Professor Ubiratan D’Ambrosio uniu matemática, educação e busca por justiça social

Uma pessoa à frente do seu tempo, que colocou o Instituto de Matemática Estatística e Computação Científica (IMECC) no cenário internacional e quebrou um paradigma eurocêntrico na matemática: assim lembram colegas do legado do Professor Emérito da Unicamp, Ubiratan D’Ambrósio, que faleceu nesta quarta-feira, 12 de maio, aos 88 anos. Criador da Etnomatemática, a qual reconhece a Matemática nos diferentes contextos sociais, econômicos e culturais, Ubiratan ingressou na Unicamp em 1972, já como diretor do IMECC, instituto que dirigiu até 1980. Participou da criação do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp e atuou em diversos projetos ligados à Educação, incluindo um programa da Unesco para formação de doutores em matemática em Mali, na África, cujo formato posteriormente ele aplicou na América Latina e no Caribe.

Com uma reconhecida carreira acadêmica, nacional e internacionalmente, o professor Ubiratan D’Ambrosio iniciou sua trajetória de estudos na Universidade de São Paulo (USP), onde graduou-se em Matemática e concluiu o doutorado, na área de matemática pura, em 1963. Após, deu aulas na USP, na Escola de Engenharia de São Carlos, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro. Em 1964, foi convidado a ser pesquisador associado na Universidade de Brown, nos Estados Unidos, onde fez o pós-doutorado, seguindo na área de matemática pura. Na Universidade se envolveu também no Departamento de História da Matemática. Em entrevista concedida à revista Dialogia, o professor diz que pensava em permanecer por um ano no país, no entanto o golpe militar no Brasil fez com que permanecesse até 1972, ano em que ingressou na Unicamp. Nos Estados Unidos, foi também professor na Universidade Estadual de Nova Iorque. 

Em 1970, aceitou ser o responsável pelo setor de Análise Matemática em projeto da Unesco para formação de doutores em matemática em Mali, na África. Com a experiência, posteriormente criou um programa semelhante em 1974, voltado a países da América Latina e do Caribe. 

Audiodescrição: fotografia colorida do rosto do professor Ubiratan D’Ambrosio
Professor Ubiratan D’Ambrosio, ao questionar visão eurocêntrica da ciência, fundou a Etnomatemática

“Nossa matemática era toda eurocêntrica”

Na época em que viajava constantemente a Mali, Ubiratan disse, em entrevista ao canal History of Science, que começou a questionar a limitação da visão da ciência e da matemática calcadas na concepção europeia. “Comecei a questionar quando percebi a riqueza de coisas que não são chamadas de matemática ou de ciência, mas que têm na sua raiz a conceituação de uma matemática e de uma ciência rigorosa e organizada que era trabalhada pelos povos africanos para construir a sociedade deles”. 

Com essa visão e com o interesse em história, sociologia e educação, o professor cria o Movimento de Etnomatemática, em meados dos anos 1970. Em 1985, o movimento torna-se o Grupo de Estudo Internacional sobre Etnomatemática. Conforme definiu Ubiratan, Etnomatemática refere-se às “diferentes formas de matemática que são próprias de grupos culturais”. Assim, o professor fazia a crítica ao ensino tradicional de matemática, que tomava por baliza os marcos de ciência europeus, desconsiderando o uso e o desenvolvimento da matemática em outras culturas, como as africanas e indígenas.

“Nossa matemática era toda eurocêntrica, vinha toda do hemisfério norte. Nem sabíamos que no hemisfério sul havia tanta matemática, tanta geometria. Quando ele começou a recuperar a matemática que existia no hemisfério sul foi um choque grande na matemática. Ele e o Paulus Gerdes, que era um holandês que trabalhava em Moçambique, se juntaram, e é por isso que tivemos diversos pesquisadores africanos trabalhando conosco”, lembra o professor do IMECC João Frederico da Costa Azevedo Meyer, que também foi orientando de mestrado de Ubiratan na década de 1970. 

João também frisa o que considera um dos principais ensinamentos do professor Ubiratan: “Ele dizia que a gente tem que educar matematicamente para construir a paz e a justiça social”. 

