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Uber e Educação: diferenciais não são a balinha e a água

Por Renato Júdice de Andrade *

Antes de você iniciar queria lhe contar que o tema deste artigo é educação e não as recentes brigas entre taxistas e o Uber. Mas não desista não, vá em frente, certamente isso lhe afeta também.

Os taxistas embasam sua argumentação, especialmente, em dois pontos. Primeiro, ironizam os motoristas do Uber como se o único diferencial deles fosse oferecer balas e água para seus passageiros. Depois, reivindicam que os carros Uber precisam passar por vistoria como os táxis. Vamos aprofundar ambos os pontos à luz do que acontece hoje nas escolas brasileiras.

A crítica feita pelos taxistas sobre a oferta de água aos passageiros surge da limitação que eles têm de perceber que, na verdade, o que está acontecendo é uma ruptura de modelo. Não se trata de um “puxadinho” ou um pequeno ajuste tentando agradar aos passageiros, o Uber propõe um novo paradigma no qual o passageiro é colocado no centro. O aplicativo é fantástico e aprovado por 82% dos brasileiros (Revista Época) porque se estrutura de fato pensando no usuário.

Enquanto isso, não é raro encontrarmos taxistas que só aceitam pagamento pela corrida em dinheiro, decisão tomada pensando nele e não no usuário. Não é raro termos corrida rejeitada pelo taxista pois o trajeto não é muito interessante ou lucrativo para o motorista. Não é raro entrarmos num táxi com som alto e o motorista sequer perguntar se queremos que ele diminua o volume.

Uber tudo

Mas o que isso tem a ver com educação?

Tudo!

O modelo de escola existente hoje no Brasil, e porque não dizer também na América Latina, é tão falido e retrógrado quando o modelo de táxi, pois é centrado no professor, no dono da escola e até nos pais. Está na hora de surgir uma escola centrada no aluno.

Nessa escola as aulas raramente seriam expositivas, com alunos passivos esperando a próxima orientação, ao contrário, ela incentivaria alunos mais criativos e críticos, alunos que fossem de fato empreendedores no sentido mais legítimo dessa palavra. O professor não seria um mero transmissor de conteúdos, ao contrário, seria um astuto orientador, um verdadeiro provocador e mediador de debates.

Ah claro, assim como o Uber nasce em uma empresa de tecnologia, essa escola por vir transpiraria tecnologia, algo como uma verdadeira atmosfera digital. E, diga-se de passagem, se a sua escola (ou a escola do seu filho) se orgulha de ter instalado uma lousa digital, não tenha muita esperança, essa é a maneira mais clássica de perpetuar o modelo em que o professor (detentor do conhecimento) fica na frente da sala expondo aos seus alunos (seres passivos, do qual se espera muito silêncio e nenhuma intervenção).

Aluno no centro

Ou seja, ironiza-se a oferta de água e balinha com o argumento de que “isso meu táxi também poderia fazer”, pois estão impotentes frente a uma proposta que reposiciona os papéis dos envolvidos. Assim também acontecerá na escola que colocar o aluno no centro, deixando muitos boquiabertos e inseguros frente a uma instituição que não se parece com a que ele estudou.

Certamente, ela receberá críticas irônicas que afirmarão “mas minha escola também coloca as carteiras em círculo”, como se apenas isso fosse garantia de uma quebra de paradigma.

O segundo ponto, de acordo com os taxistas, é de que o Uber não passa por uma rigorosa vistoria como eles e seus automóveis precisam cumprir. Será que não, mesmo? Eu diria que, ao contrário, a avaliação do Uber é a mais criteriosa possível, pois é feita pelo usuário. Não foi atencioso, dirige mal, descumpre as regras de trânsito, o carro não está adequado… perde ponto imediatamente e pode ser até excluído.

Já os taxistas podem ser mal educados, não disponibilizar cinto traseiro, arredondar para cima o valor do taxímetro sem a sua autorização, e eu te pergunto: você reclama? Você tem para quem reclamar? Reclamando, adianta alguma coisa?

Quem controla o processo?

A diferença entre os dois modelos é que o táxi controla o processo e o Uber, o resultado. Parece pouco, mas faz toda a diferença. No cenário educacional é exatamente a mesma coisa. A escola das antigas acha-se muito séria, pois controla todo o processo: cronogramas, planejamento do professor, livro adotado, o que cai na prova e até o número de questões, mas se o aluno aprende ou não, isso pouco importa.

Já no paradigma centrado no aluno é perfeitamente admissível caminhos alternativos, métodos distintos, autonomia com responsabilidade… desde que o aluno esteja feliz e aprenda. Num modelo a escola é avaliada pela burocracia, já no outro quem avalia é o próprio usuário, instantaneamente, tendo liberdade de mostrar sua opinião e transparência no aprendizado produzido.

Enfim, estamos vivendo uma crise no transporte público e uma grande oportunidade de aprender com ela no cenário educacional. Da mesma forma que acredito que é apenas uma questão de tempo para o Uber se estabelecer nas cidades brasileiras, não se assuste quando começarem a aparecer escolas que rompam com os paradigmas do passado de forma avassaladora e disruptiva como o século XXI nos solicita.

*  Diretor do colégio Elvira Brandão, de São Paulo

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