Alunas de escola estadual em Leme desenvolvem jogo para promover a conscientização de adolescentes e jovens acerca das características de um relacionamento abusivo

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência no último ano no Brasil, durante a pandemia de Covid-19. Ainda, em abril de 2020, quando o isolamento social já durava um mês no Brasil, a quantidade de denúncias de violência contra a mulher recebidas no canal 180 cresceu quase 40% em relação ao mesmo mês de 2019.

Foi a partir destes dados que a Escola Estadual Professora Maria Joaquina de Arruda, em Leme, desenvolveu o jogo ‘CARTAS DA CONSCIENTIZAÇÃO: Reconhecendo Relacionamentos Abusivos’, que agora foi transformado no aplicativo ‘Será que é amor?’. O objetivo é promover a conscientização de adolescentes e jovens acerca das características de um relacionamento abusivo. Em 2020, o jogo de cartas ganhou o primeiro lugar na categoria Ciências Sociais Aplicada na 8ª Mostra de Ciências e Tecnologia do Instituto 3M e, em 2021, o aplicativo ficou em segundo lugar da 9ª Mostra na mesma categoria.

“Inicialmente, em 2020, era um jogo de cartas físicas, com a proposta de estruturar a discussão de um assunto de extrema relevância social, porém de difícil acesso aos alunos de uma maneira mais leve, em uma linguagem em que eles entenderiam, a linguagem game. Porém, com a necessidade do isolamento social, os casos de violências de gênero dispararam e vimos a necessidade de discutir mais sobre o assunto. Assim surgiu a ideia em transformar esse jogo de cartas físicas em um app, um jogo virtual, com o intuito de informar e conscientizar o maior número de pessoas possíveis”, explica o professor de matemática, Aber Hilton Galhardo, um dos coordenadores do projeto.

Por meio de cartas, o aplicativo apresenta características de um relacionamento abusivo, representadas por falas cotidianas de um relacionamento juvenil e também por falas que caracterizam um relacionamento saudável e o usuário as categoriza. “A proposta é conscientizar adolescentes sobre as possíveis sutilezas de um relacionamento tóxico, bem como suas consequências, na busca pela prevenção e combate à violência de gênero em nossa sociedade”, contextualiza a professora de sociologia Renata Galvani Braga, que também coordena o projeto. “Percebemos atualmente um maior envolvimento dos adolescentes e jovens nos debates acerca do tema relacionamentos abusivos, e abrir essa porta dentro da escola é fundamental para a produção de um debate honesto, embasado e seguro para eles”, completa.

As alunas do ensino médio Beatriz Hildebrand, Kathleen Domingos e Keyth Oliveira foram as responsáveis pelo projeto que realizaram em conjunto, desde a pesquisa, processo de criação até o design. “Com esse projeto, tive mais consciência do quanto o machismo é danoso para todos, mas disparadamente para as mulheres. Enquanto seres humanos e, principalmente, enquanto mulheres, nós podemos e devemos desenvolver métodos que possam erradicar (ou pelo menos diminuir) a incidência da violência de gênero”, argumenta Beatriz.

“Durante as pesquisas e em conversas com as adolescentes, percebemos as sutilezas de um relacionamento abusivo que costuma começar com pequenas privações e que muitas vezes são romantizadas, como se fossem uma preocupação do parceiro”, analisa.

“Várias amigas me contaram sobre relacionamentos abusivos que passaram com ex-namorados e entendimento só veio após ter tido a experiência de jogar”, conta Kathleen. “Inclusive, muitas falas que estão nas cartas do jogo são falas de colegas nossas ou de nossas próprias experiências”, completa.

A 9ª Mostra de Ciências e Tecnologia Instituto 3M integra o Desafio de Inovação Instituto 3M, que tem como principal objetivo a formação de professores para a prática das ciências e a orientação de projetos investigativos realizados por estudantes da educação básica.

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