Professora Gisela Umbuzeiro é destacada como uma das pioneiras na área da toxicologia no Brasil

No Brasil, mais que em outros países, o campo de estudos da toxicologia tem uma grande representação feminina, conforme levantamento das pesquisadoras da área Luma Souza Melo (Universidade de Indiana) e Tahira Souza Melo (Universidade Presbiteriana Mackenzie). Em artigo publicado recentemente no Brazilian Journal of Medical and Biological Research, elas pontuam o pioneirismo de mulheres brasileiras na toxicologia, ciência multidisciplinar cujo foco de estudo centra-se nos efeitos de substâncias químicas sobre organismos vivos. Entre as pesquisadoras destacadas, está a professora da Unicamp Gisela de Aragão Umbuzeiro, evidenciada pelas autoras pela atuação na área de toxicologia ambiental, com importantes estudos na análise de corantes e agrotóxicos nas águas.

Formada em Tecnologia de Alimentos no Colégio Técnico de Campinas da Unicamp (Cotuca), com graduação, mestrado e doutorado em Biologia também pela Unicamp, Gisela Umbuzeiro dedicou parte de sua vida ao trabalho na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), órgão em que trabalhava quando cursou o doutorado, iniciado em 1986. Nesse período, inovou ao fazer testes de mutagenicidade, utilizados para identificar possíveis mutações causadas por substâncias, em águas. Na época, pontua Gisela em entrevista ao Portal da Unicamp, esse tipo de teste em águas não era realizado nem em nível mundial. Assim, aos poucos, avalia, foi se “transformando em uma toxicologista”. Trabalho e pesquisa também foram conciliados ainda à maternidade, em uma época em que “o que se esperava de uma mulher era que cuidasse da casa e do marido”.

A professora, após a carreira de 22 anos na CETESB, retornou à Unicamp em 2009, desta vez como docente, sonho que tinha desde a pós-graduação. “Acabei sendo uma jovem professora de 52 anos”, brinca Gisela. Com o olhar para a pesquisa e com a experiência de trabalho em um órgão voltado ao monitoramento ambiental, conseguiu realizar a “ligação entre ciência pura, ciência aplicada e regulamentação”. E, assim, trazer soluções e melhorias na qualidade de vida. Conforme a pesquisadora, é disso que se trata a atuação da toxicologia na área ambiental.

Desde o retorno à Unicamp, a professora Gisela Umbuzeiro coordena as atividades do Laboratório de Ecotoxicologia e Toxicidade (LAEG) da Faculdade de Tecnologia (FT). Atualmente, também integra a equipe do Brazilian Water Research Center, cujas atividades tiveram início em 2020, e atua no consórcio internacional Biocolour, voltado à elaboração de produtos mais sustentáveis, na avaliação de corantes naturais. Durante o seu percurso profissional, destaca-se ainda pelos estudos na análise da qualidade das águas, com foco em corantes e agrotóxicos, neste último âmbito incorporando pesquisas sobre impactos dessas substâncias para a vida aquática. Além disso, com um olhar para a educação ambiental, a professora também lançou dois livros para o público infantil, escritos em conjunto com sua filha, Giovana Umbuzeiro Valent: “A Luz da Lula” e “Tudo Depende”.

Confira a entrevista com a professora:

Como avalia o fato de ser considerada uma mulher pioneira para o campo da toxicologia no Brasil? Qual a importância deste reconhecimento para você?

Na verdade não esperava isso da minha carreira, nem esperava ser toxicologista. A minha formação básica começou no Colégio Técnico da Unicamp, depois fiz Biologia e depois, indo para a CETESB, comecei a trabalhar com poluição e fui me transformando numa toxicologista, aprendendo com as situações e por pura necessidade. Então foi uma surpresa muito agradável para mim ser considerada uma mulher pioneira. 

Após fazer toda sua formação na Unicamp, a senhora tem uma carreira na CETESB e depois retorna à Universidade. Conte um pouco sobre essa trajetória. 

