Mais de 70% dos docentes da Unicamp estão em estágio intermediário de competências digitais

Uma pesquisa coordenada pela Unicamp em parceria com a Metared, rede colaborativa de universidades de fomento à transformação digital, avaliou o nível de competências digitais dos docentes em 66 instituições de ensino superior no Brasil. Na Unicamp, onde houve a maior adesão dos professores à avaliação, a investigação apontou que 71% dos docentes apresentam nível intermediário de competências digitais. A pesquisa também indica que cerca de um terço dos docentes na Universidade utiliza uma variada gama de tecnologias de informação e comunicação (TICs) para as atividades de ensino.

O estudo foi realizado mediante um questionário idealizado pelo Joint Research Centre, centro de pesquisa da União Europeia, em que os docentes eram convidados a realizar uma autoavaliação em torno de 22 indicadores relacionados às competências digitais. Aplicada em 66 instituições de ensino superior brasileiras entre outubro e novembro de 2020, a pesquisa foi conduzida pela Unicamp, através do Grupo Gestor de Tecnologias Educacionais (GGTE), vinculado à Pró-Reitoria de Graduação. Cada instituição recebeu o relatório com seus resultados em fevereiro deste ano. 

Para o coordenador do GGTE, professor Marco Antonio Garcia de Carvalho, os resultados têm uma grande importância por fornecer subsídios que indicam as características dos docentes no que diz respeito às ferramentas digitais e, assim, ajudam a pensar em formas de aprimoramento. O professor destaca que a avaliação se refere tanto ao uso de ferramentas e desenvolvimento de competências como à forma com que o professor estimula e motiva seus colegas e seus estudantes. “Traz um panorama completo e traz elementos para desenvolvimento de políticas internas”, explica. 

Panorama na Unicamp

audiodescrição: gráfico colorido mostra porcentagem de professores com competências avançadas, intermediárias e basicas
Gráfico do estudo indica a distribuição dos níveis de competências digitais entre professores da Unicamp

Responderam à pesquisa, na Unicamp, 261 docentes, representando pouco mais de 14% do universo da categoria. Os principais resultados, como destaca o coordenador do GGTE, referem-se ao fato de que grande parte dos professores já ultrapassou o nível básico de competências digitais. Um total de 71% encontram-se no nível intermediário e cerca de 4% no nível avançado, estágio que significa capacidade de utilização de variados recursos digitais e reflexão das estratégias pedagógicas.

“Esse é um dado muito significativo e demonstra o trabalho que vem sendo realizado desde o final da década de 1990 e início dos anos 2000, quando se decidiu usar o TelEduc e ambientes virtuais de aprendizagem vinculados às disciplinas de graduação e pós-graduação”, aponta Marco Antonio. “É um trabalho que estimula e sugere o uso de ambientes virtuais para acompanhar as disciplinas, seja como repositório, seja como ambiente de avaliação e de comunicação. Esse trabalho realizado há muito tempo nos tirou do patamar do bloco inicial”, avalia. 

audiodescrição: tabela colorida mostra ferramentas utilizadas pelos professores
Mais de um terço dos docentes da Unicamp utilizam variados recursos e ferramentas digitais no ensino

Outro dado destacado pelo professor é o fato de cerca de 30% dos docentes utilizarem uma variedade de TICs no ensino. “Isso vai ao encontro do que escrevemos na página de apoio ao ensino digital da Unicamp sobre avaliação, sobre flexibilidade, sobre variar instrumentos. Então ficamos bem satisfeitos com esse número e isso corrobora com outros indicadores, como por exemplo que 26,8% dos professores sabem utilizar ferramentas para melhorar sistematicamente o ensino”, indica, apontando também que a palavra “sistematicamente” denota efetivamente que já se avançou do patamar inicial das competências digitais. 

Além disso, frisa Marco, mais de 45% dos professores utilizam mais elementos além de uma apresentação, em Power Point por exemplo, o que geralmente é um padrão de uso.  

Pontos a serem aperfeiçoados

No que se refere às competências que precisam ainda ser aprimoradas, um dos pontos que chamam atenção do coordenador do GGTE refere-se à interação entre os colegas docentes. Quando perguntados se trabalham de forma colaborativa, com uso de pastas compartilhadas, por exemplo, 40% afirmam que tem esse tipo de relacionamento com colegas. Quando questionados se trocam ideias e materiais com colegas, menos de 35% dizem que sim. “Então cerca de 65% não tem essa prática de conversar com os próprios colegas, de compartilhar ideias, e isso empobrece a dinâmica de ensino a de aprendizagem”, diz Marco Antônio. Além disso, somente 11% dos docentes criam materiais juntos. 

