A escola mudou, mas não para todos: a urgência de um novo pensamento sobre tecnologias educacionais

Tecnologias educacionais funcionam melhor quando orientadas por estudantes, docentes e profissionais da educação — amplificando e não automatizando possibilidades

Finalmente a escola mudou, mas não para todos. No Brasil, muitas instituições privadas já operam no século 21, com o uso de pedagogias e tecnologias modernas, enquanto a sociedade mantém a escola pública abandonada no século 19. A pandemia escancarou ainda mais essas desigualdades e mostrou o quanto estamos despreparados. Além de trágica, a pandemia nos alerta para rever e avançar políticas que tratam das tecnologias na educação.

Tecnologia educacional tem sido tratada como um simples problema de conectividade de internet e compra de equipamento, ou como uma atividade extraclasse e “divertida”. Incorrer nesses erros gera desigualdades terríveis. Na verdade, videoaulas, oficinas de robótica, espaços maker, aplicativos, softwares de colaboração e até redes sociais compõem hoje um novo ecossistema de oportunidades para ensinar e aprender. Essa multiplicidade requer novas políticas de estado e sobretudo uma visão diferente de como abordar a questão.

Em primeiro lugar, não podemos mais discutir se a tecnologia deve estar na escola, mas como isso deve acontecer. Não perguntamos mais se o lápis ou o livro devem entrar na escola. Da mesma forma, não há como participar hoje do mundo do conhecimento sem tecnologia. Mas isso não significa só ser usuário de tecnologia (videoaulas ou processador de textos), mas também produzi-la (programação, robótica, têxteis digitais), conhecer seus riscos (capitalismo de vigilância) e limitações. E há várias categorias de tecnologia: não podemos mais tratá-las como uma coisa só.

O conhecimento e experiência necessários para desenvolver hardware ou instalar cabeamento de internet em escolas é diferente do que é necessário para o desenho de currículos ou para projetar espaços “maker”. Surpreendentemente, em muitos casos, a empresa fornecedora de hardware, ou de um software de edição de textos, também treina professores e fornece planos de aula.

Para ajudar a repensar essa questão, o Transformative Learning Technologies Lab, laboratório da Universidade de Columbia (EUA), o Todos Pela Educação e a associação D3e (Dados para um Debate Democrático da Educação) elaboraram o relatório “Tecnologias para uma educação com equidade: novo horizonte para o Brasil”.

Quatro dimensões para novas políticas públicas

Ações isoladas — como a compra de laptops, chips para celular, ou a adoção de apenas uma plataforma de ensino — têm alcance limitado como política pública. Além disso, gestores estão atordoados com as ofertas de serviços digitais “de graça” oferecidos por diversos fornecedores, que se acumulam e acabam confundindo professores e estudantes, impedindo a articulação de ações mais coerentes. O “de graça” acaba saindo caro. Dada a complexidade da escola e a multiplicidade de soluções tecnológicas possíveis, gestores precisam articular ações em diferentes níveis para criar reformas sustentáveis.

No relatório, são propostos quatro aspectos cruciais: 1) recursos e infraestrutura; 2) profissionais e formação; 3) proteção de dados pessoais e; 4) institucionalização de uma estratégia nacional.

1) RECURSOS E INFRAESTRUTURA

Recursos e infraestrutura são essenciais, e compreendem três aspectos: insumos, licenças de uso e transparência em contratos públicos. Os insumos tecnológicos, como acesso ilimitado à internet, computadores e laboratórios, são recursos básicos. Nada de contar com os celulares ou planos de dados dos alunos, ou imaginar que todos os jovens brasileiros vivem em um país imaginário onde todos tem acesso ilimitado à internet. Acesso online e seus dispositivos devem ser garantidos pelo Estado, ponto final. Softwares, hardwares e licenças de uso precisam ser acessíveis a todos. O poder de auditoria em contratos deve ser resguardado, a fim de que órgãos públicos e sociedade civil possam colaborar com a garantia da transparência dos sistemas e evitar desvios dos recursos ou propósitos públicos. Empresas que cedem seus serviços “gratuitamente” às secretarias de educação devem ter contratos analisados com rigor. Muitos deles estão repletos de armadilhas para gestores públicos.