Sou uma pessoa formada pela Unicamp e que usufruiu do sistema público por muitos anos. Eu fiz Colégio Técnico, me formei em Tecnologia de Alimentos, trabalhei um ano como estagiária no próprio Colégio Técnico, depois fiz Biologia na Unicamp, mestrado e doutorado em Biologia na Unicamp, no doutorado já trabalhando na CETESB. Depois construí toda uma carreira mais aplicada na CETESB. Em 2009 voltei para a Unicamp e virei pesquisadora. Comecei uma carreira universitária tarde, já tinha 52 anos quando voltei para a Unicamp em 2009, e dali construí uma carreira de novo até chegar à posição hoje de professora titular. Tive que correr um pouquinho, trabalhar bastante nesse período para conseguir alcançar a questão das publicações, grupo de pesquisa, etc. Então tive uma carreira digamos que dupla. Na CETESB, por um lado, fazendo pesquisa aplicada, mas muito menos pesquisa do que gostaria. E depois, a partir de 2009, envolvida muito no desenvolvimento do laboratório que hoje coordeno, o LAEG. 

audiodescrição: fotografia colorida da professora gisela umbuzeiro
“Essa sempre foi minha forma de fazer pesquisa: olhar para uma pesquisa avançada, de ponta, mas sempre aplicada”, afirma professora Gisela Umbuzeiro 

Depois de uma carreira na Cetesb, quando e por que a senhora decide retornar à academia? 

Quando eu me formei, quando estava no mestrado e doutorado, a minha paixão era continuar na Unicamp e foi um sonho guardado no coração por muitos anos, tendo em vista que entrei na Unicamp no Colégio Técnico, então eu sempre amei essa universidade. O que aconteceu é que não surgiram oportunidades para um concurso. Na época, nos anos 80, era tudo mais difícil, e eu consegui esse trabalho na CETESB em 1986. Não era meu plano, mas adorei e aprendi demais. Na CETESB me autorizaram a acabar meu doutorado, o qual acabei fazendo em uma área bem aplicada e bem moderna, que era aplicação dos testes de mutagenicidade em água, coisa que ninguém fazia, nem em nível mundial ainda. A CETESB foi pioneira nesse assunto. Então eu consegui usar meu conhecimento, que eu tinha recém adquirido no curso de mestrado, e aplicar nessa área nova que eu aprendi na CETESB, e foi lá que eu fui apresentada para o Teste de Ames. O pessoal lá tinha cooperação com o Canadá e eu acabei aprendendo esse novo ensaio e consegui me desenvolver nisso. Aí começou toda minha trajetória na área toxicológica, mas o sonho de fazer pesquisa continuou muito grande, e a CETESB não é uma empresa cujo propósito é fazer pesquisa. Ela é uma empresa de controle ambiental, até tem pesquisa aplicada, mas menos do que eu gostaria. Então eu continuei durante os 22 anos em que estive lá fazendo um pouquinho mais de pesquisa do que era esperado para ser feito dentro da CETESB. Acabou que eu não conseguia deixar de continuar com o sonho de ser professora universitária, de ter um laboratório para fazer pesquisa com toda liberdade que é inerente ao cargo de pesquisador universitário. Eu estava desgastada, apesar de ter aprendido muito e curtido muito trabalhar os 22 anos lá, sentia que faltava e que tinha a contribuir na área de pesquisa. Em 2009 surgiu um concurso na minha área especificamente, na Faculdade de Tecnologia de Limeira, que era CESET ainda. Eu prestei o concurso, passei e acabei sendo uma jovem professora de 52 anos. 

E como essas duas experiências profissionais – na Cetesb e na Unicamp – se complementam e incidem sobre a sua forma de atuação acadêmica?

A minha experiência na CETESB impactou muito a forma de fazer pesquisa e a forma de enxergar como fazer a ligação entre a pesquisa que a gente desenvolve na faculdade e aquilo que os órgãos ambientais necessitam. Acho que há um equívoco quando se acha que fazer pesquisa é só denunciar, que alguém do órgão ambiental vai conseguir fazer alguma coisa. Na verdade não funciona assim. A gente precisa, enquanto órgão ambiental, lá na ponta, de soluções. Dos problemas e das soluções juntos. Essa sempre foi minha forma de fazer pesquisa: olhar para uma pesquisa avançada, de ponta, mas sempre aplicada, porque precisamos dar as soluções. Com isso, eu consegui dar aulas na Faculdade também sempre pensando naquilo que o aluno precisaria conhecer e ter de informação para um dia trabalhar lá na CETESB, por exemplo. Então minhas aulas também têm sempre um caráter aplicado e eu acho que foi uma combinação muito legal, o que torna uma experiência única. No fim, foi bacana não ter entrado na Universidade lá atrás quando eu queria, porque eu teria tido uma carreira diferente da que tenho. Então hoje me sinto à vontade para fazer essa ligação entre ciência pura, ciência aplicada, regulamentação e trazer soluções e melhorias na qualidade de vida, porque é disso que se trata a nossa existência na área ambiental. 

Quais são as pesquisas e estudos que você considera mais importantes ao longo da sua trajetória profissional e como avalia o impacto deles?

