Neldo Cantanti, artista da luz

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Neldo Cantanti era um tanto descuidado com o acervo pessoal, rico em registros, mas sem nomes e datas; é possível identificar o fotógrafo Nelson Chinalia (abaixo à direita) e o cantor Agnaldo Rayol (acima à direita)

“Meu pai era um artista da luz, que elevou a fotografia ao grau de arte. São obras de arte registradas através de uma câmera fotográfica. Seu olhar preciso transformava luz em poesia”, afirma Neldinho, filho do fotógrafo Neldo Cantanti, cujo falecimento, muito provavelmente de infarto, foi anunciado na sexta-feira 30 de julho. “Ele elevou também a sua vida ao estado da arte, extraindo muita coisa bonita do que vivenciou com os olhos. É algo interessante de analisar: poucas pessoas viveram a vida com tanta intensidade, entre a seriedade e a brincadeira, entre a vida boêmia e a vida profissional, tudo levado, às vezes, com muita regra, outras vezes, com pouca regra.”

Neldo Cantanti era considerado um ícone do jornalismo fotográfico, não apenas por inúmeras fotos marcantes da história da cidade, mas pela própria história oral que carregava, sempre surpreendendo os ouvintes pela riqueza de detalhes e precisão de datas. Era uma memória viva de Campinas, que a cidade e a sociedade perdem, bem como a Unicamp, onde ele trabalhou de 2001 até 2007. Jovial e educadíssimo no trato, o fotógrafo também era famoso pelo mau-humor diante de determinados trabalhos, rabugice que os amigos aprenderam a interpretar pelo viés cômico.

Neldinho Cantanti: "Gosto de dizer que ele era um dos últimos epicuristas"
Neldinho Cantanti: “Gosto de dizer que ele era um dos últimos epicuristas”

“Um rabugento alegre”, na definição de Neldinho, que se intrigava e continua intrigado com a personalidade paradoxal do pai, que vivia e respirava jornalismo, mas também adorava a boemia (frequentando de rodas de samba à ópera), as corridas de cavalo e as pescarias no Mato Grosso ainda selvagem. “Ao mesmo tempo em que se mostrava bravo, soltava uma pérola para rirmos, um humor afiado e inteligente, uma visão de mundo crítica e as vezes amarga, porém com ternura e esperança, sempre extraindo o lado bom da vida. Gosto de dizer que Neldão foi um dos últimos epicuristas: conseguiu extrair prazer da vida mesmo diante das angústias e das tristezas que a profissão de repórter fotográfico proporciona.”

Uma imagem que Neldinho nunca vai apagar da mente é a de Neldo Cantanti tentando fugir do Hospital Samaritano, no meio de uma revisão regular do marca-passo. “Acabou o horário de visita e pediram para eu me retirar. Ele disse que não queria ser deixado sozinho e, ao saber que só teria alta no dia seguinte, arrancou os catéteres e tentou pôr a calça ainda de camisola. A UTI não tem paredes entre os leitos. Ao tentar se apoiar numa cortina, ainda vestindo camisola e calça, tropeçou, bateu a cabeça e derrubou outra cama provocando um barulhão, veio um monte de enfermeira. A cara dele era de moleque assustado. Devido à queda, o médico pediu uma tomografia. Foram mais dois dias de UTI.”

Neldo com a jornalista Teresa Costa e o ex-goleiro Carlos junto com Neldinho (a Ponte Preta era uma paixão)
Neldo com a jornalista Teresa Costa e o ex-goleiro Carlos junto com Neldinho (a Ponte Preta era uma paixão) 

Devido à pandemia, Neldinho e Neldão se falavam pelo celular todas as noites, para o Programa do Datena ou Jornal da Band “comentados”, em que trocavam opiniões sobre o noticiário e sobre resultados e prognósticos da Fórmula-1, uma paixão de ambos. Na quinta-feira à noite, Neldinho tentou vários contatos por telefone sem sucesso, e ao correr até a residência encontrou Neldo Cantanti caído no banheiro, mas sem ferimentos, indicando que não sofreu. A última ironia foi a cremação em Rio Claro, devido à gripe de alguns dias que impossibilitou velório presencial. “O maior tesouro que meu pai me deixou foram os amigos, cada um carregando dentro de si um pedacinho dele, formando um caleidoscópio vivo de memórias e sentimentos eternos para mim. Os amigos dele são meus amigos, a gente se torna uma família.”

Neldo ao fundo, Neldinho e os netos Isabela, Mateus e Gabriel
Neldo ao fundo, Neldinho e os netos Isabela, Mateus e Gabriel 

Amigos contam causos

O jornalista Ronaldo Faria, amigo tão próximo a ponto de chamar Cantanti de pai, nunca se esquecia do aniversário dele em 21 de abril (embora o registro oficial seja de 7 de maio), sendo reconhecido carinhosamente como “meu filho carioca”. “Foi o primeiro fotógrafo com quem trabalhei na rua, no extinto Diário do Povo. Primeira matéria, no dia 6 de janeiro de 1982. Ele era o chefe do Departamento de Fotografia. Havia chovido muito. Entrei no Fusca e o Neldo me mandou ir para trás, porque fotógrafo é que tinha de ir na frente. E começou a reclamar e xingar a viagem toda porque teria de fazer de novo outra matéria de ‘buraco de rua’. Fiquei tenso.”

