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‘Trump não devia fazer um muro e gastar com coisa melhor’, diz Nuno, 11

Nuno Dias Venturi, de 11 anos, aluno do Colégio Ítaca, fala sobe política internacional e nacional em entrevista para a Folha de S. Paulo

Nuno Dias Venturi, de 11 anos, aluno do Colégio Ítaca, fala sobe política internacional e nacional em entrevista para a Folha de S. Paulo

 

 

PAULO SALDAÑA
DE SÃO PAULO

Nuno Dias Venturi, de 11 anos, escolheu torcer pelo Botafogo atraído pelas cores preto e branco e pela estrela solitária. Seu desejo é, no futuro, ser engenheiro –e poder continuar jogando futebol.

Atualizado sobre as discussões no Brasil e no mundo, ele defende medidas imediatas contra o aquecimento global e se diz contra um muro entre Estados Unidos e México. “Deveria gastar com coisa melhor”, diz ele, sobre a ideia do presidente Donald Trump.

Para Nuno, nenhum país se une para se ajudar. “Não dá pra ser assim, uma pessoa ser “ricona”, ter tudo, e outra não ter nada, nem uma comida pra comer”, diz ele, refletindo sobre a desigualdade. Entretanto, ele guarda otimismo. “Estamos longe, mas a gente está tentando.”

Aluno do no 5º ano do colégio Ítaca, no Butantã, zona oeste da cidade, ele mora a poucos minutos da escola com o pai (professor universitário), a mãe (jornalista) e um irmão de 13 anos. Diferente da maior parte de seus colegas, Nuno não tem celular ou tablet, apenas um computador que compartilha.

Chegou a ter um tablet no passado, mas ele quebrou. Hoje, ele não vê necessidade de outro. Mas como se informa? Ele diz que com os telejornais, discussões na sala de aula e na nas conversas de família.

Nuno, a gente tá aqui na escola, na biblioteca. Você gosta de estudar? O que te motiva a vir pra escola?
Ah! Eu gosto. Venho pra ver os amigos, mas também pra estudar, pra saber mais, pra completar o que eu já sei. Tenho muita coisa pra aprender.

E quais são suas matérias prediletas?
Matemática e atualidades. Gosto de saber sobre o que tá acontecendo no mundo pra saber as minhas opiniões.

E a sua família? Você conversa sobre sua opinião com eles?
Ahã! Eu moro com meu pai, minha mãe e meu irmão de 13 anos. Meu outro irmão tem 34, minha irmã tem 27 e a outra também 27. Os três não moram comigo, mas todo domingo a gente se reúne em família e fala sobre o que tá acontecendo, sobre a vida de cada um. Só minha irmã está mais distante no momento.

E qual tem sido o tema da conversa da família?
Temer. Todo mundo acha que ele é um “roubão”, e eu também acho. É um governo inútil, que não faz nada.

E você acha, olhando a situação política do país, dá pra ser otimista? Como você vê os próximos meses, anos?
Ah! Com Temer o negócio tá ruim. Acho que tem que tirar ele logo, senão vai dar mais problema.

E em relação ao mundo, qual você acha que é o principal problema?
Nenhum país se une, nenhum tenta ajudar o outro. Tá tudo em uma guerra, uma guerra que ainda não está acontecendo, mas…

Você acha que a gente esta prestes a uma guerra?
Uma guerra, guerra, de verdade, com tudo isso de luta, não. Mas uma luta falada, uma guerra explicada assim, uma guerra diferente.

Mas hoje tem algumas guerras rolando, né?! Tipo na Síria, no Oriente Médio…
São guerras por países, não pelo mundo. É diferente.

Falando em política internacional, o que você achou quando o Trump ganhou a eleição? Ele está sendo um bom presidente?
Eu achei que a eleição foi roubada. Estavam todos os votos pra outra [Hilary Clinton]. Eu acho que ele não deveria ter ganhado e agora está sendo muito rígido. Ele reclama de tudo que está acontecendo. Esquecendo o mundo que ele tem que proteger e guardar.

Você tem razão ao falar que mais gente votou na Hillary, mas o sistema eleitoral dos Estados Unidos é meio estranho e ele acabou ganhando. E ele teve um número grande de votos. Por que tanta gente votou nele?
Ah! Por causa dessas coisas com relação aos estrangeiros, que ele falou que ia fazer a muralha com o México. Isso fez as pessoas acreditarem, porque aquelas pessoas, provavelmente, acham que sofrem por não ter uma muralha.

Tem muita gente que critica esse muro, a segregação dos estrangeiros. Você acha que faz sentido a proposta do muro e essa restrição aos estrangeiros?
Não. Fazer esse muro é sem necessidade. É gastar o dinheiro que as pessoas estão pagando com os impostos em algo que não precisa. Podia gastar com coisa melhor, com saúde.

Hoje tem um preconceito gigante em relação ao islamismo, ao mundo islâmico e aos islâmicos em geral. Inclusive, o Trump vetou pessoas de alguns países nos Estados Unidos. Você tem ideia de onde surgiu esse tipo de ódio?
Esse medo do islamismo e dos estrangeiros acontece porque entra muita gente nos Estados Unidos, e aí o país precisa de mais emprego. As pessoas ficam com medo de perder o emprego.

