Comunidades rurais recebem apoio de estudantes da Unicamp

foto mostra horta comunitária do parque itajaíHorta Comunitária do Parque Itajaí, em Campinas, um dos grupos que participaram da disciplina de Sociologia e Extensão Rural e receberam os projetos desenvolvidos pelos alunos

Desafios enfrentados pelos pequenos produtores rurais na América Latina são retratados de forma sensível na peça teatral “O Extensionista”, do mexicano Felipe Santander. O espetáculo narra a luta de uma comunidade rural contra grandes donos de terras, que controlam a política e a economia da região, enquanto esperam encontrar em um engenheiro agrônomo recém-formado o apoio para solucionar esses problemas. O conflito surge justamente quando percebem que o jovem profissional entende que sua missão é levar conhecimentos técnicos e novos equipamentos aos agricultores, sem antes conhecer ou considerar a realidade e os fatores sociais que interferem na vida da comunidade. 

O texto, que recebeu o Prêmio Casa de las Américas em 1980, traz uma lição importante aos profissionais que atuam junto a agricultores familiares: a extensão rural deve ser realizada com base no diálogo e no aprendizado mútuo. É com essa preocupação que estudantes da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) da Unicamp desenvolvem projetos em comunidades rurais na disciplina Sociologia e Extensão Rural. Em 2020, duas comunidades foram palco para estas atividades, o Grupo de Mulheres da Cooperativa dos Produtores Rurais Campesinos (Cooprocam) do Assentamento Dandara, em Promissão, e o Coletivo de Agricultura Urbana da Horta Comunitária do Parque Itajai, em Campinas. Por conta da pandemia do coronavírus, todos os encontros foram realizados de forma virtual. 

“Quando falamos em agricultura familiar, precisamos trabalhar em conjunto”

Professora da Feagri e responsável pela disciplina, Vanilde Esquerdo explica que, historicamente, a extensão rural se caracterizou como uma atividade em que profissionais especializados iam até as comunidades rurais para atuar de forma técnica. Porém, por se tratar de algo estratégico para a transformação da vida no campo, é necessário que engenheiros agrícolas tenham o conhecimento das culturas e práticas locais e, aprendendo com os agricultores, possam desenvolver soluções adequadas a cada realidade. 

“A extensão rural tem que ocorrer através de uma relação de diálogo entre o agricultor e o extensionista, para que possa ocorrer a construção do conhecimento, que tem que ser apropriada a cada realidade. Eu não posso simplesmente levar uma experiência trabalhada em um grupo para outro grupo, porque a realidade pode ser diferente. É uma troca de saberes, os alunos têm o conhecimento, mas os agricultores também têm seu conhecimento”, destaca a professora. 

foto mostra professora vanilde esquerdoVanilde Esquerdo: “A extensão rural tem que ocorrer através do diálogo entre o agricultor e o extensionista”

Por isso, além de terem aulas teóricas sobre tópicos da Sociologia Rural, na disciplina os estudantes realizam projetos com agricultores familiares, grupo que representa a maior parcela dos estabelecimentos rurais no país. Mas em 2020, a dificuldade esteve justamente no “ir a campo”, já que o distanciamento social é uma das principais medidas de prevenção à Covid-19. A alternativa foi promover encontros on-line entre estudantes e agricultores, além de intensificar a comunicação com eles. 

“A necessidade de comunicação com os agricultores foi maior, a todo momento, por WhatsApp, por exemplo. Isso porque os alunos não puderam ir até as áreas. Quando isso acontece, a percepção da realidade é maior”, comenta Vanilde. Ao longo do semestre, foram promovidos três encontros virtuais com membros das comunidades de Promissão e de Campinas. No primeiro, os estudantes conheciam os agricultores, seu trabalho e suas maiores demandas. Com base nisso, eles se dividiram em grupos para desenvolver projetos pontuais junto às comunidades, como a criação de um sistema para controle das plantações, administração do fluxo de caixa, projetos para melhorias das instalações físicas e até sugestões para a apresentação visual e o marketing dos produtos. 

Os dados para o desenvolvimento das iniciativas foram levantados em um segundo encontro, onde os produtores também conheciam as ideias propostas e podiam contribuir com suas opiniões. No terceiro e último encontro, os projetos foram apresentados e entregues às comunidades, que vão implementá-los de acordo com suas prioridades e possibilidades. Vanilde conta que, apesar de a disciplina promover três encontros oficiais, o contato entre alunos e produtores foi constante.  

foto mostra duas mulheres entre as vielas de uma horta colhendo hortaliçasHortaliças, temperos e ervas medicinais produzidas pelo Grupo de Mulheres da Cooprocam, em Promissão, são comercializadas em cestas agroecológicas

Agricultura familiar está em quase 80% das propriedades rurais

Dados da edição de 2017 do Censo Agropecuário, pesquisa mais recente do tipo realizada pelo IBGE, mostram a grande participação e importância da agricultura familiar no país, ao mesmo tempo em que deixam claras as disparidades do setor. Segundo o levantamento, 77% dos estabelecimentos rurais do país são classificados como locais onde se pratica a agricultura familiar. A atividade é responsável por empregar mais de 10 milhões de trabalhadores do campo, o que representa 67% dos empregos no setor, e ocupa 80,9 milhões de hectares de áreas cultivadas no país. Tudo isso, entretanto, representa apenas 23% do total das áreas ocupadas por estabelecimentos rurais no Brasil. 