2)PROFISSIONAIS E FORMAÇÃO

Um programa de tecnologias na educação requer formação em alto nível de vários tipos de profissionais. Além das professoras e professores, que certamente ocupam um papel central neste processo, é fundamental que gestores escolares e públicos tenham o conhecimento necessário para o desenho de políticas; que sejam implantadas linhas de fomento para pesquisadores; e que empreendedores estejam preparados para colaborar, de fato, com gestores, educadores e estudantes, e não despejar produtos de “edtech” de paraquedas nas escolas.

3)DADOS PESSOAIS

Os dados de alunos e educadores são um bem pessoal e devem ser protegidos. Sua coleta, armazenamento e processamento sem transparência devem ser enfrentados por políticas públicas e regulação específica. Com a aprovação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) as autoridades têm a obrigação de garantir proteção, privacidade e bom uso de dados coletados e armazenados na escola. Precisamos proporcionar transparência sobre como eles são utilizados para a individualização do comportamento dos usuários e evitar a sua comercialização.

4)ESTRATÉGIA NACIONAL

Uma estratégia nacional é uma política de estado para orientar e institucionalizar os esforços de vários entes da federação, terceiro setor, entidades privadas e pesquisadores. O Brasil tem projetos, como o Programa de Inovação Educação Conectada, que trouxeram muitos avanços e temas para o debate – mas a tecnologia avança ainda mais rápido para o ritmo de evolução e implementação dessas iniciativas. Uma estratégia pertence à coletividade e representa a visão de futuro do país. Para que tenhamos uma estratégia nacional discutida contínua e democraticamente pela sociedade, é necessário criar:

-um fórum com representatividade nacional que priorize os interesses da educação pública;
-uma escola nacional articulada com universidades e com o terceiro setor e;
-um laboratório de práticas que prepare gestores para a compreensão das tecnologias atuais e certifique tecnologias baseadas em evidências.

Não há tecnologia capaz de assumir o papel do professor. Na medicina, por exemplo, a tecnologia não substitui o médico, mas potencializa sua habilidade de cura e diagnóstico. Tecnologias educacionais funcionam melhor quando orientadas por alunos, professores e gestores — amplificando e não automatizando possibilidades. Tecnologias nas escolas são um passo fundamental para um novo horizonte no desenvolvimento emancipatório da criatividade, potencial e autonomia de todas as crianças e adolescentes do Brasil. Não deixemos essa oportunidade passar mais uma vez.

Paulo Blikstein é professor no Teachers College da Universidade de Columbia (EUA), e professor afiliado no Departamento de Ciência da Computação na mesma universidade. Diretor do TLT Lab. Fundador e diretor do Centro Lemann da Universidade de Stanford (2011-2018). Doutor em ciências da aprendizagem pela Northwestern University (EUA), mestre pelo Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (EUA) e engenheiro pela Escola Politécnica da USP. Co-fundador e presidente da Associação de Ciências da Aprendizagem/Brasil.

Rodrigo Barbosa e Silva é pesquisador no TLT Lab, cientista da computação. Doutor em tecnologia e sociedade pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná/PPGTE. Pós-doutor pela Universidade de Stanford (EUA). Empreendedor da computação.

Fabio Campos é doutorando em ciências da aprendizagem na Universidade de Nova York (EUA). Pesquisador residente no TLT Lab. Mestre em aprendizagem, design e tecnologia pela Universidade de Stanford (EUA). Comunicador social formado pela UFRJ e co-fundador do curso invest, programa de educação popular no Rio de Janeiro. Co-fundador e diretor da Associação de Ciências da Aprendizagem/Brasil.

Lívia Macedo é gerente de inovações para políticas de aprendizagem no TLT Lab (Universidade de Columbia). Mestre em aprendizagem, design e tecnologia pela Universidade de Stanford (EUA). Co-fundadora e diretora da Associação de Ciências da Aprendizagem/Brasil.

Antonio Bara Bresolin é diretor executivo do D3e. Atua desde 2008 no campo da educação, com enfoque em pesquisa e avaliação de políticas e projetos sociais; trabalhou em institutos, fundações empresariais e prestou consultoria para organizações da sociedade civil. Formado em ciências econômicas pela FEA/USP e mestre em administração pública pela FGV/EAESP.

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