O fotógrafo Antoninho Perri, colega na então Assessoria de Comunicação e Imprensa (Ascom) da Unicamp, endossa outra lembrança de Ronaldo Faria: que Neldo Cantanti era um bom gourmet, embora tivesse perdido o olfato depois do acidente em que entrou debaixo de um caminhão com seu Karmann Ghia (ou Puma). Isso teria prejudicado seu apetite, o que nunca se confirmou, ao contrário: em um bom rodízio da cidade, foi flagrado passando uma nota de 10 reais ao garçom; na mesa só chegava cordeiro . “Era meu companheiro de profissão, de vida e de noitada: gostava de um vinho chamado Gato Verde quando íamos petiscar.”

Em foto mais recente com Ronaldo Faria, "o filho carioca", no Café Regina, do qual era assíduo
Em foto mais recente com Ronaldo Faria, “o filho carioca”, no Café Regina, do qual era assíduo

Perri afirma que Cantanti foi um mestre que lhe ensinou todos os passos da fotografia, desde que pensou estar empregado numa auto elétrica e na verdade era numa casa de fotografia, sendo dali indicado para o laboratório do Diário do Povo. “Ele era rigoroso, criticava muito minhas fotos, dizendo que eram ruins, mas também elogiava quando eu chegava com fotos boas. Desde então cultivamos uma amizade que envolveu nossas famílias e culminou aqui na Unicamp. Depois que se aposentou, sabia que poderia vê-lo no supermercado da Barão de Jaguara ou no Café Regina.

O fotógrafo Antonio Scarpinetti conviveu com Cantanti durante um período de transição no fotojornalismo da Ascom da Unicamp, que passava das câmeras Nikon F3 e F4 (com revelação e ampliação em papel) para as digitais. “Eu me recordo que a primeira digital que chegou foi a Mavica, uma máquina automática lançada pela Sony e cuja gravação de fotos era feita num cartão em formato de disquete. Lento e com pouco espaço de gravação, Neldo, debochado e com toda sua experiência, apelidou o equipamento de ‘mata-rato’. Trabalhamos nessas condições por cerca de dois anos, sem que Neldo, mesmo de mau humor, deixasse de cumprir as pautas com correção e excelência, até que vieram as digitais da Nikon.”

Isabel Gardenal, jornalista então lotada na Ascom, recorda de uma tarde pesada, com três pautas para registro fotográfico ocorrendo quase no mesmo horário. Saiu com Neldo Cantanti rumo ao Complexo Hospitalar, a fim de entrevistar um pesquisador conceituado que havia recebido um prêmio internacional. “Fiz a entrevista rapidamente, avisada de que o docente estava com pressa. Mas não foi bem assim. A sessão de fotos não tinha fim, já que o entrevistado sempre chamava um novo colaborador, para dar crédito à sua equipe. A certa altura, Neldo não se conteve: ‘qual será o próximo palhaço que vou ter de fotografar?’. Envergonhada com a situação, saí dali pedindo desculpas e sem muita conversa. No carro, Neldo bateu no ombro e caímos na risada.”

Antoninho Perri, Isabel Gardenal e Antonio Scarpinetti: Amigos contam causos
Antoninho Perri, Isabel Gardenal e Antonio Scarpinetti: Amigos contam causos

Batismo de fogo

Em perfil publicado no Correio Popular em 2016, o jornalista Rogério Verzignasse recorda:

“O ‘batismo de fogo’ na profissão de repórter fotográfico de Neldo Cantanti foi a cobertura do trágico acidente com o avião da Aerolíneas Argentinas, que em 61 se espatifou no barranco, logo depois de decolar de Viracopos. Morreram 52 pessoas. E Neldo registrou, para as páginas do Diário do Povo, as imagens chocantes da fuselagem retorcida e da mata em chamas.

O número de celebridades fotografadas ao longo do tempo é absurdo. Ele clicou a rainha da Inglaterra que visitava Campinas, em 68. Eternizou a imagem de Niki Lauda em 76, quando o austríaco ferrarista se tornou o primeiro europeu a vencer o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, em Interlagos. No comecinho dos anos 80, fez fotos de João do Pulo no hospital, depois do acidente trágico que lhe amputou uma perna. Madre Teresa de Calcutá aparece rodeada de repórteres e fãs no aeroporto; Gianfrancesco Guarnieri fala a uma multidão de estudantes da Unicamp. Tinha notícia, Neldo estava por perto.”

Assista ao programa produzido pela TV Unicamp “Especial Fotografia: Recortes da memória: Primeiras impressões. O início do Fotojornalismo”:  

Originalmente publicado em...