Seiscentos mil mortos e a ciência intubada

Toda metáfora corre o risco de sequestrar a força literal de uma palavra. Afirmar que a ciência foi intubada nos conecta, de imediato, à situação dramática da Covid-19. E faz pensar, rapidamente, nas consequências das atuais políticas de governo para o desenvolvimento da ciência. Entretanto, o impacto é diferente quando escutamos que um ente querido foi intubado.

É o vínculo pessoal que atribui valor ao mundo que nos cerca. São nossos projetos, sonhos e engajamentos éticos que conferem sentido às relações humanas. É por isso que lamentamos, sofremos e almejamos um mundo mais justo quando o número de 600 mil mortes se transforma em rostos, em histórias interrompidas e em narrativas pessoais.

Transformar números em narrativas é o desafio que cientistas e gestores democráticos precisam urgentemente enfrentar. A universidade tem o dever de mostrar que há uma conexão, para além daquela metafórica, entre a morte diária de cidadãos brasileiros em decorrência da pandemia e as histórias acadêmicas natimortas.

Jovens estudantes são privados da oportunidade de florescerem como seres humanos e, também, de ajudarem no desenvolvimento social, econômico e cultural do nosso país quando uma política de governo arruína o orçamento de uma área estratégica, como é o caso do corte de R$ 515 milhões que seriam alocados para o CNPq. Pesquisadores que poderiam, em um futuro não muito distante, com sua curiosidade científica e paixão pela vida, aliviar o sofrimento de seus semelhantes.

Os 600 mil mortos e o descaso com a ciência em nosso país fazem, ambos, parte das nossas estatísticas fúnebres. A Unicamp, uma vez mais, manifesta sua solidariedade a todas as famílias das vítimas da Covid-19 e aos inúmeros pesquisadores afetados por uma política de governo insensível ao trabalho científico e, também, aos padrões mínimos de convívio humano.

Em que pesem as adversidades, vamos continuar com nossa incondicional defesa da ciência e da pesquisa, motores do desenvolvimento da sociedade, indispensáveis para o enfretamento de futuras catástrofes, cujo prejuízo humano nunca podemos perder de vista.

Reitoria Unicamp

Campinas, 13 de outubro de 2021

                                                       

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