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Uma educação biocêntrica

Por Edimara Lima *

Minha formação foi marcada pelo pensamento da Dra. Montessori, cujo trabalho estudo há 40 anos e por isso me sinto com a liberdade de citá-la com a intimidade de aluna.

Montessori colocou entre os princípios do seu sistema educacional a educação para a paz; paz entre os homens; paz na relação do homem com o ambiente. A realidade que hoje vivemos comprova a necessidade desta proposição e a sua importância para a sobrevivência do homem e do planeta.

A linha da história do homem mostra que nos primórdios dos tempos a visão do homem era teocêntrica, creditando aos deuses o direcionamento dos acontecimentos naturais e humanos; milênios depois se têm a visão antropocêntrica, que deu ao homem poderes ilimitados para explorar a natureza, a vida vegetal e animal, e tornando possível a exploração do homem pelo próprio homem. Na primeira hipótese a responsabilidade era do divino, na segunda o homem tomou a si a responsabilidade, mas com o único objetivo de servir a si mesmo.

A visão antropocêntrica pode nos levar à destruição, e Montessori, prevendo o final deste caminho, nos propõe uma nova visão à qual podemos chamar de biocêntrica. A vida como foco de toda atividade humana é a forma de preservação do homem e do ambiente que nos permite viver. “A vida mantém a vida”, foi uma das afirmações de Montessori. Esta frase, aparentemente simplória, delega ao homem uma vida detentora da inteligência racional do planeta, delega a responsabilidade pelas outras vidas que a Terra acolhe e mantém. Como preparar um ambiente que eduque o homem responsável pela vida? Nossas classes devem privilegiar o respeito aos seus componentes vivos e não vivos; nossas classes devem ser templos dedicados à ética e à moral.

A escola como responsável pela formação das gerações vindouras deve privilegiar a vida – não somente nas aulas de Ciências ou nos projetos de educação ambiental; a visão cósmica da educação nos dá uma abrangência de objetivos, de currículo, nos permite uma escola viva e integrada à realidade que nos cerca.

A percepção da existência de um macro sistema, do qual somos parte, revoluciona a postura do homem frente à vida. Desta concepção deve nascer uma nova moral e uma nova ética, surgindo assim uma civilização preocupada em atingir o máximo do conhecimento, mas consciente de que o uso de novas tecnologias precisa ser avaliado dentro desta visão maior.

Devemos, pois, estar preocupados em construir a consciência de que cada um é parte ativa e importante de um grande sistema e de que a nossa atuação, por mais insignificante que seja, é essencial para a continuidade, preservação e funcionamento da natureza e da sociedade.

Quando falamos em Educação Cósmica, não estamos nos referindo a fatos ou objetivos longínquos, mas a nossa práxis, ao nosso dia a dia. Para que isto seja vivido na escola, precisamos preparar o ambiente físico, a nós mesmos e cuidar das relações sociais (do corpo docente, discente e familiar).

Este conceito não permite tratar as áreas de estudo como compartimentos estanques, mas leva às últimas conseqüências o que a moderna pedagogia chama de transdisciplinaridade. Impede-nos também de desenvolver o conhecimento destinado única e exclusivamente ao universo escolar, temos que pesquisar caminhos de vincular o conhecimento explicitado nos “conteúdos” à vida, a sua aplicação e utilização na vida rotineira do cidadão comum; isto é a construção de significados, que em última instância é a satisfação da motivação interna, que gerará novas motivações, criando um círculo inteligente e prazeroso de busca e encontro com o conhecimento.

No Congresso Saber 2008, participei de uma palestra com o título de “Revoluções Mínimas”; estas pequenas grandes mudanças que são as mais difíceis de serem implantadas no cotidiano: reduzir o consumo, reutilizar tudo que for possível e colaborar na reciclagem de materiais.

As revoluções mínimas são as que necessitamos nas nossas escolas, são as que objetivam mudanças de hábitos e de posturas, mas que exigem um tratamento multidisciplinar.

Ser BIOCÊNTRICO é fruto dos modelos que podemos imitar e admirar, e da prática que exercemos em nossas vidas desde crianças.

Como falar de reflorestamento em bairros nus de vegetação, em escolas onde o único vaso está seco e a vida que continha foi menosprezada pela falta de cuidados?

Como falar de redução de consumo em ambiente de torneiras que gotejam eternamente, e onde os responsáveis pela faxina usam o esguicho como vassoura?

Como falar de reciclagem quando o lixo orgânico e inorgânico é depositado em um único recipiente?

A escola deveria fornecer padrões de conduta, pois a mente infanto-juvenil retira do ambiente os critérios da sua própria conduta.