Considero que o mais importante foi utilizar ferramentas muito modernas, como é o caso de bioensaios de mutagenicidade, para avaliação da qualidade das águas. Disso decorreu uma série de pesquisas inovadoras, onde tentamos descobrir aquilo que estava causando um efeito no rio, e não tínhamos ideia de que substância química poderia ser. Isso acabou me levando para colaborações fora do país, incluindo trabalhos na EPA dos Estados Unidos e em que acabei encontrando a causa da poluição mutagênica no Ribeirão [dos Cristais], isso ainda trabalhando na CETESB, o que me levou a estudar corantes e toxicologia de corantes. Acredito que essa foi minha maior contribuição: juntar a parte aplicada com a ciência mais avançada e inovadora, especialmente na área de corantes e do impacto de corantes no meio ambiente, o que sempre foi pouco estudado.

audiodescrição: fotografia colorida da professora gisela umbuzeiro
Gisela Umbuzeiro: “fui uma mulher cientista desde cedo”

Entre as pesquisas destacadas recentemente, está a análise da presença de agrotóxicos na água. Qual a importância desse monitoramento e o que dizem a respeito do uso de agrotóxicos no país? 

A minha preocupação com agrotóxicos já é bastante longa, desde a minha época da minha participação nas legislações Conama. Mas a minha linha de pesquisa em agrotóxico em água é muito mais recente e veio de uma cooperação também com a Unicamp, com a professora Cassiana [Montagner], que foi minha pós-doc quando começamos a estudar agrotóxicos na água e verificar o seu impacto. Apesar de que todos se preocupam muito com a questão dos agrotóxicos em águas de beber, o nosso foco no trabalho é a preocupação também com a preservação da vida aquática, ou seja, a presença de agrotóxicos em relação à preservação da vida aquática. Hoje o que se pode dizer é que apesar do país ser um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, na questão da água de beber existe a presença mas com pouco impacto na saúde humana, pelo menos via água. Mas o impacto na preservação da vida aquática é muito grande. Considero que essa é uma das partes em que contribuímos mais na literatura. Fizemos também uma revisão de literatura bastante importante, pontuando como o Brasil tem poucos dados sobre agrotóxicos em água, não só em água de beber mas também em águas de rio. Nossa pesquisa mostra a importância de ter muito mais estudos sobre a presença de agrotóxicos nos corpos d’água para que possamos ter uma opinião a respeito.

Você considera que há mais dificuldades para as mulheres cientistas desenvolverem sua trajetória? Sentiu alguma dificuldade relacionada ao fato de ser mulher?

Acho que é muito difícil ser mulher e cientista, por conta da carga extra que temos em relação aos cuidados da casa e dos filhos. Claro que hoje as coisas são um pouco diferentes, mas na minha época o que se esperava de uma mulher era que cuidasse da casa e do marido e se quisesse trabalhar, podia, mas desde que não prejudicasse suas funções principais. Essa era mais ou menos a cultura em que vivi. Eu fui uma mulher cientista desde cedo, fiquei grávida fazendo ciência, cuidei das crianças e foi uma carga adicional. Na época, não me dava conta dessa carga adicional, mesmo porque ficava feliz de poder ter um emprego sendo mulher. Mas hoje, olhando para trás, vejo que é muito mais difícil, a maternidade dificulta. E também muitas mulheres de hoje são separadas dos seus maridos e têm também uma carga muito grande para cuidar da casa e dos filhos. Então, sempre, me parece, ser mulher é mais difícil para a questão científica. 

Porém, acho que é um desafio que vale a pena. A gente envolve a família na ciência, a gente envolve as crianças na ciência. Eu tenho o prazer de ter levado minhas filhas e meus netos e levo até hoje em congressos. Então, no final, acho que acaba sendo um aprendizado para todos e acho que a ciência é uma profissão que permite esse envolvimento familiar. Meu marido, minha mãe, todo mundo acaba se envolvendo e participando de certa forma, e ajudando na viabilização pelo menos das idas aos congressos, ou quando a gente precisa estar escrevendo um paper. Toda família consegue perceber a importância, muitas vezes, e se torna uma atividade familiar. Mas sem dúvida alguma ser mulher é mais difícil. 

Como avalia a importância do campo da toxicologia e a atuação das mulheres na área? 

