Os modismos (e os perigos) do ensino tecnocêntrico

Por Paulo Blikstein

O Brasil precisa parar de focar em modismos educacionais tecnocêntricos e passageiros e pensar em projetos de longo prazo, com fundamentos pedagógicos consistentes que melhorem o ensino e a aprendizagem dos estudantes brasileiros.

Nos últimos anos, o sistema educacional brasileiro vem experimentando teorias com ares de inovação, como habilidades socioemocionais, metodologias ativas e mais recentemente o ensino híbrido. Nós não precisamos de novos nomes. Temos que usar o conhecimento que já existe e é comprovadamente eficaz.

Estes modismos se esgotam rapidamente e desorientam todo o sistema educacional. As escolas particulares ficam correndo atrás dessas supostas inovações como baratas tontas, construindo projetos curtos de vida curta.

E acabam contagiando as escolas públicas, que precisam ganhar espaço no sistema político para justificar que também fazem inovação. Isso prejudica a educação pública brasileira porque suga toda a energia e os recursos em projetos sem comprovação científica.

Um bom exemplo destes modismos travestidos de inovação é o chamado ensino híbrido. Ele é apenas uma expressão tecnocêntrica. Não é uma teoria educacional, nem uma teoria de aprendizagem. É apenas uma mistura de mídias, metade presencial metade online.

Pense no trabalho híbrido. Você vai para o escritório duas vezes por semana e fica em casa três vezes por semana. Isso não muda a natureza do trabalho, muda só o lugar onde você trabalha. Você vai continuar fazendo o mesmo trabalho.

No caso do ensino híbrido é a mesma coisa. É como colocar o carro na frente dos bois. Os sistemas educacionais focam em construir a infraestrutura tecnológica, o software, os sistemas de ensino online, ensinam a usar o zoom, mas esquecem o principal: ensinar e aprender.

Imagine uma aula de ciências híbrida. A escola constrói toda a infraestrutura tecnológica, mas ensina o mesmo conteúdo, o mesmo tipo de aula, a mesma avaliação e ninguém vai aprender mais e melhor. Os únicos beneficiários do ensino híbrido são as instituições que tem interesse em cortar custos e precarizar os professores.

Ao contrário do ensino construtivista, do ensino mão na massa, que exigem uma transformação de abordagem e de tecnologia, o ensino híbrido traz o risco de tornar permanente uma coisa que é emergencial, adotada apenas na pandemia. Não há comprovação científica de que ele melhora o aprendizado dos alunos. A educação brasileira precisa de mais ciências da aprendizagem e menos modismos tecnocêntricos.

Paulo Blikstein é Professor na Escola de Educação da Universidade de Columbia, EUA, e diretor do TLTL – Transformative Learning Tecnologies Lab na Columbia University. Blikstein é doutor em Ciências da Aprendizagem pela Northwestern University e mestre pelo MIT Media Lab. Na Universidade de Stanford, foi professor de 2008-2018 e é atualmente Senior Fellow no Centro Lemann. Sua pesquisa se concentra em como as novas tecnologias podem transformar profundamente o aprendizado de ciência, computação e engenharia, e se concentra nas aplicações da mineração de dados, IA e análise multimodal de dados de aprendizagem.

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