Há alguns anos fui procurada por uma jovem professora que me fez um pedido pungente: professora, não aguento mais ser motivada! Ser motivada para a educação ambiental, para a inclusão dos portadores de necessidades especiais… eu quero saber como se faz! Preciso aprender, pois não quero chegar à aposentadoria cheia de motivação e com pouca realização.

O desabafo desta professora é concreto, pede um caminho. Nós gestores educacionais estamos preocupados em construir este caminho?

A educação ambiental não é uma disciplina; seus conteúdos não podem ser determinados nacionalmente. A educação ambiental é responsabilidade de todos os professores, ou melhor ainda, de todos os educadores que cruzam a vida de crianças e adolescentes.

Montessori afirmou em 1947: “… a humanidade se constitui, sob muitos aspectos, uma nação única. Inúmeras são as provas desta unidade. Seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista material e intelectual. A interdependência entre os vários povos criou sua unidade e a demonstraram, até mesmo as guerras modernas: o vencedor hoje não enriquece com a vitória e o vencido pesa sobre ele, em passividade…”

A educação ambiental é sinônimo de biocentrismo, pois seu objetivo é preservar a vida, seja esta animal ou vegetal. Para termos vida, o equilibrio ambiental é necessário, pois sem este a vida se esvai…

Pequenas ações, pequenas mudanças…. São elas que possibilitarão a grande evolução. Muitas vezes nós, gestores, professores, pais e avós, ficamos angustiados com a enormidade da tarefa que nos propomos, e ansiosos buscamos transmitir uma carga monstruosa de conhecimentos. Gosto de histórias do cotidiano, pois fazem das pequenas ações, um alento para o viver. Há algum tempo, vejo meu neto entrar no banho, ligar o chuveiro, desligar e depois de algum tempo ligar novamente… Intrigada, perguntei-lhe o motivo de tanto liga/desliga e a resposta veio rápida: para economizar água, pois a Terra precisa dela. Não foi para economizar alguns reais na conta mensal, mas por que a Terra precisa dela. Em outra noite, assustado me chama aos gritos, pois uma barata voadora invadira seu quarto; entro de avó – heroína, de chinelos em punho e quando me dispunha a matar o inseto, escuto outro grito: Não mate… só mande embora, ela faz parte da Natureza.

Quando adultos se preocuparem com o gasto de água do seu banho, da lavagem do carro, das calçadas, e quando o desejo de preservação da vida for maior do que a repulsa por alguns viventes, teremos achado um dos caminhos de paz e da convivência cósmica, teremos atingido os objetivos da educação ambiental – teremos um pressuposto biocêntrico para nossas próprias vidas.

Servir à vida é o cerne da educação da sociedade do século XXI.

Oferecer oportunidades de reflexão e aprofundamento são características do bom gestor educacional; a utilização de novas tecnologias só adquire significado através da mediação de um bom professor e investimentos permanentes no corpo docente são tão ou mais necessários que os exigidos por equipamentos de última geração. A escola de qualidade se distingue pela sua estrutura física e humana.

Recentemente fiz um curso com uma consultora da Unesco – e ela nos fez uma afirmação indagativa: nossas escolas almejam possuir laboratórios de informática, de física, de química, de línguas; mas estão se esquecendo do primeiro e mais importante laboratório: o da Terra. A doutora Coe nos falou de “laboratórios da terra” onde jovens teriam a oportunidade de conviver com um ambiente natural, de plantar, de colher, de aprender técnicas de redução de consumo, de reutilização de materiais e dos princípios da reciclagem. Estes laboratórios poderiam estar a serviço de muitas unidades escolares que o frequentariam em rodízio. Esta é uma idéia revolucionária e muito diferente dos acampamentos frequentados pelos filhos da classe média nas férias escolares ou em temporadas propostas pelas suas escolas. Para valorar é preciso conhecer, para conhecer eu preciso de vivências.

Muitas perguntas podem ser feitas – gosto das perguntas, elas oferecem maiores possibilidades de pensar que as respostas:

– Nossas escolas oferecem possibilidades de vivências ambientais?

– Nossos currículos valorizam o conhecimento da comunidade onde são aplicados?

– Nossas crianças almejam SER ou TER?

– A Educação ambiental é prioridade de nossos professores? De nossos gestores? Das nossas famílias?

A educação cósmica, biocêntrica, precisa da valorização do passado e da vivência do presente, para que possamos preparar um futuro melhor; ela é o grande elo entre o Homem, a Natureza e o Conhecimento.

Educadora, psicopedagoga e diretora pedagógica da Prima – Escola Montessori de São Paulo. É diretora da Comissão Consultiva da Organização Montessori do Brasil e integra o Conselho Latino-Americano de Educação Montessori. É também membro da Comissão Cívico-Cultural da Associação Comercial de São Paulo.как продвинуть свой сайт в поисковых системахкомплектующие для буровых насосов

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