coletiva de produções artísticas em diferentes linguagens, como teatro, artes visuais, música e literatura. A reforma do ensino médio também fará parte dos debates.

Clique e veja como serão as mesas, oficinas e o currículo dos convidados do projeto Coletivo do Ensino Médio do Equipe

Segundo a diretora Luciana Fevorini, a ideia de unir todos os alunos do ensino médio é “romper” com a organização cotidiana por série. “Nosso objetivo é que nossos estudantes encontrem, no ambiente escolar, espaços que favoreçam a troca de conhecimentos e experiências, conduzindo-os a reflexões sobre temas com que se mostram especialmente sensíveis e mobilizados”, destaca.

Liceu

Uma das propostas da reforma do ensino médio é que a formação técnica e profissional seja um dos cinco itinerários formativos que as escolas poderão oferecer aos alunos. O Liceu de Artes e Ofícios, em São Paulo, avaliado pelo Enem como a melhor escola técnica do Brasil, já tem este modelo. Oferece cursos de Ensino Técnico Integrado ao Médio de Multimídia e Eletrônica (grátis); Ensino Técnico Concomitante ao Médio de Automoção Industrial, Edificações e Desenho de Construção Civil (grátis) e Ensino Médio (pago).

No modelo integrado, o aluno faz os dois cursos ao mesmo tempo. Já no modelo concomitante, o estudante cursa o ensino médio normal em um período (em qualquer escola) e o técnico em outro período. Nos dois casos, ele sai com o diploma dos dois cursos. Todos os currículos dos cursos técnicos são voltados para o mercado de trabalho e profissões carentes de profissionais capacitados.

Vilson Cardoso, aluno do técnico em eletrônica, diz que o curso o ajudou a escolher a graduação na universidade. “Além de me sentir preparado para entrar no mercado de trabalho e para a minha carreira, o curso me ajuda a conhecer o que é eletrônica, já que pretendo fazer engenharia eletrônica”, afirma.

O curso técnico de multimídia oferece como campo de atuação produtoras de áudio, vídeo e internet, empresas que desenvolvem conteúdos para educação à distância e automação de mídias interativas. Natália Cavalcanti é ex-aluna do Liceu e hoje trabalha como auxiliar nos laboratórios de multimídia da escola. Ela lembra a importância do curso para a sua formação. “Eu faço faculdade de rádio e TV e quando entrei já conhecia praticamente tudo do curso. O curso técnico não ensina apenas para o vestibular, mas para a vida também”, afirma Natália.

Liceu Tech

Neste segundo semestre, o Liceu de Artes e Ofícios lançou o Liceu Tech, unidade com cursos de tecnologia de última geração: Internet das Coisas, Lógica Programável e Projetos de Placas de Circuito Impresso. Estes cursos são abertos e podem ser feitos por qualquer pessoa. O coordenador de inovação e tecnologia do Liceu Tech, Alessandro Cunha, explica que o objetivo é priorizar “áreas com uma grande carência de profissionais capacitados em soluções de tecnologia avançada”.

Lourenço Castanho

Na Escola Lourenço Castanho, também em São Paulo, o ensino médio oferece vários itinerários formativos, com conteúdos, projetos e atividades que sempre atraem os alunos. São palestras de orientação profissional, preparação para exames internacionais e de intercâmbio, muita tecnologia com aulas de programação e robótica e um núcleo de projetos sociais – recentemente, os alunos participaram de um mutirão para melhorar o prédio da oncologia da Santa Casa.

O ensino médio da escola tem ainda as chamadas “Ofertas Formativas Ampliadas”, com produção de música, preparação para olimpíadas de matemática, criação de conteúdos jornalísticos para mídias sociais, astronomia, entre outros.

Segundo o diretor da Lourenço, Alexandre Abatepaulo, a escola tem uma visão ampliada do currículo. “Fortalecemos a conexão com a realidade do mundo em que vivemos e criamos ambientes de aprendizagem que favoreçam o desenvolvimento dos talentos, a superação das dificuldades e a aprendizagem em rede, mediada pelos próprios estudantes ou por adultos, membros da escola ou de outras organizações”, explica.

Para 2019, a Lourenço vai lançar o projeto “Vivências Interculturais Ampliadas” que será oferecido no Ensino Médio e também no Ensino Fundamental 2. Serão dois eixos com a intenção de ampliar o ensino do Inglês: Language Arts e Nature & Society. Haverá aulas de design thinking, literatura, música, teatro, noções de engenharia, ecossistemas, sociedade, entre outros. Outra novidade é o Tutored Project, no qual os estudantes serão incentivados a elaborarem projetos pessoais.

Instituto Singularidades

O CEO do Instituto Singularidades, Miguel Thompson, sugere aos professores mais proximidade com a realidade dos jovens. “O professor tem de estudar, conhecer seus alunos, entender as línguas que falam, suas culturas. Tem de trocar ideias, e saber fazer uma curadoria que vá aproximando os conhecimentos prévios dos alunos, e suas habilidades com determinadas ferramentas, com o repertório de conhecimentos importantes para o desenvolvimento deles”, diz.

Miguel cita o pensador Lev Vygotsky e sua teoria da zona do desenvolvimento proximal, quando o aprendiz já tem um conhecimento consolidado, e cabe ao adulto mediador (professor) oferecer o contato a outras linguagens, estratégias e ferramentas que aproximem o jovem de conhecimentos mais aprofundados. “Não tem ciência. Se os alunos gostam de youtubers, HQs, utilizam WhatsApp e gostam de hip-hop, o professor têm de utilizar esses canais para dar o engate ao desenvolvimento acadêmico do aluno”, diz o CEO do Singularidades, instituição de ensino superior especializada na formação de professores.