Diferentemente das grandes propriedades monocultoras voltadas à indústria e à exportação, é nas propriedades familiares onde se produz boa parte dos alimentos frescos que chegam à nossa mesa, menos dependentes de agrotóxicos e de tecnologias sofisticadas. Outras vantagens da agricultura familiar é o fortalecimento das comunidades locais por meio do comércio, além da preservação do meio ambiente e do uso de espaços urbanos ociosos, por meio de práticas como a agroecologia e a agricultura urbana.

foto mostra agricultoras em volta de uma mesa com hortaliçasGrupo recebeu sugestões de como organizar o cultivo e um projeto para um galpão de beneficiamento

É o exemplo do trabalho desenvolvido pelo Grupo de Mulheres Camponesas da Cooprocam, em Promissão (aprox. 400 km de Campinas), que existe desde 2004. As 23 mulheres que integram o grupo trabalham com a produção de ervas medicinais, temperos, verduras e legumes, que são comercializadas em cestas agroecológicas. 

Para fortalecer esse trabalho, os estudantes propuseram a elas um sistema para elas planejarem a produção e o manejo dos canteiros onde ervas e temperos são cultivados, um projeto para construção de um barracão operacional e uma plataforma e-commerce, para vendas on-line. Além disso, eles também criaram uma logomarca para ser aplicada nos produtos comercializados. 

imagem mostra logomarca desenvolvida pelos alunos para a cooprocamLogomarca desenvolvida pelos alunos vai favorecer o comércio dos produtos da cooperativa

Joice Aparecida Lopes (42), integrante do grupo, acredita que todas as propostas vão contribuir com o trabalho da cooperativa em todas as etapas, do planejamento às vendas. “Eles fizeram com que a gente olhasse para as nossas dificuldades. Às vezes são questões que, na correria do dia-a-dia, a gente não para e pensa. Eles fizeram a gente olhar para nós mesmas e pensar em como estamos trabalhando”, relata. 

Trabalho semelhante é realizado pelo Coletivo de Agricultores Urbanos ligados à Horta Comunitária do Parque Itajai, no distrito de Campo Grande, região Oeste de Campinas. No local, cerca de 25 moradores atuam em uma área de 10 mil metros quadrados, fazendo o cultivo de hortaliças e legumes para o consumo da própria comunidade e também para a comercialização. Orlando Batista dos Santos (67), parceiro da comunidade, explica que o apoio especializado fornecido pelos estudantes é importante para o desenvolvimento da agricultura urbana, já que a atividade conta ainda com poucos modelos de aplicação. 

foto mostra agricultor segurando pé de alfaceNa Horta Comunitária do Parque Itajai os agricultores também receberam sugestões para organização do cultivo e um projeto de banheiro com biodigestor para ampliar a permanência dos moradores no local

“A gente tem que lembrar que nós vivemos um momento em que praticamente tudo está começando do zero. Nós não temos modelos, referências anteriores, o conhecimento não está difundido no Brasil para nos basearmos em modelos. Estamos então desenvolvendo ideias sobre isso”, explica Orlando. Ele ainda esclarece que o contato direto com os moradores da comunidade é essencial para o sucesso das iniciativas, pois a maior parte deles nunca teve experiências com o trabalho no campo: “Nós trabalhamos com crianças, jovens, pessoas que não têm essa vivência. Então é preciso desenvolver modelos adaptados à realidade atual”. 

Para a comunidade, os alunos criaram uma planilha onde os agricultores podem fazer o controle de caixa dos produtos comercializados, um sistema que facilita o planejamento para a produção nos canteiros de hortaliças e ainda um projeto para a construção de um banheiro com biodigestor, o que favorece a permanência dos moradores no local. 

imagens mostram os projetos de banheiro e galpão para as comunidades e um esquema de organização da plantaçãoNo sentido horário: projeto de banheiro com biodigestor para a Horta Comunitária do Parque Itajai, projeto de galpão de beneficiamento para a Cooprocam e sistema de organização das hortas por cores

“O foco é trabalhar com quem está do seu lado”

Ministrada nos últimos semestres do curso de Engenharia Agrícola, a disciplina oferece aos estudantes uma perspectiva da vida no campo com a qual eles não estão habituados. “Ao longo do curso nós ficamos muito preocupados com o uso de tecnologias, com a inovação no campo. Isso sempre é colocado para a gente, que nós somos engenheiros para inovarmos no campo, com máquinas e tecnologias pesadas, visando grandes agricultores. Mas quando chega essa disciplina, o foco é trabalhar com quem está do seu lado, com a agricultura familiar”, relata Julia Cabral D’Avila (24), estudante do curso e membro do grupo que criou a logomarca para o Grupo de Mulheres da Cooprocam. 

Julia também afirma que a construção de conhecimentos junto com as produtoras rurais é uma experiência que os estudantes levarão por toda a vida profissional prestes a ser iniciada: “Não é uma ajuda, é uma troca. Ao longo de toda a disciplina, nós aprendemos que ninguém é maior ou melhor que o outro, que não há um superior. É uma disciplina muito baseada nos ensinamentos de Paulo Freire, então nós aprendemos com elas, elas trocaram informações com a gente”. 

Além da atuação da professora Vanilde Esquerdo, a disciplina contou ainda com o apoio da pesquisadora colaboradora Suzana Alvarez, da doutoranda Andréia Matheus como PED, da estudante Isabela Bratfischer como PAD e do biólogo Gastão Bosco Rodrigues. 

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