Em um ano, Bori antecipa 20 artigos e livros da Unicamp a jornalistas de todo o país

Sabine Righetti*

O Brasil está entre os quinze maiores produtores de ciência do mundo, mas a maioria dos brasileiros não sabe disso. De acordo com a última pesquisa nacional de percepção pública da ciência, de 2019, nove em cada dez brasileiros não sabiam dizer o nome de um cientista do país ou de uma universidade que conduzisse pesquisas como a Unicamp. Isso é grave: não dá para produzir ciência sem conhecimento, interesse, engajamento e participação da população. Por isso, a comunicação social da ciência para fora dos muros das instituições é cada vez mais importante — e a imprensa tem um papel central nesse processo. 

Fora do Brasil, uma série de iniciativas apoiam a cobertura jornalística de temas de ciência, fornecendo para a imprensa estudos científicos explicados antes mesmo de sua publicação e contato direto com pesquisadores. Há um ano, a Agência Bori, projeto que coordeno com a pesquisadora Ana Paula Morales, com apoio inicial da Fapesp e do Instituto Serrapilheira, tem esse mesmo objetivo. 

Em média, a Bori tem disseminado à imprensa nacional um resultado científico de instituições de pesquisa brasileiras a cada dois dias. Estamos falando de trabalhos de todo o país: Universidade Estadual de Roraima, Fiocruz, UFRN, UnB, PUC RS e muitas outras. Só da Unicamp, foram vinte artigos e livros antecipados aos 1.400 jornalistas cadastrados na Bori no primeiro ano do projeto. Neste texto, conto um pouco como foi essa divulgação. 

Café e savanização

Os trabalhos disseminados à imprensa pela Bori cobrem todas as áreas do conhecimento, passando por temas como saúde, ambiente, economia, história e biologia. São estudos que, por exemplo, identificaram o aumento de pragas no café com as mudanças climáticas (publicado na “Revista Pesquisa Agropecuária Brasileira”, indexada na biblioteca eletrônica SciELO) ou que verificaram que a savanização das florestas tropicais impactará mais de 200 espécies de animais (publicado na “Global Change Biology”).

A Bori também disseminou à imprensa um relatório técnico de pesquisadores da instituição, que mostrou que a universidade gerou impacto de R$13,8 bilhões na região de Campinas em 2019. E veiculou a jornalistas seis livros da Editora Unicamp e de cientistas da universidade publicados por diferentes editoras. Desde dezembro de 2020, a Bori tem uma parceria com a Editora Unicamp, firmada com a professora doutora Márcia Abreu, diretora executiva da editora, para disseminação antecipada à imprensa do seu catálogo. O primeiro livro divulgado, “Guerra pela Eternidade”, de Benjamin Teitelbaum, sobre a doutrina intelectual da extrema direita, publicado em 7 de dezembro e antecipado à imprensa via Bori, repercutiu, por exemplo, no O Globo, El País, BBC Brasil e na Agência Pública. 

Seguindo iniciativas internacionais, os trabalhos científicos são antecipados à imprensa cadastrada na Bori com embargo jornalístico. Isso significa que os jornalistas acessam hoje conteúdo científico que virá à tona na semana seguinte e publicam suas reportagens concomitantemente aos estudos acadêmicos. Os artigos, relatórios e livros antecipados à imprensa na Bori são acompanhados de um texto explicativo (que os jornalistas usam como apoio) e dos contatos do porta-voz do trabalho e da assessoria de imprensa da universidade — que, aliás, é fundamental em todo esse processo. Todas as disseminações de estudos da Unicamp via Bori contaram com apoio da SEC Unicamp, que está em contato direto com a imprensa. Assim, a Bori atua como uma espécie de “hub”, que compila para jornalistas material científico explicado, mas cabe à equipe de comunicação da instituição os contatos com a imprensa e outras formas de apoio nas pautas.

Congresso Nacional e MME

Os resultados deste primeiro ano de atuação têm sido impressionantes. Trago, aqui, dois casos da Unicamp. O primeiro é de um artigo científico que identificou que o aumento de mulheres na gestão municipal reduz a mortalidade infantil realizado em  colaboração com pesquisadores e pesquisadoras da Universidade de Los Andes (Colômbia) e da Universidade Federal da Bahia. O artigo foi publicado em 7 de julho de 2020 no periódico internacional “Health Affairs” e antecipado à imprensa pela Bori. O trabalho teve ampla disseminação na imprensa — em veículos como DW Brasil, Huffpost, Nexo e Jornal da Cultura — mas a repercussão não parou por aí. “Em ano de eleições municipais em um país em que a representatividade feminina na política está entre as menores do mundo, queria muito que nossos achados chegassem à população, aos tomadores de decisões e aos/às líderes partidários”, diz a pesquisadora doutora Ana Clara Duran, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação (Nepa) da Unicamp, porta-voz do trabalho

Deu certo: Duran relata que recebeu retorno de candidatas e políticas de diversos partidos após a veiculação da pesquisa na imprensa, seja por e-mail ou com o compartilhamento das matérias jornalísticas em suas redes sociais. “Ao final, fui convidada a conversar e compartilhar minha experiência com alguns coletivos de empoderamento feminino na política e com todo o gabinete e a própria deputada Tábata Amaral [PDT-SP].”

Cerca de um mês depois, outro caso interessante. Um trabalho da Unicamp com  a Universidade de Córdoba (Argentina) e com Johns Hopkins (EUA), publicado em 13 de agosto no periódico internacional “Earthquake Spectra”, antecipado pela Bori à imprensa, mostrou que a exploração de gás em Manaus (AM) poderia levar a terremotos com uma perda média de U$ 189 milhões de dólares por ano — justamente em um momento em que estava sendo votado um projeto de lei sobre o novo marco regulatório para o setor de gás. A pesquisa também teve ampla repercussão na imprensa — saiu, por exemplo, no O Globo, SuperInteressante e em vários veículos regionais do Amazonas — e chegou ao governo federal. 

“Em poucos dias, o Ministério de Minas e Energia (MME) emitiu um comunicado ressaltando que não iria permitir a extração de gás utilizando a técnica que estudamos”, diz o professor doutor  Luiz Vieira, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, porta-voz do trabalho. “A satisfação com esse sucesso é tão grande que hoje o grupo de pesquisa está extremamente motivado, estamos avançando os estudos para outros países da América Latina e avaliando outros fenômenos. O ciclo em que a nossa ciência impacta a nossa sociedade está completo.” 

Como a Bori é, também, nosso objeto de estudos, agora estamos começando uma análise aprofundada sobre os impactos da disseminação das pesquisas científicas na imprensa do ponto de vista de tomadas de decisão públicas — como foi relatado nas pesquisas lideradas pela pesquisadora Ana Clara Duran e pelo professor Luiz Vieira. Também faremos uma ampla pesquisa qualitativa sobre as reportagens baseadas em pesquisas científicas disseminadas via Bori e também falaremos com os jornalistas usuários do sistema em todo o país. 

Já temos, no entanto, algumas certezas: precisamos ampliar cada vez mais a presença de temas de ciência e de porta-vozes acadêmicos na imprensa para chegar em toda a sociedade e nas tomadas de decisão. E, no Brasil, definitivamente não falta material científico de excelência para ser disseminado.

*Jornalista, pesquisadora doutora do Labjor-Unicamp e co-coordenadora da Agência Bori

<https://abori.com.br/>

Originalmente publicado em...