A toxicologia é uma ciência muito nova. E se for considerar a toxicologia ambiental, é mais nova ainda. É uma ciência interdisciplinar, ninguém consegue fazer ela sozinha, ninguém se forma em toxicologia. É uma ciência que requer muita conversa, muito contato, muita humildade para aceitar que a gente não sabe fazer tudo e confiança no sentido de ter parcerias. Acho que particularmente as mulheres têm uma capacidade de fazer isso, talvez sejam mais treinadas a aceitar esse trabalho mais em comunidade do que os homens, que têm talvez uma trajetória mais isolada em algumas das profissões mais tradicionais. Tenho impressão que as mulheres se dão bem na toxicologia. Os grandes toxicologistas no Brasil eu diria que são mulheres, as pessoas que foram mais pioneiras em geral são mulheres. No conjunto, as mulheres tiveram um papel bastante importante no desenvolvimento da toxicologia brasileira, desde o início, com a professora Ester [Moraes], que trouxe uma coisa nova no Brasil. 

A toxicologia hoje se torna cada vez mais importante no dia a dia. As pessoas têm uma péssima cultura de achar que o mundo é sim ou não, tóxico ou não tóxico, preto ou branco. Na verdade na vida e na toxicologia é tudo meio em tom de cinza, não existe branco e preto, tóxico e não tóxico. Existe a gente conseguir gerenciar o risco da presença de substâncias tóxicas no meio ambiente, que sempre existiram e sempre existirão. É uma ciência complexa que requer reflexão e treinamento. Com isso, sabendo dessa cultura, nós fizemos dois livros infantis, minha filha e eu, que têm essa ideia de começar a colocar a toxicologia dentro da cultura da criança, para já crescer com esse pensamento. Então temos um que se chama “A luz da Lula” e outro “Tudo depende”, que é relacionado ao fato de tudo depender da dose. 

Conte um pouco sobre as pesquisas que está envolvida no momento, os desafios e projetos que tem.

Atualmente eu trabalho com corantes naturais. Tenho um projeto muito bacana, liderado por uma mulher finlandesa, financiado pela academia de ciências finlandesa e pela Fapesp. Uma parte desse projeto é a avaliação da toxicidade de corantes naturais oriundos de plantas, fungos e produzidos por biologia molecular. Esse projeto tem toda a ideia de explorar o uso desses corantes naturais para desenvolver produtos mais sustentáveis. A parte que coopero é na avaliação toxicológica desses produtos, usando os modelos que tenho no meu laboratório para avaliação de genotoxicidade, ou seja, avaliar se esses produtos podem causar câncer. As pessoas geralmente acham que produtos naturais não causam nenhum efeito adverso, o que não é verdade. Então é muito importante essa avaliação. Nosso grupo de pesquisa, o LAEG, na FT, faz essa avaliação da segurança desses corantes naturais, estuda também a toxicidade aquática desses corantes, usando modelos tanto de água doce como de água marinha. Esse projeto, chamado Toxic Biocolour, é um projeto filho do projeto grande da Finlândia, que se chama Biocolour, e que pode ser acessado na Fapesp virtual. A Fapesp está dando esse suporte para fazer uma avaliação mais completa da toxicidade desses corantes. Dentro do projeto internacional está envolvida também a Carolina do Norte, através do Wilson College of Textiles, onde os corantes são purificados, caracterizados e avaliados quanto à sua eficiência como corante. Eu sou pesquisadora colaboradora, adjunct professor, do College of Textiles, então essa interação entre Carolina do Norte, Finlândia e Brasil tem sido muito profícua e esse projeto está sendo um desafio para todos, incluindo para nossos alunos, que estão desenvolvendo suas teses nessa temática.

Falando sobre desafios, existe um grupo na Unicamp, liderado pelo professor Kubota, do Instituto de Química, onde nós estamos já há algum tempo tentando viabilizar o Brazilian Water Research Center, que é um centro de pesquisa internacional em águas com financiamento da Fapesp, da Sanasa e da Unicamp. É um centro bastante grande que pretende fazer pesquisa desde pesquisa pura, de desenvolvimento tecnológico e aplicada na melhoria da qualidade das águas, não só na região de Campinas como do Brasil e da América Laitna, através da inovação. Esse projeto ainda está em finalização, então ainda o colocaria como um dos grandes desafios da minha carreira, o qual olho com muito gosto. A minha parte nesse projeto é transformar inovação em realidade através do desenvolvimento e aprimoramento das regulamentações brasileiras e regulamentações estaduais e municipais. 

Outra coisa que gostaria de comentar é que durante toda minha carreira tive ajuda de muita gente, participaram da minha vida muitas pessoas, desde a CETESB até pesquisadores de vários lugares do mundo. Um agradecimento enorme a todos os meus alunos, que são eles que fizeram a ciência acontecer,  meus alunos desde de iniciação científica, bolsistas SAE, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Também a colegas da Unicamp, técnicos da faculdade, tenho apoio muito grande dos técnicos da FT. Também agradeço à FT pelo apoio. Então, como se pode ver, eu sou Unicamp de cabo a rabo.

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