Você já foi pra outros países?
Eu já fui pra Inglaterra, pro Uruguai e Argentina.

Na Inglaterra, esse debate em relação aos estrangeiros foi muito forte até que eles saíram da União Europeia. O que você sentiu quando foi lá? Você achou que era um lugar livre, você gostou?
Ah! É uma coisa muito tranquila. Não tinha nada que os preocupava na época. Eu fui lá faz uns 3, 4 anos e eles faziam tudo tranquilamente, achando que não aconteceria nada.

Na aula que eu acompanhei, vi que a criação dos furacões tem muito a ver com o aquecimento das águas e que isso tem relação direta com o aquecimento global. Você acha que o aquecimento global é um problema real? Tem gente que diz que é exagero.
Eu acho que o aquecimento global é uma coisa séria, real, que a gente não pode deixar que aconteça mais porque já passou muito do que deveria. Agora, a gente tem que parar tudo isso.

Você acha que o Trump, como presidente do país mais poderoso, da maior economia, tem dado sinais de preocupação com isso?
Ele não tá nem ligando. Tá achando que é mentira e tal, ele não liga. Só quer fazer as coisas melhores para o país dele. Ele tem o objetivo de deixar o mundo melhor, mas ele tem um outro ponto de vista de mundo melhor. E, assim, ele não acredita no aquecimento global, e o problema vai acontecendo.

Hoje, qual é o maior problema do Brasil na sua opinião?
O roubo. As pessoas pagam imposto, imposto, e o nosso imposto vai pro bolso do presidente invés de ir pra outros lugares e ajudar a sociedade.

Mas o Temer é o único corrupto que já teve aqui no Brasil?
Não. Todos aquele que estão com ele também são, outros presidentes também eram, mas um pouco menos que ele. Ele é o chefão.

Por que você acha que ele chegou ao poder?
Porque todo mundo era contra a Dilma. Teve a votação [no Congresso, sobre o impeachment] e ela saiu, e ele entrou e traiu ela.

Nuno, onde você busca essas informações? É mais conversa de família, você busca na internet, você costuma assistir telejornal?
É, eu vejo jornal com meu pai porque ele gosta de ver todo dia. Aí eu fico com as informações. Às vezes, quando não estou vendo, ele me chama por causa de alguma coisa interessante.

Mas você acha que notícia é só coisa ruim?
É sim. Só querem mostrar coisa ruim do mundo enquanto tem um monte de coisa boa que não mostram.

Você acha que as pessoas que consomem as notícias querem ver coisas boas ou eles também querem ver coisas ruins?
Eles querem ver coisas ruins, mas eles também querem ver coisas boas. Eles têm que colocar coisa ruim pra informar o leitor, mas as pessoas, com certeza, querem ver coisas boas também.

E você prefere internet ou televisão?
Televisão. Eu não tenho nenhum eletrônico, então eu fico assistindo mais televisão mesmo. Normalmente, meu pai tá ouvindo noticiário à noite. E, de manhã, eu ligo a TV e já tá no noticiário. Aí eu vejo um pouco mais das informações que estão aparecendo.

Você falou que não tem nenhum eletrônico. Como assim?
Tipo, eu não tenho um tablet, um celular, só um computador que eu divido com meu irmão. Eu tinha um tablet, só que ele quebrou. E eu não acho que precise de outro ou de um celular no momento.

Você não acha que seria útil ter um celular?
Seria, mas eu ficaria muito ligado nele, não faria mais nada interativo, então eu prefiro ficar sem.

Mas seus amigos têm celulares e tablets? Como você fica?
Sim, a maioria. Mas aí eu fico na minha, sem falar nada sobre esse assunto. Eles acham que é uma coisa normal, ficam mexendo, mexendo, mexendo no celular. Uma hora, percebe que já acabou a vida.

E o que você faz quando entra na internet ou assiste TV?
Quando eu ligo a TV, eu assisto programa de esporte pra saber o que tá acontecendo no esporte e no mundo. E no computador eu, tipo, pesquiso sobre meu time.

Pra qual time você torce?
Botafogo.

Mas sua família é carioca?
Não. Com cinco anos, eu torcia pro Palmeiras. Meu pai e meu irmão torcem pro Palmeiras, mas eu passei a torcer pro Botafogo. Eu gostava da estrela que ele tem, e eu gostava muito de preto e branco. Aí eu vi que o Botafogo juntava os dois. Eu gostava da estrela solitária. Botafogo “bota fogo no campo”.

A gente estava falando de televisão, você vê muita criança na televisão?
Não, não muita. Vejo pessoas negras sendo entrevistadas ali nas fronteiras, crianças, muitas crianças, bebês, e muita gente fugindo.

Te deixa triste ver as crianças, às vezes pessoas da sua idade, nessa situação?
Sim, deixa. Todo mundo devia ser igual na sociedade. Não dá pra ser assim, uma pessoa ser “ricona”, ter tudo, e outra não ter nada, nem uma comida pra comer.

E você acha que a gente tá longe de ter uma sociedade igualitária ou estamos no caminho?
Acho que estamos longe, mas a gente está tentando. Cada país tentando o seu, só falta juntar tudo e ajudar esses países que não conseguem.

 

 

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