Para o professor, a transição para o ensino remoto trouxe perdas significativas no âmbito da interação entre colegas, com a ausência das conversas nos corredores e nas salas, por exemplo. “Todas as conversas viraram virtuais e existe uma inércia a mais para ir para esse ambiente. É como se a gente fosse um exército de um homem só, autossuficientes. Essa parte seria um ponto a ser mais trabalhado nas atividades de ensino”.

audiodescrição: gráfico mostra colaboração de docentes
Colaboração profissional, avalia coordenador do GGTE, foi prejudicada pela rápida transição ao ensino remoto imposta pela pandemia

Para impulsionar essa interação, no Espaço de Apoio ao Ensino e Aprendizagem EA² da Unicamp, órgão que visa o aprimoramento do ensino na Universidade, já houve a iniciativa de realização de rodas de conversas virtuais. Nesse espaço, os docentes podem compartilhar experiências sobre o que deu certo ou errado numa disciplina, entre outras vivências. Fortalecer iniciativas como essa, avalia o professor, são caminhos que podem ser seguidos para incentivar a colaboração profissional. 

A coordenadora do EA², professora Soely Polydoro, também destaca o desenvolvimento de uma comunidade de práticas sobre tecnologias educacionais a partir do período de pandemia. O projeto reúne grupo de professores com interesse na discussão sobre o uso de tecnologias educacionais para aprimoramento do processo de ensino e aprendizagem e desenvolvimento profissional docente. O primeiro ciclo desta comunidade foi encerrado em abril de 2021, e novos ciclos serão abertos em breve.

Tecnologias educacionais: papel de apoio

As tecnologias educacionais, segundo a coordenadora do EA², podem cumprir um papel de apoio importante para um ensino inovador e centrado na aprendizagem do estudante. Desde 2018, o GGTE e o EA² elaboram uma série de formações nesse âmbito. “As tecnologias educacionais têm uma condição de apoio bastante importante, mas por si só não resolvem a questão. Elas precisam estar inseridas dentro de uma proposta pedagógica, de uma concepção de ensino e aprendizagem, fazendo parte desse processo amplo de um projeto de formação”, indica.

Apesar de terem seu uso ampliado durante o ensino remoto, essas tecnologias, avalia Soely, são importantes não só durante a pandemia, mas também no contexto presencial. “O uso das tecnologias digitais educacionais não é só para o momento e suspensão de atividades presenciais. São ferramentas e estratégias utilizadas no desenvolvimento do ensino e aprendizagem presencial”.

Pesquisa pode ajudar em políticas de formação docente

Com a análise dos dados trazidos pela pesquisa, analisa a coordenadora do EA², é possível visualizar diferentes aspectos e dimensões das competências digitais e pensar em formações para as áreas nas quais os docentes têm menos domínio. “Com a pesquisa, temos informações sobre que áreas, que aspectos e quais das dimensões de competências que devemos investir na formação. Essa pesquisa dá para a gente condições importantes para o processo de formação docente”.

O desenvolvimento de políticas internas, indica, poderá ser pensado com a análise mais minuciosa dos resultados, que também foram encaminhados para o Observatório Institucional da Unicamp (OIU). A pesquisa Metared-Unicamp, diz Soely, traz um panorama sobre as competências digitais amplo, cujo instrumento pode ser aplicado sistematicamente e analisado em conjunto a dados obtidos pela pesquisa “A Unicamp e o coronavírus”, por exemplo, que foi conduzida pelo OIU. “Olhar para respostas dos professores lá e olhar para as respostas nesse instrumento pode ser bastante importante. Assim teremos não só a coleta isolada, mas também combinada a outras medidas e outras informações para que a gente sempre possa aproximar ao máximo aquilo que propomos de formação daquilo que de fato é de interesse dos professores”.

A professora também destaca que, após responder a pesquisa, cada professor recebeu um retorno individualizado. No documento, além de ser indicado o nível onde se encontrava, com uma interpretação geral das respostas, o docente também recebia indicações de aperfeiçoamento de suas competências. “Assim, o professor não só prestava a informação, mas já recebia um retorno sobre sua percepção e já tinha uma orientação imediata”, afirma Soely. 

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