“Ele colocou o Instituto no cenário internacional”

O professor Ubiratan ingressou na Unicamp em 1972, onde permaneceu como diretor do IMECC até 1980. “Era um período difícil dada a situação política do país e ele tinha um instituto que precisava transformar em um instituto de reconhecimento internacional. E ele fez isso. Ele chegou e já chegou causando. Trouxe jovens brasileiros que faziam doutorado no exterior e garantiu que viessem trabalhar aqui. Também trouxe colega desses jovens de outros países e trouxe-os para trabalhar aqui também. Tivemos gregos, italianos, entre outros. Ele colocou o Instituto no cenário internacional”, reflete o professor João Meyer.

Frisando as ideias inovadoras de Ubiratan para ampliar o alcance do ensino de matemática, João ainda destaca sua atuação na criação de um estúdio de televisão, em 1976, chamado Laboratório Interdisciplinar para Melhoria do Ensino e Currículo (LIMEC), a partir do qual foi dado um curso de Geometria Analítica e de Álgebra Linear, que eram disciplinas com alto índice de reprovação no IMECC. Com o trabalho, a reprovação passou de 60% a 20%, recorda. O LIMEC, posteriormente, ampliou sua atuação para outras unidades e foi a base para a criação da TV Unicamp.

Para o professor João, o legado de Ubiratan é imensurável e diz respeito também ao estímulo que dava aos jovens estudantes e aos desafios que propunha aos colegas. “Era uma pessoa sensacional. Muitas vezes estive em congressos internacionais em que ele fazia conferências de abertura, porque o reconhecimento dele era muito grande. Ele foi meu orientador de mestrado, e me deu todo apoio no doutorado. Assim ele fez com muitos de nós”.

Audiodescrição: fotografia colorida do rosto do professor Ubiratan D’Ambrosio
Ubiratan teve importante papel no desenvolvimento do IMECC e da própria Unicamp, avaliam colegas

“Uma pessoa adiantada em relação ao seu tempo”

Na Unicamp, Ubiratan ainda foi responsável pela criação do mestrado transdisciplinar “Ensino de Ciências e Matemática”, financiado pela Organização dos Estados Americanos (OEA), que formou quatro turmas entre 1975 e 1978 e trouxe um olhar voltado ao ensino e à aprendizagem da matemática ao Instituto. A contribuição na área do ensino e o caráter acolhedor de Ubiratan são lembrados pelo seu colega de Instituto, professor José Mario Martinez. Ambos se conheceram em 1978, quando José Mario, natural da Espanha, chega à Unicamp. O professor destaca que a acolhida do então diretor Ubiratan foi extremamente carinhosa. 

“Ele era uma pessoa com um caráter e habilidades extremas, fazia a gente se sentir bem imediatamente. Tinha uma vocação para o ensino, para inovar e melhorar a maneira como a gente ensinava matemática. Era uma pessoa adiantada em relação ao seu tempo, sobretudo na parte de ensino da matemática e da Etnomatemática. Era uma pessoa com um pensamento universal, coisa que não é muito comum na nossa academia, e tinha uma grande vocação para resolver problemas”, compartilha.

Durante a carreira na Unicamp, Ubiratan também foi coordenador de institutos na gestão do reitor José Aristodemu Pinotti, entre 1982 e 1986, e pró-reitor de Desenvolvimento Universitário na gestão dos professores Paulo Renato e Carlos Vogt, respectivamente reitor e coordenador-geral entre os anos de 1986 e 1990.

O professor Carlos Vogt pontua a convivência positiva com o então colega de gestão e amigo e frisa o seu importante papel não só na área de matemática, mas também no desenvolvimento da Unicamp. “Convivi com ele desde a administração do Pinotti, passando pela gestão do Paulo Renato, da qual fui coordenador-geral, sempre com um relacionamento extremamente positivo. Ele era bastante motivado do ponto de vista intelectual e acadêmico e teve um papel fundamental na implantação e consolidação do desenvolvimento das atividades do IMECC, além de uma atuação extremamente importante também do ponto de vista institucional no desenvolvimento da própria Universidade”.

Reconhecimentos

Pela expressiva contribuição na área da Educação e da Matemática, o professor Ubiratan D’Ambrosio recebeu diversos prêmios e reconhecimentos. Na Unicamp, recebeu o título de Professor Emérito em 1995. Em 2001, ganhou o Prêmio Kenneth O. May, da Comissão Internacional de História da Matemática. Em 2005, recebeu a medalha “Felix Klein”, da Comissão Internacional de Instrução Matemática, considerado o maior reconhecimento na área da Educação Matemática.
 

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